Bancos
No olho do furacão
Uma chuva de problemas tumultua a reta
final da venda do banco Bozano, Simonsen
Lucila Soares
Robson de Freitas
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Júlio Bozano: multado pela
Receita em
1 bilhão de reais |
O gaúcho Júlio Bozano, dono de uma fortuna
pessoal estimada em 1,3 bilhão de dólares,
atravessou os anos 90 como um dos banqueiros mais bem-sucedidos
do Brasil. Ganhou o título de "barão do aço"
no início da década, quando arrematou a Usiminas,
CST e Cosipa nos leilões de privatização.
Depois, incorporou ao seu colar de empresas a Embraer, hoje
a maior exportadora brasileira. Finalmente, há dois
anos, comprou o Banco Meridional. Em janeiro, Júlio
Bozano anunciou a venda de seus dois bancos, o Bozano, Simonsen
e o Meridional, ao gigante espanhol Santander. Tudo indicava
que passaria uma boa temporada longe dos holofotes. No dia
7, ele voltou ao noticiário de forma incômoda.
Apresentando-se como ex-funcionário do Bozano,
Simonsen, o empresário Yssuyuki Nakano tornou pública,
através do jornal Folha de S. Paulo, uma história
estranha que já contara numa sessão sigilosa
à CPI dos Bancos em setembro. Ele disse à
CPI que durante cinco anos operou um caixa dois no banco
e acusou Bozano, sem apresentar provas, de outras tantas
irregularidades. Nakano é um acusador coberto de
sombras. Investigado por uma CPI estadual em São
Paulo sob a suspeita de integrar um esquema de lavagem de
dinheiro do narcotráfico, é metido numa série
de negócios mal explicados. Júlio Bozano sustenta
que Nakano nunca prestou serviços ao banco, como
ele alega. "Até pouco tempo atrás eu era considerado
um dos maiores empresários do país. Agora
sou comparado a um ladrão. Claramente, ele (Nakano)
inventou essa história para tentar justificar o patrimônio
que possui", disse Bozano a VEJA, na quinta-feira passada.
Segundo Júlio Bozano, a ligação de
Nakano com o banco começou em 1991, quando o então
vice-presidente Fernando Guerreiro assumiu o comando da
instituição, liberando o empresário
para se dedicar às privatizações. Por
motivos que provavelmente Guerreiro levou para o túmulo
ao se suicidar em 1993, Nakano conseguiu crédito
ilimitado no Bozano, Simonsen. Seus pedidos eram autorizados
diretamente por Guerreiro. Alertado por um diretor, Júlio
Bozano descobriu que Nakano tinha uma carteira de crédito
de 40 milhões de dólares em seu banco. Vinte
dias depois dessa descoberta, Guerreiro deu um tiro na cabeça.
Nakano e suas histórias já seriam dor de
cabeça suficiente para Bozano, que fundou seu banco
em 1961, tendo como sócio o ex-ministro da Fazenda
Mario Henrique Simonsen. Mas as complicações
não pararam por aí. No início da semana,
a Receita Federal deu início aos procedimentos para
cobrar do Bozano, Simonsen uma multa de mais de 1 bilhão
de reais por operações realizadas em paraísos
fiscais e que não têm a ver com as acusações
de Nakano. A Receita estava investigando desde março
as operações, destinadas aparentemente a reduzir
o imposto sobre o lucro, entre o Bozano, Simonsen e sua
subsidiária Bozano Overseas. Era tradição
do banco usar o que é chamado no mercado pelo eufemismo
de "política fiscal agressiva" que nada mais é
do que encontrar brechas na legislação com
o objetivo de pagar menos imposto. O valor astronômico
da multa não é incomum. Sobre o Banespa paira
uma cobrança por motivos semelhantes de 2,7 bilhões
de reais. A Panamco, a maior engarrafadora de Coca-Cola
do país, deve 2 bilhões de reais ao Fisco
paulista. De recurso em recurso, esses processos se arrastam
por anos e, em geral, as multas são drasticamente
reduzidas na Justiça antes de ser pagas.
O banco recorreu da decisão da Receita. Embora
o valor seja alto, a multa não teria o mesmo efeito
se tivesse pegado o Bozano em uma fase diferente. Ocorre
que Júlio Bozano está atualmente concluindo
a venda de seu banco para o espanhol Santander. No mercado
chegou a correr o boato maldoso de que o negócio
seria suspenso. Na quinta-feira passada, o banco espanhol
reafirmou oficialmente seu interesse na compra. O preço
final ficou em 1,87 bilhão de reais, mas o Santander
tem lá suas garantias. Como sempre ocorre nesse tipo
de transação, parte do dinheiro da venda ficará
depositada em um terceiro banco. O Bozano só a receberá
quando os compradores espanhóis tomarem pé
da situação. Caso a multa tenha mesmo de ser
paga, seu valor será abatido desse total.