Edição 1 649 -17/5/2000

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Meu emprego é verde

Só neste ano, as empresas brasileiras
vão investir 1 bilhão de dólares em
projetos ligados ao meio ambiente

André Santoro

 

Ricardo Benichio

A advogada ambiental Paula Bennati: salário de 4 000 reais

Os especialistas garantem: ao lado dos setores de telecomunicações e de energia, a ecologia é a área profissional mais promissora do momento. E mais, dizem eles: esse mercado está precisando de mão-de-obra qualificada com formação em praticamente todas as carreiras universitárias. Os cursos mais indicados são biologia, ecologia, administração, direito, antropologia, sociologia e engenharia. Mas a lista é quase tão extensa quanto a relação de cursos universitários existentes no país (veja as principais profissões). Atualmente, o setor necessita tanto de biólogos que estudem o impacto das indústrias sobre a fauna e a flora como de advogados que evitem que as empresas entrem em enrascadas jurídicas devido a agressões ao ambiente.

De acordo com uma estimativa do Ministério do Meio Ambiente, 500.000 postos serão abertos no setor até 2003. Esse número é referente ao total de vagas que serão criadas dentro das companhias, nas ONGs, em consultorias independentes e em empresas de ecoturismo. No ano passado, o mercado verde cresceu 20% e, para este ano, as previsões mais pessimistas apontam um inchaço de pelo menos 10%. Segundo a consultoria Arthur D. Little, até dezembro será investido 1 bilhão de dólares no setor. Nessa conta entram projetos, estudos jurídicos, equipamentos e mão-de-obra. Aos interessados vale ressaltar que esse pode ser um campo de trabalho muito interessante, mas não significa, necessariamente, um cotidiano de passeios no parque e idas à praia. A advogada ambiental Paula Bennati, por exemplo, passa os dias prestando serviços de consultoria jurídica a empresas. Ganha bem – cerca de 4.000 reais por mês –, mas trabalha 90% do tempo em ambientes fechados.

Existem dois grandes motores por trás da expansão do mercado verde no Brasil: a pressão internacional e a legislação governamental. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) está destinando 45 milhões de dólares, nos próximos cinco anos, a programas de preservação ambiental no Brasil. O dinheiro será aplicado pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA), que já tem cinqüenta projetos para o setor e pretende aprovar outros 150 até dezembro deste ano. Ao mesmo tempo que os órgãos internacionais financiam, as indústrias passaram a ser mais vigiadas em seus programas de prevenção. Acidentes como o que causou o vazamento de óleo que manchou a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, fizeram a sociedade perceber que, cedo ou tarde, as condições de vida seriam irremediavelmente degradadas em razão do descuido com a ecologia. Por isso, alguns mecanismos de proteção foram criados e estão chegando ao Brasil. Um deles é o certificado ISO 14001, uma espécie de diploma verde conferido às empresas que adotam políticas eficientes de controle ambiental. Cada país possui uma instituição que emite os certificados. Por aqui, 190 companhias já foram diplomadas.

A legislação no setor também vem avançando. O governo criou em 1998 uma lei que prevê multas pesadas para quem provocar danos ao meio ambiente. Encostadas na parede, as empresas acordaram para o problema e começaram a investir em programas ambientais. A Companhia Siderúrgica Paulista, uma antiga vilã dos tempos negros de Cubatão, cidade paulista que já foi considerada uma das mais poluídas do mundo, investiu 200 milhões de dólares para melhorar o ar, a água e o solo da região que ocupa nos arredores da cidade. Outra cuja fama não andava boa era a Aracruz Celulose. Em 1992, um veleiro dos ambientalistas do Greenpeace invadiu um porto privado da empresa, em protesto contra as agressões à natureza. Para apagar esse e outros incidentes, foi criada uma divisão específica para o meio ambiente. Os gastos com projetos de preservação, neste ano, deverão ultrapassar 5 milhões de dólares. Ambas já ganharam o selo ISO 14001 e, para poder aproveitar seus investimentos em projetos eficientes, contam com funcionários sem outra atribuição além dos projetos ambientais. "As pessoas já não querem consumir produtos de empresas identificadas com agressões à natureza", diz José Sarney Filho, ministro do Meio Ambiente.

Se só agora aparece como mais uma possibilidade econômica, a ecologia é uma preocupação mais antiga. Após a II Guerra Mundial, diversos grupos e alguns países começaram a se preocupar com um desenvolvimento sustentável, que levasse em conta não apenas o crescimento financeiro mas tudo o que essa evolução pudesse representar em termos de ameaças ao ambiente. Em 1972, uma conferência da ONU sobre o assunto levou os países mais desenvolvidos a discutir suas políticas ambientais, o que culminou com a criação da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1983. Existia, e ainda existe, um bom motivo para planejar o futuro com cuidado: o mundo nunca cresceu tanto como nas últimas décadas. Em um século, a produção industrial aumentou mais de cinqüenta vezes, e 80% dessa expansão aconteceu a partir da década de 50. Agora, cuidar do planeta não é mais modismo, mas tarefa para especialistas. Talvez para você.