Meu emprego é verde
Só neste ano, as empresas brasileiras
vão investir 1 bilhão de dólares em
projetos ligados ao meio ambiente
André Santoro
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Ricardo Benichio
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| A advogada ambiental Paula Bennati:
salário de 4 000 reais |
Os especialistas garantem: ao lado dos setores de telecomunicações
e de energia, a ecologia é a área profissional
mais promissora do momento. E mais, dizem eles: esse mercado
está precisando de mão-de-obra qualificada
com formação em praticamente todas as carreiras
universitárias. Os cursos mais indicados são
biologia, ecologia, administração, direito,
antropologia, sociologia e engenharia. Mas a lista é
quase tão extensa quanto a relação
de cursos universitários existentes no país
(veja as principais profissões).
Atualmente, o setor necessita tanto de biólogos que
estudem o impacto das indústrias sobre a fauna e
a flora como de advogados que evitem que as empresas entrem
em enrascadas jurídicas devido a agressões
ao ambiente.
De acordo com uma estimativa do Ministério do Meio
Ambiente, 500.000 postos serão
abertos no setor até 2003. Esse número é
referente ao total de vagas que serão criadas dentro
das companhias, nas ONGs, em consultorias independentes
e em empresas de ecoturismo. No ano passado, o mercado verde
cresceu 20% e, para este ano, as previsões mais pessimistas
apontam um inchaço de pelo menos 10%. Segundo a consultoria
Arthur D. Little, até dezembro será investido
1 bilhão de dólares no setor. Nessa conta
entram projetos, estudos jurídicos, equipamentos
e mão-de-obra. Aos interessados vale ressaltar que
esse pode ser um campo de trabalho muito interessante, mas
não significa, necessariamente, um cotidiano de passeios
no parque e idas à praia. A advogada ambiental Paula
Bennati, por exemplo, passa os dias prestando serviços
de consultoria jurídica a empresas. Ganha bem
cerca de 4.000 reais por mês
, mas trabalha 90% do tempo em ambientes fechados.
Existem dois grandes motores por trás da expansão
do mercado verde no Brasil: a pressão internacional
e a legislação governamental. O Banco Interamericano
de Desenvolvimento (BID) está destinando 45 milhões
de dólares, nos próximos cinco anos, a programas
de preservação ambiental no Brasil. O dinheiro
será aplicado pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente
(FNMA), que já tem cinqüenta projetos para o
setor e pretende aprovar outros 150 até dezembro
deste ano. Ao mesmo tempo que os órgãos internacionais
financiam, as indústrias passaram a ser mais vigiadas
em seus programas de prevenção. Acidentes
como o que causou o vazamento de óleo que manchou
a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, fizeram a
sociedade perceber que, cedo ou tarde, as condições
de vida seriam irremediavelmente degradadas em razão
do descuido com a ecologia. Por isso, alguns mecanismos
de proteção foram criados e estão chegando
ao Brasil. Um deles é o certificado ISO 14001, uma
espécie de diploma verde conferido às empresas
que adotam políticas eficientes de controle ambiental.
Cada país possui uma instituição que
emite os certificados. Por aqui, 190 companhias já
foram diplomadas.
A legislação no setor também vem
avançando. O governo criou em 1998 uma lei que prevê
multas pesadas para quem provocar danos ao meio ambiente.
Encostadas na parede, as empresas acordaram para o problema
e começaram a investir em programas ambientais. A
Companhia Siderúrgica Paulista, uma antiga vilã
dos tempos negros de Cubatão, cidade paulista que
já foi considerada uma das mais poluídas do
mundo, investiu 200 milhões de dólares para
melhorar o ar, a água e o solo da região que
ocupa nos arredores da cidade. Outra cuja fama não
andava boa era a Aracruz Celulose. Em 1992, um veleiro dos
ambientalistas do Greenpeace invadiu um porto privado da
empresa, em protesto contra as agressões à
natureza. Para apagar esse e outros incidentes, foi criada
uma divisão específica para o meio ambiente.
Os gastos com projetos de preservação, neste
ano, deverão ultrapassar 5 milhões de dólares.
Ambas já ganharam o selo ISO 14001 e, para poder
aproveitar seus investimentos em projetos eficientes, contam
com funcionários sem outra atribuição
além dos projetos ambientais. "As pessoas já
não querem consumir produtos de empresas identificadas
com agressões à natureza", diz José
Sarney Filho, ministro do Meio Ambiente.
Se só agora aparece como mais uma possibilidade
econômica, a ecologia é uma preocupação
mais antiga. Após a II Guerra Mundial, diversos grupos
e alguns países começaram a se preocupar com
um desenvolvimento sustentável, que levasse em conta
não apenas o crescimento financeiro mas tudo o que
essa evolução pudesse representar em termos
de ameaças ao ambiente. Em 1972, uma conferência
da ONU sobre o assunto levou os países mais desenvolvidos
a discutir suas políticas ambientais, o que culminou
com a criação da Comissão Mundial sobre
Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1983. Existia, e ainda
existe, um bom motivo para planejar o futuro com cuidado:
o mundo nunca cresceu tanto como nas últimas décadas.
Em um século, a produção industrial
aumentou mais de cinqüenta vezes, e 80% dessa expansão
aconteceu a partir da década de 50. Agora, cuidar
do planeta não é mais modismo, mas tarefa
para especialistas. Talvez para você.