Edição 1 649 -17/5/2000

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Bancos

No olho do furacão

Uma chuva de problemas tumultua a reta
final da venda do banco Bozano, Simonsen

Lucila Soares

Robson de Freitas
Júlio Bozano: multado pela Receita em
1 bilhão de reais


O gaúcho Júlio Bozano, dono de uma fortuna pessoal estimada em 1,3 bilhão de dólares, atravessou os anos 90 como um dos banqueiros mais bem-sucedidos do Brasil. Ganhou o título de "barão do aço" no início da década, quando arrematou a Usiminas, CST e Cosipa nos leilões de privatização. Depois, incorporou ao seu colar de empresas a Embraer, hoje a maior exportadora brasileira. Finalmente, há dois anos, comprou o Banco Meridional. Em janeiro, Júlio Bozano anunciou a venda de seus dois bancos, o Bozano, Simonsen e o Meridional, ao gigante espanhol Santander. Tudo indicava que passaria uma boa temporada longe dos holofotes. No dia 7, ele voltou ao noticiário de forma incômoda.

Apresentando-se como ex-funcionário do Bozano, Simonsen, o empresário Yssuyuki Nakano tornou pública, através do jornal Folha de S. Paulo, uma história estranha que já contara numa sessão sigilosa à CPI dos Bancos em setembro. Ele disse à CPI que durante cinco anos operou um caixa dois no banco e acusou Bozano, sem apresentar provas, de outras tantas irregularidades. Nakano é um acusador coberto de sombras. Investigado por uma CPI estadual em São Paulo sob a suspeita de integrar um esquema de lavagem de dinheiro do narcotráfico, é metido numa série de negócios mal explicados. Júlio Bozano sustenta que Nakano nunca prestou serviços ao banco, como ele alega. "Até pouco tempo atrás eu era considerado um dos maiores empresários do país. Agora sou comparado a um ladrão. Claramente, ele (Nakano) inventou essa história para tentar justificar o patrimônio que possui", disse Bozano a VEJA, na quinta-feira passada.

Segundo Júlio Bozano, a ligação de Nakano com o banco começou em 1991, quando o então vice-presidente Fernando Guerreiro assumiu o comando da instituição, liberando o empresário para se dedicar às privatizações. Por motivos que provavelmente Guerreiro levou para o túmulo ao se suicidar em 1993, Nakano conseguiu crédito ilimitado no Bozano, Simonsen. Seus pedidos eram autorizados diretamente por Guerreiro. Alertado por um diretor, Júlio Bozano descobriu que Nakano tinha uma carteira de crédito de 40 milhões de dólares em seu banco. Vinte dias depois dessa descoberta, Guerreiro deu um tiro na cabeça.

Nakano e suas histórias já seriam dor de cabeça suficiente para Bozano, que fundou seu banco em 1961, tendo como sócio o ex-ministro da Fazenda Mario Henrique Simonsen. Mas as complicações não pararam por aí. No início da semana, a Receita Federal deu início aos procedimentos para cobrar do Bozano, Simonsen uma multa de mais de 1 bilhão de reais por operações realizadas em paraísos fiscais – e que não têm a ver com as acusações de Nakano. A Receita estava investigando desde março as operações, destinadas aparentemente a reduzir o imposto sobre o lucro, entre o Bozano, Simonsen e sua subsidiária Bozano Overseas. Era tradição do banco usar o que é chamado no mercado pelo eufemismo de "política fiscal agressiva" – que nada mais é do que encontrar brechas na legislação com o objetivo de pagar menos imposto. O valor astronômico da multa não é incomum. Sobre o Banespa paira uma cobrança por motivos semelhantes de 2,7 bilhões de reais. A Panamco, a maior engarrafadora de Coca-Cola do país, deve 2 bilhões de reais ao Fisco paulista. De recurso em recurso, esses processos se arrastam por anos e, em geral, as multas são drasticamente reduzidas na Justiça antes de ser pagas.

O banco recorreu da decisão da Receita. Embora o valor seja alto, a multa não teria o mesmo efeito se tivesse pegado o Bozano em uma fase diferente. Ocorre que Júlio Bozano está atualmente concluindo a venda de seu banco para o espanhol Santander. No mercado chegou a correr o boato maldoso de que o negócio seria suspenso. Na quinta-feira passada, o banco espanhol reafirmou oficialmente seu interesse na compra. O preço final ficou em 1,87 bilhão de reais, mas o Santander tem lá suas garantias. Como sempre ocorre nesse tipo de transação, parte do dinheiro da venda ficará depositada em um terceiro banco. O Bozano só a receberá quando os compradores espanhóis tomarem pé da situação. Caso a multa tenha mesmo de ser paga, seu valor será abatido desse total.