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Brasil Revolta
no Conselhão Criado por Lula em
2003, o Conselho de Desenvolvimento virou um palanque, para seu comandante
pedir idéias para um segundo mandato. A platéia ficou irada
 Julia
Duailibi Ricardo
Stuckert/PR
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Na semana passada, o famoso Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social,
através do qual o governo Lula pretendia estabelecer um diálogo
permanente com uma parcela da sociedade brasileira, realizou sua 17ª reunião
em Brasília mas, pelas divergências e constrangimentos que
provocou, talvez tenha sido sua última. Diante da presença de menos
de setenta pessoas, entre empresários, sindicalistas, professores universitários
e ongueiros, o comandante da reunião, o ministro Tarso Genro, fez seu número
de prestidigitação e disse à platéia que o governo
vive um momento de normalidade. Em seguida, festejou a decisão da Ordem
dos Advogados do Brasil (OAB) de não pedir o impeachment do presidente
Lula, limitando-se a enviar uma notícia-crime ao Ministério Público
na qual pede o aprofundamento das investigações sobre a eventual
participação do presidente no mensalão. Para completar, Genro
pediu aos presentes que formulassem sugestões para um plano de desenvolvimento
estratégico para o próximo governo. Uma parte da platéia,
sentindo-se transformada em massa de manobra eleitoral ao perceber que Genro queria
idéias para a reeleição, ficou estupefata.
A médica Zilda Arns, que integra o conselho como representante da Pastoral
da Criança, foi um dos presentes que não gostaram do que ouviram.
"Acho que essas coisas não levam a nada. Esta não é a hora
de falar de um segundo mandato", disse ela, que, apesar de tudo, continua achando
uma boa idéia participar dos debates do órgão. Outro presente,
que solicitou que não fosse identificado, disse que o pedido de Genro representou
um constrangimento porque grande parte dos membros do conselho não tem
vinculação com o PT ou com nenhum outro partido. "Percebemos que,
no fundo, queriam nos amarrar à campanha de Lula e à sua reeleição.
E isso é revoltante", diz o empresário. O ministro Tarso Genro garante
que sua intenção jamais foi colher sugestões para um segundo
governo de Lula. A idéia, afirma ele, é fazer um plano de desenvolvimento
para os próximos anos. "Não pedi sugestões para o próximo
governo", diz o ministro. "Pedi proposições e princípios
para orientar o crescimento do país em período de quatro, oito,
doze anos." Ou seja: Genro está empenhado em produzir quilos de papéis
com novas idéias para dar de presente aos candidatos à sucessão
de Lula... Rodolfo
B˙hrer/Gazeta do Povo
 | Alexandre
Battibugli
 | Zilda
Arns, da Pastoral da Criança, e Horácio Lafer Piva, ex-presidente
da Fiesp: ela não gostou do pedido de sugestões para o próximo
mandato, e ele reclama de inação |
O Conselhão, assim apelidado, foi criado com a fanfarra habitual do presidente,
que o classificou, na sua reunião inaugural, em fevereiro de 2003, como
"uma das coisas mais importantes deste governo" e uma iniciativa "nunca antes
vista". Na época, o Conselhão costumava reunir-se com a presença
de uma centena de seus membros e Lula estava em todos os encontros e prometeu
usar o novo órgão para fazer as cinco reformas fundamentais: trabalhista,
sindical, tributária, política e previdenciária. Passados
mais de três anos, o Conselhão está esvaziado e não
produziu nem um décimo do seu ambicioso resultado. "Lá, temos todos
os diagnósticos, vários bons projetos e poucos resultados. Preocupa-me
ter assuntos demais e que talvez atrapalhem a conclusão de alguns poucos
outros assuntos, mas substantivos", afirma o empresário Horácio
Lafer Piva, ex-presidente da Fiesp. "Embora o conselho seja um órgão
assessor, a expectativa era que tivéssemos tido mais participação
nas ações do governo ou mais aderência de suas propostas com
o que andou sendo discutido", completa Piva, que, na última reunião,
chamou a atenção dos conselheiros para a necessidade de que os debates
ali travados se traduzissem em ações.
No decorrer de seus três anos de vida, o Conselhão virou um retrato
do velho assembleísmo inócuo do PT. Perdeu o status inicial, seus
debates resultaram na produção de peças quase literárias,
como as chamadas "Cartas de Concertação", que simplesmente compilam
diretrizes sobre inúmeros temas, e mesmo as decisões concretas que
chegaram a ser aprovadas nunca deixaram o papel. A professora Sonia Fleury, cientista
política da Fundação Getulio Vargas (FGV), por exemplo, é
autora de uma proposta clara: a alteração da composição
do Conselho Monetário Nacional, órgão que define, entre outras
coisas, as metas anuais de inflação. Sua proposta, devidamente aprovada
pelo Conselhão, dorme numa gaveta do presidente Lula. Na semana passada,
Sonia Fleury cobrou uma ação do governo. "O conselho tem uma efetividade
muito grande, é um local onde as elites e o resto do país podem
se encontrar. Mas sua eficácia é baixa. Temos sugestões,
mas nem sempre o governo quer ouvi-las", diz a professora. Por que será
que o ministro Tarso Genro resolveu agora pedir mais sugestões para os
"próximos anos"? |