Edição 1 649 -17/5/2000

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GLADIADOR
O império renasce

Roma volta à vida com realismo impressionante
no filme estrelado pelo formidável Russell Crowe

Isabela Boscov



Russell Crowe: do dia para
a noite,
ele virou sócio do "clube" a que pertencem
Mel
Gibson e Tom Cruise

Em 1998, o departamento florestal do governo da Inglaterra recebeu um elefonema incomum. "Vocês têm alguma mata aí que queiram derrubar?", indagou o cineasta Ridley Scott. Havia, sim, respondeu o funcionário: um bosque de pinheiros que não iam muito bem de saúde perto do Aeroporto de Gatwick, nas imediações de Londres. "Então deixe comigo", disse Scott. Seu método de desmatamento pode ser conferido na impressionante cena de abertura de Gladiador (Gladiator, Estados Unidos, 2000), que estréia nesta sexta-feira no país. Usando 16 000 flechas incendiárias, 10 000 flechas comuns e várias catapultas, o exército do imperador romano Marco Aurélio dizima o último foco de resistência ao seu domínio, composto de bárbaros germânicos. Estamos no ano 180 d.C. – e dizer que "estamos" nele não é simples força de expressão. As tomadas são de um realismo aterrador, desde os figurinos até a determinação com que os soldados do império trucidam seus inimigos, levando a floresta de roldão.

 

Jaap Buitendijk
A dinamarquesa Connie Nielsen, que interpreta Lucilla, a irmã do imperador: nada de cenas de sexo no roteiro


Com Gladiador, Scott consegue vários feitos de um só golpe. Para começar, concebeu um filme que entusiasma não só pelas cenas grandiosas, mas também pelas interpretações sólidas e pelo roteiro bem-acabado. Depois, mostra a Roma antiga com uma riqueza de detalhes e uma veracidade nunca antes vistas no cinema. Sua façanha mais notável, contudo, foi trazer de volta à vida um gênero cinematográfico que já foi a glória de Hollywood, mas que fora dado como morto e enterrado há quase quatro décadas: o épico romano. "É um gênero que, de tão velho, voltou a ser novo", pontifica Scott, que ficou conhecido por suas visões do futuro em Blade Runner e Alien – O Oitavo Passageiro.

A prova de que a platéia estava sequiosa por revisitar a velha Roma está nas cifras alcançadas por Gladiador em sua estréia nos Estados Unidos, no dia 5. Apenas no primeiro final de semana de exibição, a fita rendeu quase 35 milhões de dólares. É um desempenho superior ao de Titanic e ainda mais surpreendente quando se considera que Gladiador recebeu da censura americana a classificação R, que impede os menores de 17 anos de ir ao cinema desacompanhados de um adulto responsável. Ou seja, é um entrave para que fature em cima do mais lucrativo filão de público, os adolescentes (no Brasil, ele deve ser liberado para maiores de 14 anos). Para satisfação dos estúdios DreamWorks e Universal, que produziram o filme, as filas vêm sendo engrossadas por um segmento que costuma torcer o nariz para produções com cenas de violência explícita: as mulheres. Calcula-se que elas respondam por 45% da bilheteria da fita na sua semana de lançamento.


2000 Universal Pictures
Roma enfrenta a Germânia: 16 000 flechas incendiárias e uma floresta inteira destruída


Aí é que entra a arma secreta de Gladiador: o neozelandês Russell Crowe, de 36 anos, que vive o papel-título. Com sua voz grave, sua beleza rude e musculosa e aquele tipo de masculinidade que a platéia fareja como autêntica, Crowe é a mais entusiasmante aposta do cinema americano em muito tempo. Como se não bastassem tantos atributos, é um ator excepcional – quem o viu gordo e grisalho em O Informante, pelo qual foi indicado ao Oscar neste ano, sabe disso. Crowe carrega sem esforço toda a dramaticidade do filme no papel do general Maximus, que sai vitorioso da batalha contra os germânicos e é o xodó de Marco Aurélio. O imperador confia tanto nele que, sentindo a morte se aproximar, o designa seu sucessor. Compreensivelmente, a decisão desperta a ira de Commodus, filho do imperador. Mimado e vítima de um terrível complexo de inferioridade, Commodus usa de um expediente cruel para eliminar Maximus. O general escapa, mas é feito escravo por um treinador de gladiadores. Logo vira o astro das arenas instaladas na periferia do império, pela sua habilidade em aniquilar até os adversários mais experimentados. O próximo passo será o Coliseu de Roma, onde Maximus terá a chance de se vingar de Commodus. Claro, não sem uma mãozinha de Lucilla, a irmã do imperador, já que ninguém é de ferro. Mas que não se espere cenas de sexo: elas simplesmente não existem no filme. E de gladiadores com o torso nu há só uma amostra.

Gladiador inspira-se vagamente num épico de 1964, A Queda do Império Romano, estrelado por Alec Guinness e Sophia Loren. Mas, definitivamente, não pertence à categoria dos antigos "filmes de sandália", apelido que ganharam em alusão ao calçado favorito dos romanos (ao menos os de celulóide). Nos anos 50, quando esse tipo de fita conheceu seu auge, os Estados Unidos tinham acabado de sair da II Guerra como a maior potência do planeta. Era natural, portanto, que se identificassem com o mais mítico dos impérios. Hollywood, por sua vez, enfrentava um duríssimo desafio: cada vez mais, a platéia trocava o cinema pela televisão. Para tirá-la de casa, raciocinavam os produtores, era preciso oferecer espetáculos assombrosos. O resultado foi um desfile interminável de césares, centuriões e gladiadores pelas telas. Na maioria, tratava-se de confecções baratas, com coliseus de compensado, figurinos berrantes e atores cujos trejeitos até hoje são deliciosamente ridículos. Os italianos também fizeram a festa, aproveitando seus cenários naturais e batizando o elenco nativo com pseudônimos americanos.

Havia, no entanto, as produções respeitáveis, como Ben-Hur, de 1959, e Spartacus, lançado no ano seguinte. Com suas quase quatro horas de duração, aquela inesquecível corrida de bigas e onze Oscar na bagagem, Ben-Hur teve o efeito inesperado de levar esse filão ao limite. Tudo ficou mais difícil depois de Ben-Hur, cujo time de roteiristas incluiu o escritor Gore Vidal. Como nas arenas romanas, a platéia queria emoções cada vez mais fortes, e faltava ao cinema tecnologia e fôlego para superar o que já fora realizado. O diretor Stanley Kubrick achou uma saída cerebral para esse impasse com Spartacus, em que o astro Kirk Douglas vivia um gladiador que se insurge contra sua escravidão e termina por liderar uma revolta. Mas cabe ao extravagante Cleópatra, de 1963, o mérito de ter jogado a pá de cal sobre as fantasias imperiais de Hollywood. Estrelado pelo casal Elizabeth Taylor e Richard Burton, o filme demorou quase um ano para ser concluído e devorou mais dinheiro do que qualquer outro até então. Seu fracasso foi tal que nunca mais um grande produtor ousou aventurar-se pelo gênero. Deixando-se de lado, é claro, o abominável Calígula, aquele pornô metido a besta lançado no início da década de 80.


Richard Harris, como o imperador Marco Aurélio: atuação sólida

Todos os arrepios que o título Cleópatra é capaz de suscitar voltaram à tona quando o projeto de Gladiador começou a circular em Hollywood. O filme nasceu de uma cisma do roteirista David Franzoni – de Amistad –, que desde os anos 70 sonhava em pôr nas telas todos os detalhes horripilantes das lutas de gladiadores romanos. Quando a idéia foi apresentada a Ridley Scott, a palavra que chamou sua atenção foi "romano", e não "lutas". O diretor imediatamente se lembrou de todas aquelas togas e penteados efeminados dos "filmes de sandália" e recusou a proposta. O que finalmente o demoveu foi uma cópia de uma pintura do século XIX, assinada pelo francês Jean-Léon Gérome, que os produtores entregaram a ele junto com o roteiro. A tela mostrava um gladiador pisando no rival derrotado, enquanto a multidão exultante clama pela morte do perdedor. Scott, que teve aulas de pintura no Colégio Real de Arte da Inglaterra, impressionou-se com a imagem. "Tudo nela era perfeito: as proporções, a arquitetura, a luz e a sombra. Senti que aí estava um mundo que valia a pena evocar", disse.


MGM
Charlton Heston na corrida de bigas de Ben-Hur: produções monumentais que acabaram levando o épico romano ao limite há quarenta anos


No momento em que Scott virou o polegar para cima e deixou Gladiador viver, iniciou-se uma operação de guerra que causaria palpitações em todos os envolvidos. O cineasta é um mestre em criar mundos, estejam eles no presente ou no passado, mas era tido como um diretor de atores sofrível. Além disso, havia vinte anos nenhum de seus filmes ultrapassava a barreira dos 50 milhões de dólares de bilheteria nos Estados Unidos, uma quantia muito baixa para os padrões americanos. A apreensão se acirrou quando Scott começou a recrutar coadjuvantes nos botecos ingleses: beberrões notórios como Oliver Reed, David Hemmings e Richard Harris são ótimos atores, mas sabidamente difíceis de controlar. Nada, no entanto, causou mais temor do que a escolha de Russell Crowe para o papel principal. Crowe tivera um desempenho elogiado em Los Angeles – Cidade Proibida, no qual vivia um policial truculento, mas estava longe de ser um astro. Com mais de 100 milhões de dólares de orçamento em jogo, os executivos dos estúdios estavam suando frio.

As complicações logísticas não eram menores. O elenco foi unânime em odiar o roteiro de Franzoni, e dois outros roteiristas tiveram de ser convocados às pressas. Enquanto Scott filmava, eles escreviam as cenas seguintes. Freqüentemente, estavam apenas umas poucas páginas à frente do diretor. Gladiador exigia também locações em paisagens primitivas ou distantes, sinal certo de problemas. A parte mais simples, para se ter uma idéia, foi botar abaixo aquela floresta inglesa na cena da batalha contra os bárbaros germânicos. Equipe e elenco tiveram ainda de se deslocar para o Marrocos e para a Ilha de Malta, onde o restante da fita foi rodado. De doenças a tempestades destruidoras de cenários, enfrentaram todo tipo de revés. O pior deles, sem dúvida, foi a morte de Oliver Reed, em 2 de maio do ano passado, poucos dias antes que sua participação se encerrasse. Previsivelmente, o ator morreu de ataque cardíaco, depois de horas seguidas entornando uísque. Além de perder um amigo de décadas, Ridley Scott teve de recorrer a truques digitais (a um custo adicional de 3 milhões de dólares) para dar um fim ao personagem de Reed, o treinador de gladiadores Próximo.

Longe de atrapalhar o resultado final, essas confusões terminaram por ajudá-lo. O clima de urgência das filmagens é palpável na tela e cresce a cada reviravolta. Não é só efeito do roteiro ou da montagem: por um feliz acaso, as cenas foram sendo rodadas mais ou menos na seqüência em que são exibidas, o que não é nada comum no cinema. Mais: depois de tantos papéis decadentes, Oliver Reed deixou a ribalta com uma atuação digna. Richard Harris brilha como o imperador Marco Aurélio, e Joaquin Phoenix, que também era considerado uma aposta arriscada, transforma o esquemático papel de Commodus numa repelente demonstração de sofrimento e vilania. O maior vitorioso em Gladiador, contudo, é mesmo Russell Crowe, que acaba de se metamorfosear na mais rara das criaturas de Hollywood: o superastro que é um ator formidável. Segundo a revista americana Variety, uma das bíblias do cinema, Crowe já pertence ao clube que tem como sócios Tom Cruise, Mel Gibson e Harrison Ford – aqueles que fazem o papel que querem dentro de Hollywood.

É um prazer ver Crowe atuar. Ele consegue emprestar a seu personagem um tom shakespeariano, de quem já se sabe desde o início condenado à tragédia, ao sacrifício. Além da extraordinária performance do ator, Gladiador proporciona à platéia a vertigem de ser transportada para outra era. Uma era em que o Império Romano já vivia os prenúncios da decadência, intoxicado pela política do pão e circo. A sensação de assistir a um espetáculo violento ao lado de 35.000 espectadores, o ambiente opressivo das entranhas do Coliseu, as pérfidas intrigas palacianas, o frio lamacento das batalhas campais, tudo ainda parece existir enquanto se está na sala de projeção. Poucos personagens ou situações foram inventados. Maximus e o senador Graco, que o ajuda, são criações dos roteiristas. Mas Commodus realmente existiu da forma como é apresentado no filme. Ele praticou vilanias e atrocidades, sem que no entanto sobressaísse nesses quesitos em relação a outros que reinaram em Roma. Uma leitura de A Vida dos Doze Césares, escrita por Suetônio, secretário de Adriano, o mais esclarecido de todos os imperadores romanos, é bastante instrutiva a respeito. Tibério adorava recrutar efebos da plebe para com eles satisfazer suas necessidades libertinas. Depois, matava-os. Nero, entre outras delicadezas, assassinou a mãe. Um dos passatempos de Calígula era ensaiar expressões aterrorizantes ao espelho, para amedrontar seus súditos. Commodus pertence a essa estirpe perversa. Fanático por lutas de gladiadores, exatamente como se vê no filme, ele desceu à arena centenas de vezes para matar animais (a uma distância segura, entenda-se) ou lutar. Como não podiam perder de jeito nenhum, ao primeiro golpe os rivais já se fingiam de mortalmente feridos e imploravam misericórdia. Commodus era um poltrão que, na vida real, também encontrou o seu Maximus: foi estrangulado pelo gladiador Narciso a mando do Senado.

 

O Maximus que é o máximo

Recentemente, o neozelandês Russell Crowe confessou que estava de coração partido. Sentindo cheiro de sangue, um repórter saiu à caça: "E por quem seria?" Pausa. "Nada me deixa tão deprimido quanto perder uma de minhas vacas", respondeu Crowe, com aquela macheza tosca que é o grande charme dos atores vindos do cinema australiano – e que faz a delícia das fãs de Mel Gibson. O mais novo astro de Hollywood realmente se importa quando suas vacas morrem. Tem centenas delas em sua fazenda na Austrália. Embora a propriedade tenha 560 acres e uma casa, ele prefere morar num trailer. É o tipo de sujeito que dirige caminhonetes, bebe bem e fuma muito (desde criança, aliás). Aos 10 anos, perdeu um dente da frente numa partida de futebol. Nem ligou. Só quinze anos mais tarde cedeu às súplicas de um diretor e remendou o sorriso. Mas não quis mostrá-lo no Oscar deste ano: quando seu nome foi anunciado como um dos candidatos ao prêmio, parecia mais propenso a rosnar. Estava furioso porque sabia que não ia ganhar.

Esse ar de brucutu não é o único que Crowe tem à mão. Na entrega do Globo de Ouro, ele se mostrou um companheiro encantador para Jodie Foster, segurando a mão da atriz e olhando nos olhos dela. Parecia até que Jodie estava disposta a mudar de time. São apenas bons amigos, é claro. Os diretores que já trabalharam com ele são unânimes em dizer que é preciso ter paciência oceânica para enfrentar suas explosões. "Crowe é capaz de demolir as paredes a pontapés para conseguir o que quer", diz Ridley Scott. Mas também concordam que ele é inteligente, culto e articulado. Além disso, é um amigo fiel. "Quando se ganha a confiança de Crowe, é para toda a vida", afirma Curtis Hanson, que o escalou para o policial Los Angeles – Cidade Proibida.

Quem levou Crowe para Hollywood foi Sharon Stone. Depois de vê-lo como um neonazista sádico no filme australiano Romper Stomper, a atriz insistiu em contracenar com ele no faroeste Rápida e Mortal, de 1995. Crowe não gostou da experiência, mas perseverou. Durante dois anos, ouviu promessa atrás de promessa e fez besteiras como Assassino Virtual. Desanimado e endividado, foi salvo por Hanson. Assim que apareceu em Cidade Proibida, começou a ser alardeado como "o novo Marlon Brando". Pura bobagem. Crowe não imita ninguém.

A jornalista Marie Brenner, autora do artigo no qual se inspira O Informante, foi visitar o set de filmagens e se surpreendeu ao ver ali Jeffrey Wigand, o homem cujas desventuras a fita narra, e que ela entrevistara algumas vezes. Ao olhar mais de perto, viu que não era Wigand, e sim Crowe. A caracterização era perfeita. Por Crowe talvez valha a pena até aturar Meg Ryan em Proof of Life, que a dupla está filmando no Equador. Em seguida, ele fará o drama Flora Plum, sob a direção de Jodie Foster, em que interpreta um sujeito deformado que trabalha num circo de horrores. Crowe é do tipo que consegue desaparecer dentro de seus papéis, mas acha ridícula essa história de atores que dizem que "mergulham" nos seus personagens e "se apaixonam" por eles. "É uma estupidez. Se você se apaixona, perde a objetividade", dispara. Seja qual for o método interpretativo de Crowe, ele funciona – e os espectadores de Gladiador saem do cinema recompensados.

 

 

Um coliseu reconstruído na Ilha de Malta

 
2000 Universal Pictures
Na arena do Coliseu: ruínas mediterrâneas, tigres de verdade e arquibancadas digitais

Pode parecer estranho que, com as ruínas do coliseu dando sopa em Roma, as equipes de filmagem prefiram recriar a grande arena em outras partes do mundo. Mas o caos típico de uma metrópole visitada por hordas de turistas complica o trabalho a ponto de torná-lo inviável. Por isso, Arthur Max, o desenhista de produção de Gladiador, correu o mundo em busca do cenário adequado. Foi encontrá-lo na Ilha de Malta, no Mediterrâneo. Ali estava uma esquecida fortaleza do século XVII com muros formados por gigantescos blocos de rocha e linhas que lembravam muito o apuro do classicismo romano. Comandando um exército de até 1 000 trabalhadores, Max usou as ruínas como o centro de uma revolução: ao longo de dezenove semanas, restaurou paredes já existentes, levantou outras e construiu edifícios falsos até obter uma cópia fidedigna do que seriam o Coliseu e adjacências em 180 d.C. Ou melhor, de uma fração do que seria o Coliseu. Só as duas primeiras fileiras da edificação que se vê no filme são reais. As outras fileiras da arquibancada foram acrescentadas por meio do computador. Somem-se a isso mais 3 500 figurantes vestidos a caráter e o efeito que essas imagens causam é semelhante ao que deviam sentir os visitantes vindos da província quando punham os olhos na Roma imperial pela primeira vez: assombro.

 
AP
Commodus entra em Roma: visual se inspirou também na cenografia do III Reich

Chegar a esse resultado, porém, foi um pesadelo. Dias antes de o elenco chegar a Malta, uma tempestade castigou a ilha de tal maneira que o cenário se perdeu quase inteiro. O estúdio DreamWorks não se comoveu com a desgraça e não autorizou a inclusão de nem um dia a mais no cronograma de trabalho. Para evitar atrasos, o diretor ia filmando num canto enquanto a equipe reconstruía o outro. Na ilha também não havia madeira ou equipamentos pesados. Tudo tinha de vir de navio, e o tempo ruim muitas vezes impedia as entregas. "Até agora deve haver algum barco zanzando pelo Mediterrâneo à nossa procura", brinca Max.

Poucos filmes até hoje foram tão longe na obsessão de recriar com fidelidade os detalhes da Roma antiga quanto Gladiador. Uma das preocupações centrais foi fazer a platéia sentir que Roma era uma cidade muito mais vertical do que se costuma acreditar. "O Coliseu se erguia até 80 metros, e não eram poucas as muralhas com altura equivalente a seis andares", diz Max. Nem sempre era possível encontrar referências históricas, contudo. Nesses casos, a produção tirou idéias de uma fonte sinistra: a cenografia da Alemanha nazista de Adolf Hitler, que era um obcecado pelo Império Romano. Não à toa, a Roma de Commodus lembra tanto a Berlim do ditador alemão.

 

"Dream team"

Há um nome por trás do sucesso de Gladiador: Steven Spielberg. Há seis anos, o mais poderoso dos diretores comanda o caçula dos grandes estúdios de Hollywood, a DreamWorks SKG. A sigla é formada pela inicial do seu sobrenome e do de seus sócios – Jeffrey Katzenberg, antes alto executivo da Disney, e David Geffen, magnata da indústria fonográfica. De início, a DreamWorks não impressionou muito a concorrência. Apesar de ter ido bem nas bilheterias, fitas como O Pacificador ou Impacto Profundo não tinham nada que as distinguisse do feijão-com-arroz dos outros estúdios. Houve também tropeços feios, como os aborrecidos Amistad e o desenho O Príncipe do Egito. Agora, no entanto, a DreamWorks parece ter acertado o passo. Nos últimos dois anos, lançou a ótima animação Formiguinhaz, O Resgate do Soldado Ryan e Beleza Americana, grande vencedor do Oscar deste ano. Sem falar em Gladiador, que tem tudo para se converter em seu maior sucesso financeiro até o momento: segundo uma pesquisa feita pela revista Entertainment Weekly, na internet, 60% dos espectadores pretendem ver o filme novamente. A turma do repeteco, como se sabe, foi crucial para que Titanic quebrasse todos os recordes de faturamento.

A DreamWorks se sai melhor quando aposta em novos talentos. É o caso de Sam Mendes, o estreante que dirigiu Beleza Americana, ou de Russell Crowe, o astro de Gladiador. É um resultado que está de acordo com o grande trunfo do estúdio: ser presidido por um cineasta que traz na bagagem um incomparável conhecimento do seu produto e uma vasta rede de amizades com profissionais do meio.

 
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Da internet
  Site do filme Gladiador