Edição 1 649 -17/5/2000

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Máquina do tempo quântica

Em seu novo livro, Michael Crichton transporta
três estudantes para a Idade Média.
Como? Pelo fax, oras!

Marcelo Marthe

 

Michael Benabib

Crichton: em vez de vender os direitos para Hollywood, autor receberá participação nos lucros

O americano Michael Crichton é um rato de biblioteca. Desde seus tempos de estudante de medicina na Universidade Harvard, ele cultiva o hábito de passar horas a fio devorando livros sobre assuntos tão complexos quanto a biogenética e a teoria do caos. Foi de leituras assim que retirou a trama de Parque dos Dinossauros, best-seller que deu origem ao megassucesso de Steven Spielberg, em 1993. Em seus doze livros e oito roteiros para cinema, os temas variam bastante, mas a fórmula permanece idêntica. Ele pega assuntos que renderiam acalorados debates entre pesquisadores e os traz ao alcance do público por meio de enredos cheios de aventura e suspense. São os chamados "tecno-thrillers", nos quais, tal e qual um pesquisador acadêmico, Crichton lista numa bibliografia os livros nos quais se baseou para tecer suas histórias mirabolantes. Com isso, causa indignação entre cientistas e reações gástricas em críticos literários. Mas ninguém, atualmente, domina essa técnica como ele. Prova disso é seu mais recente trabalho, Linha do Tempo (tradução de Paulo Reis; Rocco; 564 páginas; 38 reais). Lastreado em mais de oitenta artigos científicos, o livro transforma em diversão eletrizante temas que costumam ser abordados de forma soporífera em aulas de ginásio, como física quântica e história medieval.


Por baixo de todo o verniz científico, a trama até que é bem simples. Recorre a uma utopia tecnológica que sempre exerceu fascínio no cinema e na televisão: a máquina do tempo. Engenhocas capazes de transportar seres humanos para épocas remotas deram mote a filmes como O Exterminador do Futuro e Os 12 Macacos, além do seriado O Túnel do Tempo. Na visão de Crichton, obviamente, trata-se de algo mais complexo – uma espécie de fax quântico, que permite "transmitir" pessoas para o passado. Como isso é possível? Bem, na diluição que ele faz da teoria de Albert Einstein, a distância que separa duas épocas não seria uma questão de tempo, e sim de espaço – como se os séculos fossem universos paralelos. Assim, o leitor acompanha os passos de três estudantes do mundo atual que voltam à França do século XIV para salvar um professor em apuros. A narrativa é rica em detalhes. Em entrevistas, o escritor disse ter folheado pelo menos 200 livros para descrever os hábitos da Idade Média, povoada de monges e cavaleiros de armaduras. A tal máquina do tempo, por sua vez, é esmiuçada em gráficos e equações matemáticas.

Só se der lucro – Na estrada há mais de trinta anos, o escritor – um cinqüentão com 2,05 metros de altura, hoje no quarto casamento – vem faturando alto. É um dos poucos em sua profissão que aparecem na lista das 100 pessoas mais bem remuneradas do show biz americano, segundo o levantamento anual da revista Forbes, publicado em março. Com renda de 33,5 milhões de dólares, está no 32º posto, atrás dos pesos pesados Stephen King (sétimo) e John Grisham (27º). Sua mina de ouro é a venda de histórias para Hollywood. E, nesse quesito, Crichton está passando para um patamar de negociação restrito a poucos. No contrato para a filmagem de Linha do Tempo, abre mão do adiantamento de praxe – o que elevaria sua posição no levantamento da Forbes. Em vez disso, ele vai receber do estúdio Universal uma participação no faturamento da fita, cujo orçamento está na casa dos 60 milhões de dólares. Mas só se o projeto der lucro. Se não vingar, Crichton embolsará apenas 1 milhão de dólares. Como se vê, é um risco calculadíssimo.

 
Saiba mais
Da internet
  Site oficial - Michael Crichton