Pressa no começo
Números do IBGE mostram que a
economia cresceu no primeiro trimestre,
período em que costuma empacar
Edilson Coelho
Um dos paradoxos mais dolorosos das estatísticas
econômicas é que quando elas apontam para baixo
as pessoas já estão sentindo seus efeitos
exasperadores há muito tempo. Quando elas, finalmente,
mudam de rumo e exibem números positivos, demora
até que a melhora chegue ao mundo real. Os números
divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), na semana passada, encaixam-se nessa segunda categoria.
O IBGE anunciou que a economia brasileira cresceu 3% no
primeiro trimestre deste ano comparativamente ao mesmo período
de 1999. É um indicador muito positivo que, se mantido
por um tempo longo, pode ajudar a resolver parte dos graves
problemas sociais do país, especialmente o desemprego.
Se
o número encontrado pelo IBGE não está
ainda evidente na realidade das ruas é porque ele
é apenas um instantâneo. Refere-se a um período
muito curto, de três meses. Além disso o crescimento
foi medido em relação a um patamar muito baixo,
o primeiro trimestre do ano passado, quando ainda repercutiam
os efeitos da dura desvalorização do real,
que chegou a perder quase metade de seu valor. A produção
brasileira está, hoje, 3% maior do que era naquele
tempo de vacas magras. Comparada aos três últimos
meses do ano passado, quando era animada pelas compras de
Natal, a economia cresceu 1,23%. É um sintoma de
que a retomada do crescimento pode ser duradoura, pois normalmente
depois dos festejos do Ano-Novo a atividade industrial desacelera.
O ano 2000 tem sido fora do normal. Já começou
acelerado.
Também é um sinal positivo que mesmo crescendo
o Brasil tenha inflação em queda. A indústria
está produzindo a todo o vapor, o setor de serviços
está agitado e, com abundância de oferta, os
preços não sobem. Na verdade, os últimos
levantamentos feitos entre os atacadistas detectaram deflação
nos preços de produtos agrícolas e isso
a dona-de-casa percebe na feira ou no mercado. Existe outro
indicador notável de onde havia muito tempo só
se recolhia notícia ruim. Depois de mais de um ano
de liberação do câmbio e de estímulos
à exportação, o resultado acumulado
da balança comercial está no azul. O Brasil
exportou mais do que importou e produziu um saldo de 280
milhões de dólares até a primeira semana
de maio. "Os números do IBGE mostram uma recuperação
consistente da economia brasileira", diz o ex-ministro Mailson
da Nóbrega.
Alguém poderia perguntar, então, se tudo
vai tão bem, por que se fala tanto no nervosismo
das bolsas de valores e por que, afinal, os juros não
caem a um nível mais suportável? Bem, aí
é preciso entender que o Brasil não é
uma ilha. É um país em desenvolvimento e com
pouca poupança, que depende de investimentos externos
para fazer com que sua economia cresça e, com isso,
aumente o bem-estar da população. O que vem
ocorrendo é um problema que foge ao controle, e muitas
vezes até ao entendimento, dos brasileiros. Mas que
os atinge em cheio.
Acontece que os investidores internacionais foram acometidos
de uma ansiedade exagerada. Eles estão aflitos porque
descobriram um jeitinho muito fácil de ganhar montanhas
de dinheiro apostando em empresas de alta tecnologia que
ninguém sabe se vão viabilizar-se financeiramente.
Inseguros sobre o desempenho dos novos negócios,
venderam as ações no mercado. E, quando muitos
oferecem ações ao mesmo tempo, o preço
despenca. Resultado: a Bolsa de Valores de Nova York que
lida com papéis de empresas de tecnologia de ponta,
a Nasdaq, está saltando mais do que um eletrocardiograma.
E, já que os grandes investidores são os mesmos
em Nova York, Turquia, Frankfurt e São Paulo, a síndrome
contamina o mundo inteiro. Empresas brasileiras que não
têm tecnologia de ponta, não fazem negócios
com os Estados Unidos e não têm sequer nenhum
resultado negativo em seus balanços estão
sendo penalizadas. Desde o início do ano, 1 bilhão
de reais já deixaram a Bolsa de São Paulo
para cobrir prejuízos no exterior ou para abrigar-se
em investimentos de menor risco.
É nesse ponto que se encontra a explicação
para o juro brasileiro, um dos mais altos do mundo. Ocorre
que, como o Brasil precisa segurar o dinheiro dos investidores
dentro de suas fronteiras, tem de oferecer alternativas
de aplicações seguras e rentáveis.
Caso contrário, os paranóicos se abrigam nos
títulos do Tesouro americano. O governo brasileiro
vinha baixando paulatinamente os juros pagos a quem comprava
seus títulos. Hoje, eles estão em 18,5%. Descontada
a inflação, o juro fica em 12% ao ano. Para
o estrangeiro isso é uma fortuna. Nos Estados Unidos,
paga-se menos da metade dessa taxa a quem investe em títulos
públicos. Captar dinheiro num ambiente de política
e economia estáveis, a juros altos, é fácil
para o Banco Central. Por isso o governo já pagou
empréstimos ao Banco Mundial, ao Fundo Monetário
Internacional e ao Banco do Japão e ainda ficou com
29 bilhões de dólares na reserva.
Para o brasileiro comum, o juro básico do Banco
Central é uma abstração. Ele paga por
mês, no cheque especial, o mesmo porcentual com que
o BC remunera seus credores ao ano. Isso porque há
muitos outros componentes nos juros do mercado, entre eles
o lucro dos bancos, os impostos e o risco de inadimplência.
Bancos e financiadoras resistem às pressões
para derrubar as taxas que cobram.
O produto da operação matemática
da economia brasileira no momento, portanto, é o
seguinte: internamente, as coisas vão se ajeitando
bem. Embora ainda existam fatores de risco, como a proximidade
do inverno, que tende a provocar aumento nos preços,
ou as eleições municipais, que podem desencadear
uma farra de gastança pública, os indicadores
são positivos. O perigo está do lado de lá
da porta, no exterior. "O Brasil vai bem, mas continua vulnerável
a tempestades externas", diz Edmar Bacha, dirigente do banco
BBA em Nova York. A céticos e crédulos, os
economistas e estudiosos recomendam uma colher de cautela
com uma pitada generosa de realismo.
Saiba
mais |
|
|
|