Edição 1 649 -17/5/2000

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História afogada

Represa na Turquia vai inundar antigas cidades
romanas com mosaicos de 2 000 anos

Bia Barbosa

O pequeno vilarejo de Belkis, no sul da Turquia, está prestes a ser varrido do mapa. O país terminou a construção de uma barragem no Rio Eufrates que criará um lago artificial e inundará toda a região. A formação da represa vai alagar 44 vilarejos, e cerca de 35.000 pessoas verão suas casas desaparecer sob as águas. Segundo o plano do governo, a Represa de Birecik vai gerar energia elétrica e irrigar os campos áridos do local. Parece uma troca justa. Mas um verdadeiro tesouro da humanidade pode ser perdido quando as águas invadirem Belkis. A cidade esconde em seu subsolo uma das mais ricas coleções de mosaicos romanos do mundo, e já está até sendo chamada pelos arqueólogos de "Segunda Pompéia". Além dos mosaicos, todos os dias novas peças são descobertas. Entre elas, 65.000 selos de família moldados em cerâmica.

Os pesquisadores, que estão no local há mais de dez anos, agora trabalham a toque de caixa para tentar salvar o máximo possível. Mas em três meses toda essa riqueza pode desaparecer antes mesmo de ter sido vista. "Isso é uma tragédia", lamenta Mehmet Onal, um dos arqueólogos que trabalham nas escavações. "Pesquisamos apenas uma pequena parte do sítio e encontramos mosaicos maravilhosos. Podemos imaginar o que ainda falta ser descoberto." O arqueólogo australiano David Kennedy, que escavou o local em 1993, estimou, na época, pelo menos mais dez anos de estudo e verba de 1,25 milhão de dólares para uma análise completa das construções. "Faltou dinheiro e interesse", diz.

Ricos e altamente elaborados, os mosaicos de Belkis, encontrados em excelente estado de conservação, quase sempre descrevem cenas da mitologia grega. Um dos últimos a ser descoberto mostra Posêidon, deus do mar, ao lado das divindades da água Tétis e Oceanus. Outro exibe o herói Perseu salvando a princesa Andrômeda de um monstro marinho. Esses mosaicos serviram de decoração para o piso das casas de Zeugma, uma cidade do Império Romano que existiu no local há mais de 2 000 anos. Fundada no ano 300 a.C. por um dos generais de Alexandre, era três vezes maior que Pompéia e abrigava cerca de 70 000 habitantes. Importante centro comercial, a cidade desapareceu no século III depois de sofrer uma invasão, um incêndio devastador e um terremoto.

Esta não é a primeira vez que uma barragem apaga vestígios da História na Turquia. Cerca de dez anos atrás, a antiga cidade romana de Samosata também foi inundada. Uma equipe de arqueólogos trabalhou no local, mas não conseguiu revelar todas as ruínas. Também não será a última vez em que na Turquia algum sítio de interesse arqueológico é afogado por barragens. A Represa de Birecik faz parte de um plano muito mais extenso que inclui a construção de outras barragens em áreas que têm cidades antigas soterradas.

Há maneiras de salvar das águas um patrimônio histórico de valor inestimável. Na década de 60, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) promoveu um esforço internacional para salvar quatro estátuas gigantescas do faraó Ramsés II que iam ser submersas pela Represa de Assuã, no Egito. Elas foram destacadas da rocha e reinstaladas 60 metros adiante. Mas, aparentemente, as cidades históricas da Turquia não terão a mesma sorte.

 
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Da internet
  World Comission on Dams