Edição 1 649 -17/5/2000

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Luta no tapetão

Adversários da privatização
trocam ruas por tribunais

Nilson Vargas

Passeatas, pontapés, abaixo-assinados e uma enxurrada de ações judiciais minutos antes dos leilões de privatização de estatais foram comuns durante toda a década de 90 no Brasil. Sindicalistas, funcionários públicos, partidos políticos, todos reagiam por impulso, de forma meio desesperada, para tentar impedir a venda das empresas do governo. Nunca obtiveram vitória alguma. Mas não desistem. As ações judiciais estão conseguindo paralisar o processo de privatização do Banespa, que começou em 30 de dezembro de 1994. Razão: os grupos contrários à venda do banco profissionalizaram sua ação de resistência. Contrataram um escritório de advocacia bem estruturado e planejaram um calendário de ações e medidas liminares que está conseguindo impedir o bom andamento do processo. Têm sido mais certeiros nos prazos e nos alvos do que nas outras privatizações.

 
Rogerio Montenegro
Desde abril de 1997 a Justiça já concedeu oito liminares que atrasaram a privatização do Banespa
Prédio-sede do banco paulista: venda congelada

O calendário de venda do Banespa previa que na última quarta-feira os nove grupos financeiros candidatos a participar do leilão teriam acesso ao "data room", sala onde se guarda uma montanha de documentos sobre a situação do banco paulista. Durante 65 dias, os interessados poderiam dissecar a papelada para definir quanto estariam dispostos a pagar pela instituição. No ritual das privatizações, a abertura do data room é vista como um sinal de que o processo é irreversível e está prestes a chegar ao final. Mas ainda não foi dessa vez que esse sinal surgiu no horizonte. Uma liminar concedida pela Justiça federal numa ação do Sindicato dos Bancários de São Paulo impediu o acesso dos interessados aos documentos. O juiz Marcelo Guerra Martins entendeu que o governo pode ter cometido uma irregularidade quando, em 4 de abril, anunciou a lista dos bancos habilitados a comprar o Banespa. Isso porque, naquele dia, vigorava outra liminar, também obtida pelos bancários, determinando a paralisação do processo.

"O governo está cometendo tantos erros que fica fácil obter liminares. E nós ainda nem usamos a munição pesada que temos guardada", diz o advogado dos bancários, João Roberto Piza, dono de um escritório localizado no bairro dos Jardins, um dos mais requintados de São Paulo. O advogado-geral da União, Gilmar Mendes, minimiza a vitória parcial dos adversários, afirmando que ela é fruto de uma compulsão dos juízes em conceder liminares, muitas vezes sem analisar a fundo a questão. "A verdade é que é muito fácil conseguir uma liminar", comenta. Como já percebeu que a briga, agora, é no tapetão, Mendes montou uma equipe especial, composta de treze advogados provenientes de diversos órgãos do governo, para anular as ações dos adversários da venda do banco estatal. A tarefa da semana é derrubar a liminar em vigor e outras que ainda podem surgir para, no intervalo entre uma ação e outra, abrir o data room e manter o cronograma. Ele prevê que o leilão se realize no próximo dia 18 de julho. Para desarmar várias liminares com uma só tacada, o governo acaba de baixar uma medida provisória que permite ao juiz que suspende uma liminar estender a decisão a outros pedidos semelhantes. A novidade já foi apelidada de "MP do Banespa".

 
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