Edição 1 649 -17/5/2000
Montagem sobre fotos de Claudio Rossi/Eugenio Savio

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Pressa no começo

Números do IBGE mostram que a
economia cresceu no primeiro trimestre,
período em que costuma empacar

Edilson Coelho

Um dos paradoxos mais dolorosos das estatísticas econômicas é que quando elas apontam para baixo as pessoas já estão sentindo seus efeitos exasperadores há muito tempo. Quando elas, finalmente, mudam de rumo e exibem números positivos, demora até que a melhora chegue ao mundo real. Os números divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na semana passada, encaixam-se nessa segunda categoria. O IBGE anunciou que a economia brasileira cresceu 3% no primeiro trimestre deste ano comparativamente ao mesmo período de 1999. É um indicador muito positivo que, se mantido por um tempo longo, pode ajudar a resolver parte dos graves problemas sociais do país, especialmente o desemprego.


Se o número encontrado pelo IBGE não está ainda evidente na realidade das ruas é porque ele é apenas um instantâneo. Refere-se a um período muito curto, de três meses. Além disso o crescimento foi medido em relação a um patamar muito baixo, o primeiro trimestre do ano passado, quando ainda repercutiam os efeitos da dura desvalorização do real, que chegou a perder quase metade de seu valor. A produção brasileira está, hoje, 3% maior do que era naquele tempo de vacas magras. Comparada aos três últimos meses do ano passado, quando era animada pelas compras de Natal, a economia cresceu 1,23%. É um sintoma de que a retomada do crescimento pode ser duradoura, pois normalmente depois dos festejos do Ano-Novo a atividade industrial desacelera. O ano 2000 tem sido fora do normal. Já começou acelerado.

Também é um sinal positivo que mesmo crescendo o Brasil tenha inflação em queda. A indústria está produzindo a todo o vapor, o setor de serviços está agitado e, com abundância de oferta, os preços não sobem. Na verdade, os últimos levantamentos feitos entre os atacadistas detectaram deflação nos preços de produtos agrícolas – e isso a dona-de-casa percebe na feira ou no mercado. Existe outro indicador notável de onde havia muito tempo só se recolhia notícia ruim. Depois de mais de um ano de liberação do câmbio e de estímulos à exportação, o resultado acumulado da balança comercial está no azul. O Brasil exportou mais do que importou e produziu um saldo de 280 milhões de dólares até a primeira semana de maio. "Os números do IBGE mostram uma recuperação consistente da economia brasileira", diz o ex-ministro Mailson da Nóbrega.

Alguém poderia perguntar, então, se tudo vai tão bem, por que se fala tanto no nervosismo das bolsas de valores e por que, afinal, os juros não caem a um nível mais suportável? Bem, aí é preciso entender que o Brasil não é uma ilha. É um país em desenvolvimento e com pouca poupança, que depende de investimentos externos para fazer com que sua economia cresça e, com isso, aumente o bem-estar da população. O que vem ocorrendo é um problema que foge ao controle, e muitas vezes até ao entendimento, dos brasileiros. Mas que os atinge em cheio.

Acontece que os investidores internacionais foram acometidos de uma ansiedade exagerada. Eles estão aflitos porque descobriram um jeitinho muito fácil de ganhar montanhas de dinheiro apostando em empresas de alta tecnologia que ninguém sabe se vão viabilizar-se financeiramente. Inseguros sobre o desempenho dos novos negócios, venderam as ações no mercado. E, quando muitos oferecem ações ao mesmo tempo, o preço despenca. Resultado: a Bolsa de Valores de Nova York que lida com papéis de empresas de tecnologia de ponta, a Nasdaq, está saltando mais do que um eletrocardiograma. E, já que os grandes investidores são os mesmos em Nova York, Turquia, Frankfurt e São Paulo, a síndrome contamina o mundo inteiro. Empresas brasileiras que não têm tecnologia de ponta, não fazem negócios com os Estados Unidos e não têm sequer nenhum resultado negativo em seus balanços estão sendo penalizadas. Desde o início do ano, 1 bilhão de reais já deixaram a Bolsa de São Paulo para cobrir prejuízos no exterior ou para abrigar-se em investimentos de menor risco.

É nesse ponto que se encontra a explicação para o juro brasileiro, um dos mais altos do mundo. Ocorre que, como o Brasil precisa segurar o dinheiro dos investidores dentro de suas fronteiras, tem de oferecer alternativas de aplicações seguras e rentáveis. Caso contrário, os paranóicos se abrigam nos títulos do Tesouro americano. O governo brasileiro vinha baixando paulatinamente os juros pagos a quem comprava seus títulos. Hoje, eles estão em 18,5%. Descontada a inflação, o juro fica em 12% ao ano. Para o estrangeiro isso é uma fortuna. Nos Estados Unidos, paga-se menos da metade dessa taxa a quem investe em títulos públicos. Captar dinheiro num ambiente de política e economia estáveis, a juros altos, é fácil para o Banco Central. Por isso o governo já pagou empréstimos ao Banco Mundial, ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco do Japão e ainda ficou com 29 bilhões de dólares na reserva.

Para o brasileiro comum, o juro básico do Banco Central é uma abstração. Ele paga por mês, no cheque especial, o mesmo porcentual com que o BC remunera seus credores ao ano. Isso porque há muitos outros componentes nos juros do mercado, entre eles o lucro dos bancos, os impostos e o risco de inadimplência. Bancos e financiadoras resistem às pressões para derrubar as taxas que cobram.

O produto da operação matemática da economia brasileira no momento, portanto, é o seguinte: internamente, as coisas vão se ajeitando bem. Embora ainda existam fatores de risco, como a proximidade do inverno, que tende a provocar aumento nos preços, ou as eleições municipais, que podem desencadear uma farra de gastança pública, os indicadores são positivos. O perigo está do lado de lá da porta, no exterior. "O Brasil vai bem, mas continua vulnerável a tempestades externas", diz Edmar Bacha, dirigente do banco BBA em Nova York. A céticos e crédulos, os economistas e estudiosos recomendam uma colher de cautela com uma pitada generosa de realismo.

 

 
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