História afogada
Represa na Turquia vai inundar antigas cidades
romanas com mosaicos de 2 000 anos
Bia Barbosa
O
pequeno vilarejo de Belkis, no sul da Turquia, está
prestes a ser varrido do mapa. O país terminou a
construção de uma barragem no Rio Eufrates
que criará um lago artificial e inundará toda
a região. A formação da represa vai
alagar 44 vilarejos, e cerca de 35.000
pessoas verão suas casas desaparecer sob as águas.
Segundo o plano do governo, a Represa de Birecik vai gerar
energia elétrica e irrigar os campos áridos
do local. Parece uma troca justa. Mas um verdadeiro tesouro
da humanidade pode ser perdido quando as águas invadirem
Belkis. A cidade esconde em seu subsolo uma das mais ricas
coleções de mosaicos romanos do mundo, e já
está até sendo chamada pelos arqueólogos
de "Segunda Pompéia". Além dos mosaicos, todos
os dias novas peças são descobertas. Entre
elas, 65.000 selos de família
moldados em cerâmica.
Os pesquisadores, que estão no local há
mais de dez anos, agora trabalham a toque de caixa para
tentar salvar o máximo possível. Mas em três
meses toda essa riqueza pode desaparecer antes mesmo de
ter sido vista. "Isso é uma tragédia", lamenta
Mehmet Onal, um dos arqueólogos que trabalham nas
escavações. "Pesquisamos apenas uma pequena
parte do sítio e encontramos mosaicos maravilhosos.
Podemos imaginar o que ainda falta ser descoberto." O arqueólogo
australiano David Kennedy, que escavou o local em 1993,
estimou, na época, pelo menos mais dez anos de estudo
e verba de 1,25 milhão de dólares para uma
análise completa das construções. "Faltou
dinheiro e interesse", diz.
Ricos e altamente elaborados, os mosaicos de Belkis, encontrados
em excelente estado de conservação, quase
sempre descrevem cenas da mitologia grega. Um dos últimos
a ser descoberto mostra Posêidon, deus do mar, ao
lado das divindades da água Tétis e Oceanus.
Outro exibe o herói Perseu salvando a princesa Andrômeda
de um monstro marinho. Esses mosaicos serviram de decoração
para o piso das casas de Zeugma, uma cidade do Império
Romano que existiu no local há mais de 2 000 anos.
Fundada no ano 300 a.C. por um dos generais de Alexandre,
era três vezes maior que Pompéia e abrigava
cerca de 70 000 habitantes. Importante centro comercial,
a cidade desapareceu no século III depois de sofrer
uma invasão, um incêndio devastador e um terremoto.
Esta não é a primeira vez que uma barragem
apaga vestígios da História na Turquia. Cerca
de dez anos atrás, a antiga cidade romana de Samosata
também foi inundada. Uma equipe de arqueólogos
trabalhou no local, mas não conseguiu revelar todas
as ruínas. Também não será a
última vez em que na Turquia algum sítio de
interesse arqueológico é afogado por barragens.
A Represa de Birecik faz parte de um plano muito mais extenso
que inclui a construção de outras barragens
em áreas que têm cidades antigas soterradas.
Há maneiras de salvar das águas um patrimônio
histórico de valor inestimável. Na década
de 60, a Organização das Nações
Unidas para a Educação, Ciência e Cultura
(Unesco) promoveu um esforço internacional para salvar
quatro estátuas gigantescas do faraó Ramsés
II que iam ser submersas pela Represa de Assuã, no
Egito. Elas foram destacadas da rocha e reinstaladas 60
metros adiante. Mas, aparentemente, as cidades históricas
da Turquia não terão a mesma sorte.
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