|
|
Brasil O
crime compensou A primeira punição
do caso mensalão é convertida em multa e dividida
em cinco suaves prestações  Alexandre
Oltramari Fotos
Roosewelt Pinheiro/ABR e Renato Dos Anjos
 | | Tarso
Genro, as cestas básicas e o valerioduto: as dívidas da campanha
do ministro foram pagas com dinheiro ilegal |
Às vésperas do primeiro aniversário do
mensalão, surgiu enfim a primeira punição judicial do caso.
Três dirigentes do PT no Rio Grande do Sul, com o objetivo de se livrar
do processo e deixar de correr o risco de parar no xilindró, fizeram um
acordo com a Justiça: aceitaram doar cestas básicas a uma instituição
de caridade em Porto Alegre. A quantidade de cestas básicas é que
chama atenção: uma por mês, durante cinco meses. E nada mais.
No total, cada réu terá de desembolsar 1.750 reais, divididos em
cinco suaves parcelas de 350 reais. Os três dirigentes são réus
confessos. Eles admitiram que pegaram 1 milhão de reais no valerioduto
e disseram ter usado o dinheiro para pagar despesas de campanha do PT gaúcho.
O petista Marcos Fernando Trindade atuava como "mula" do esquema, carregando dinheiro
em malas entre Belo Horizonte e Porto Alegre. Quando desembarcava na capital gaúcha,
o dinheiro era distribuído pelo ex-presidente do partido, David Stival,
e pelo ex-tesoureiro, Marcelino Pedrinho Pies. Agora, cada um vai pagar um salário
mínimo a uma instituição de caridade durante cinco meses.
A desproporção entre
o crime e a punição só não é maior que o constrangimento
que o caso produz para o ministro Tarso Genro, o principal articulador político
do governo, em Brasília. O dinheiro que o valerioduto canalizou ao PT gaúcho
serviu para pagar despesas da campanha de Tarso Genro ao governo do estado, na
qual perdeu a disputa para o atual governador, Germano Rigotto, do PMDB. Do total
de 1 milhão do valerioduto embolsado pelo PT gaúcho, a maior parte
chegou ao estado em malas. Mas 150.000 reais desembarcaram na arca petista por
meio de dois cheques de 75.000 reais, ambos nominais a duas gráficas, a
Impressul e a Comunicação Impressa. Em sua defesa, os acusados tentaram
isentar Tarso Genro. Disseram que a quantia foi utilizada para saldar papagaios
eleitorais, mas que nenhum centavo foi usado na campanha de Genro. As investigações,
no entanto, mostraram que essa versão não tinha respaldo nos fatos.
Descobriu-se que as duas gráficas brindadas com os cheques de Valério
foram fornecedoras da campanha eleitoral de Genro ao governo.
O caso ficou mais incômodo quando se revelou que o Ministério da
Educação, durante a gestão de Tarso Genro, entre 2004 e 2005,
contratou as duas gráficas por 186.000 reais. O contrato, para produzir
folders e material didáticos para o governo, foi feito sem licitação
pública. O envolvimento de Genro com o valerioduto no Rio Grande do Sul
veio a público há nove meses, mas é um embaraço permanente.
Afinal, quando o escândalo do mensalão estourou, em junho do ano
passado, Genro deixou o Ministério da Educação para presidir
o PT. Chegou com ímpetos saneadores. Anunciou, na época, que o partido
precisava passar por uma "refundação" e até propôs
que o PT não permitisse que os mensaleiros petistas se lançassem
candidatos na eleição seguinte. Como se sabe, não aconteceu
nem uma coisa nem outra. A confortável
situação judicial dos mensaleiros gaúchos deve-se a duas
razões. A primeira é que, como o mensalão estava sendo investigado
pela Procuradoria-Geral da República, a Justiça gaúcha não
podia aprofundar a apuração sobre a origem do dinheiro que abasteceu
as arcas petistas no Rio Grande do Sul. Por isso, o promotor que cuida do caso,
Ivan Melgaré, só pôde denunciar os dirigentes petistas pelo
crime de formação de caixa dois. A segunda razão é
que, quando um crime tem pena mínima inferior a um ano de prisão,
como é o caso, a Justiça é obrigada a oferecer ao réu
a substituição da prisão por uma pena alternativa, como a
doação de cestas básicas. Os petistas dos pampas toparam
na hora. Sugeriram apenas uma alteração, aceita pela Justiça.
Em vez de pagar tudo de uma vez, como propôs o Ministério Público
gaúcho, pediram para parcelar a dívida. Assim, todo dia 5 de cada
mês, a antiga cúpula do PT gaúcho vai ao Lar de Santo Antônio
dos Excepcionais, em Porto Alegre, e recolhe 350 reais aos cofres da instituição.
|