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Edição
1 649 -17/5/2000
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Em 1998, o departamento florestal do governo da Inglaterra recebeu um elefonema incomum. "Vocês têm alguma mata aí que queiram derrubar?", indagou o cineasta Ridley Scott. Havia, sim, respondeu o funcionário: um bosque de pinheiros que não iam muito bem de saúde perto do Aeroporto de Gatwick, nas imediações de Londres. "Então deixe comigo", disse Scott. Seu método de desmatamento pode ser conferido na impressionante cena de abertura de Gladiador (Gladiator, Estados Unidos, 2000), que estréia nesta sexta-feira no país. Usando 16 000 flechas incendiárias, 10 000 flechas comuns e várias catapultas, o exército do imperador romano Marco Aurélio dizima o último foco de resistência ao seu domínio, composto de bárbaros germânicos. Estamos no ano 180 d.C. e dizer que "estamos" nele não é simples força de expressão. As tomadas são de um realismo aterrador, desde os figurinos até a determinação com que os soldados do império trucidam seus inimigos, levando a floresta de roldão.
A prova de que a platéia estava sequiosa por revisitar
a velha Roma está nas cifras alcançadas por
Gladiador em sua estréia nos Estados Unidos,
no dia 5. Apenas no primeiro final de semana de exibição,
a fita rendeu quase 35 milhões de dólares.
É um desempenho superior ao de Titanic e ainda
mais surpreendente quando se considera que Gladiador
recebeu da censura americana a classificação
R, que impede os menores de 17 anos de ir ao cinema desacompanhados
de um adulto responsável. Ou seja, é um entrave
para que fature em cima do mais lucrativo filão de
público, os adolescentes (no Brasil, ele deve ser
liberado para maiores de 14 anos). Para satisfação
dos estúdios DreamWorks e Universal, que produziram
o filme, as filas vêm sendo engrossadas por um segmento
que costuma torcer o nariz para produções
com cenas de violência explícita: as mulheres.
Calcula-se que elas respondam por 45% da bilheteria da fita
na sua semana de lançamento.
Gladiador inspira-se vagamente num épico de 1964, A Queda do Império Romano, estrelado por Alec Guinness e Sophia Loren. Mas, definitivamente, não pertence à categoria dos antigos "filmes de sandália", apelido que ganharam em alusão ao calçado favorito dos romanos (ao menos os de celulóide). Nos anos 50, quando esse tipo de fita conheceu seu auge, os Estados Unidos tinham acabado de sair da II Guerra como a maior potência do planeta. Era natural, portanto, que se identificassem com o mais mítico dos impérios. Hollywood, por sua vez, enfrentava um duríssimo desafio: cada vez mais, a platéia trocava o cinema pela televisão. Para tirá-la de casa, raciocinavam os produtores, era preciso oferecer espetáculos assombrosos. O resultado foi um desfile interminável de césares, centuriões e gladiadores pelas telas. Na maioria, tratava-se de confecções baratas, com coliseus de compensado, figurinos berrantes e atores cujos trejeitos até hoje são deliciosamente ridículos. Os italianos também fizeram a festa, aproveitando seus cenários naturais e batizando o elenco nativo com pseudônimos americanos. Havia, no entanto, as produções respeitáveis,
como Ben-Hur, de 1959, e Spartacus, lançado
no ano seguinte. Com suas quase quatro horas de duração,
aquela inesquecível corrida de bigas e onze Oscar
na bagagem, Ben-Hur teve o efeito inesperado de levar
esse filão ao limite. Tudo ficou mais difícil
depois de Ben-Hur, cujo time de roteiristas incluiu
o escritor Gore Vidal. Como nas arenas romanas, a platéia
queria emoções cada vez mais fortes, e faltava
ao cinema tecnologia e fôlego para superar o que já
fora realizado. O diretor Stanley Kubrick achou uma saída
cerebral para esse impasse com Spartacus, em que
o astro Kirk Douglas vivia um gladiador que se insurge contra
sua escravidão e termina por liderar uma revolta.
Mas cabe ao extravagante Cleópatra, de 1963,
o mérito de ter jogado a pá de cal sobre as
fantasias imperiais de Hollywood. Estrelado pelo casal Elizabeth
Taylor e Richard Burton, o filme demorou quase um ano para
ser concluído e devorou mais dinheiro do que qualquer
outro até então. Seu fracasso foi tal que
nunca mais um grande produtor ousou aventurar-se pelo gênero.
Deixando-se de lado, é claro, o abominável
Calígula, aquele pornô metido a besta
lançado no início da década de 80.
Todos os arrepios que o título Cleópatra
é capaz de suscitar voltaram à tona quando
o projeto de Gladiador começou a circular
em Hollywood. O filme nasceu de uma cisma do roteirista
David Franzoni de Amistad , que desde
os anos 70 sonhava em pôr nas telas todos os detalhes
horripilantes das lutas de gladiadores romanos. Quando a
idéia foi apresentada a Ridley Scott, a palavra que
chamou sua atenção foi "romano", e não
"lutas". O diretor imediatamente se lembrou de todas aquelas
togas e penteados efeminados dos "filmes de sandália"
e recusou a proposta. O que finalmente o demoveu foi uma
cópia de uma pintura do século XIX, assinada
pelo francês Jean-Léon Gérome, que os
produtores entregaram a ele junto com o roteiro. A tela
mostrava um gladiador pisando no rival derrotado, enquanto
a multidão exultante clama pela morte do perdedor.
Scott, que teve aulas de pintura no Colégio Real
de Arte da Inglaterra, impressionou-se com a imagem. "Tudo
nela era perfeito: as proporções, a arquitetura,
a luz e a sombra. Senti que aí estava um mundo que
valia a pena evocar", disse.
As complicações logísticas não eram menores. O elenco foi unânime em odiar o roteiro de Franzoni, e dois outros roteiristas tiveram de ser convocados às pressas. Enquanto Scott filmava, eles escreviam as cenas seguintes. Freqüentemente, estavam apenas umas poucas páginas à frente do diretor. Gladiador exigia também locações em paisagens primitivas ou distantes, sinal certo de problemas. A parte mais simples, para se ter uma idéia, foi botar abaixo aquela floresta inglesa na cena da batalha contra os bárbaros germânicos. Equipe e elenco tiveram ainda de se deslocar para o Marrocos e para a Ilha de Malta, onde o restante da fita foi rodado. De doenças a tempestades destruidoras de cenários, enfrentaram todo tipo de revés. O pior deles, sem dúvida, foi a morte de Oliver Reed, em 2 de maio do ano passado, poucos dias antes que sua participação se encerrasse. Previsivelmente, o ator morreu de ataque cardíaco, depois de horas seguidas entornando uísque. Além de perder um amigo de décadas, Ridley Scott teve de recorrer a truques digitais (a um custo adicional de 3 milhões de dólares) para dar um fim ao personagem de Reed, o treinador de gladiadores Próximo. Longe de atrapalhar o resultado final, essas confusões terminaram por ajudá-lo. O clima de urgência das filmagens é palpável na tela e cresce a cada reviravolta. Não é só efeito do roteiro ou da montagem: por um feliz acaso, as cenas foram sendo rodadas mais ou menos na seqüência em que são exibidas, o que não é nada comum no cinema. Mais: depois de tantos papéis decadentes, Oliver Reed deixou a ribalta com uma atuação digna. Richard Harris brilha como o imperador Marco Aurélio, e Joaquin Phoenix, que também era considerado uma aposta arriscada, transforma o esquemático papel de Commodus numa repelente demonstração de sofrimento e vilania. O maior vitorioso em Gladiador, contudo, é mesmo Russell Crowe, que acaba de se metamorfosear na mais rara das criaturas de Hollywood: o superastro que é um ator formidável. Segundo a revista americana Variety, uma das bíblias do cinema, Crowe já pertence ao clube que tem como sócios Tom Cruise, Mel Gibson e Harrison Ford aqueles que fazem o papel que querem dentro de Hollywood. É um prazer ver Crowe atuar. Ele consegue emprestar a seu personagem um tom shakespeariano, de quem já se sabe desde o início condenado à tragédia, ao sacrifício. Além da extraordinária performance do ator, Gladiador proporciona à platéia a vertigem de ser transportada para outra era. Uma era em que o Império Romano já vivia os prenúncios da decadência, intoxicado pela política do pão e circo. A sensação de assistir a um espetáculo violento ao lado de 35.000 espectadores, o ambiente opressivo das entranhas do Coliseu, as pérfidas intrigas palacianas, o frio lamacento das batalhas campais, tudo ainda parece existir enquanto se está na sala de projeção. Poucos personagens ou situações foram inventados. Maximus e o senador Graco, que o ajuda, são criações dos roteiristas. Mas Commodus realmente existiu da forma como é apresentado no filme. Ele praticou vilanias e atrocidades, sem que no entanto sobressaísse nesses quesitos em relação a outros que reinaram em Roma. Uma leitura de A Vida dos Doze Césares, escrita por Suetônio, secretário de Adriano, o mais esclarecido de todos os imperadores romanos, é bastante instrutiva a respeito. Tibério adorava recrutar efebos da plebe para com eles satisfazer suas necessidades libertinas. Depois, matava-os. Nero, entre outras delicadezas, assassinou a mãe. Um dos passatempos de Calígula era ensaiar expressões aterrorizantes ao espelho, para amedrontar seus súditos. Commodus pertence a essa estirpe perversa. Fanático por lutas de gladiadores, exatamente como se vê no filme, ele desceu à arena centenas de vezes para matar animais (a uma distância segura, entenda-se) ou lutar. Como não podiam perder de jeito nenhum, ao primeiro golpe os rivais já se fingiam de mortalmente feridos e imploravam misericórdia. Commodus era um poltrão que, na vida real, também encontrou o seu Maximus: foi estrangulado pelo gladiador Narciso a mando do Senado.
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