Asas da liberdade
As facilidades da rede começam
a mudar
a vida de milhares de deficientes físicos
Ronaldo França
Sem que ninguém se desse conta, a internet, que para
a maioria das pessoas representou uma grande transformação,
está abrindo as portas de um mundo novo para os deficientes
físicos. Graças ao acesso à rede, cegos
já podem ler jornais diariamente, surdos e mudos
conversam com pessoas desconhecidas sem nenhum constrangimento
nas salas de bate-papo e paraplégicos fazem as compras
de mês do supermercado sem transtorno. Do ponto de
vista dos homens comuns, são pequenos avanços.
Para quem convive com as limitações do corpo,
são enormes distâncias. Mas não é
só. O que tem animado essa parcela de brasileiros
até então condenada a viver à
margem numa sociedade de culto à perfeição
é a perspectiva de poder visitar e desfrutar
os mesmos endereços e serviços sem que sequer
se perceba que são deficientes. Convivem com a sensação
de que, pelo menos no mundo virtual, não são
diferentes.
A Organização Mundial de Saúde calcula
que os deficientes físicos sejam 4% da população
brasileira. São 6,5 milhões de pessoas. Os
que mais têm sentido a diferença são
os deficientes visuais. Já há cerca de 1 000
deles navegando na rede. Graças a programas que fazem
a leitura dos textos na tela e os transformam em sons, já
podem consumir cultura e informação sem problemas.
Existem vários programas desse tipo. O mais popular
é o DOSVOX, desenvolvido pelo Núcleo de Computação
Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Pode ser obtido gratuitamente na própria internet
e vem com um pacote de dezesseis aplicativos que incluem
editores de texto, leitores de telas e navegadores para
internet. O pacote mais completo tem, entre outras ferramentas,
agenda, processador de textos compatível com os mais
usuais do mercado e todos os softwares necessários
para um escritório, mas custa cerca de 140 reais.
Utilizando esse programa, o estudante Renato Costa, 26 anos,
já consegue ler revistas novidade absoluta em
sua vida. Também passou a ler livros nos sites de
bibliotecas virtuais. Antes, essa tarefa só era possível
quando tinha acesso às poucas edições
existentes em braile. "A internet foi um divisor de águas",
diz.
Oscar Cabral
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Selmy Yassuda

Nogueira (à esq.) e
Costa: novidades na carreira e mais acesso à
cultura depois que descobriram a internet
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Há mais o que comemorar nos avanços permitidos
pela rede. Basta imaginar o trabalho que uma pessoa impossibilitada
de andar teria para empurrar um carrinho de compras no supermercado.
O advogado carioca Geraldo Nogueira, diretor da ONG Centro
de Vida Independente, insistiu, por três anos, em
manter um escritório aberto no centro da cidade.
"Era uma sucessão de problemas que começava
na hora de parar o carro e às vezes não tinha
fim", lembra. Fechou as portas e passou a fazer serviços
de consultoria jurídica via internet. "Hoje tenho
uma perspectiva de ganhos muito maior", diz.
Assim como na vida real em que a inadequação
das cidades é um transtorno para os deficientes ,
no mundo virtual também são necessários
ajustes. Muitas páginas, bonitas e funcionais para
quem pode enxergar, precisam de adaptações
para se adequar aos cegos. De nada adianta, por exemplo,
páginas coalhadas de desenhos se os ícones
não forem acompanhados de palavras que possam ser
decodificadas. Têm de estar escritas letra por letra
para que possam ser lidas pelo programa que as transforma
em som. Mas, diferentemente do que acontece quando a calçada
não tem rampas, na internet os problemas não
tiram o bom humor dos deficientes, que, se antes caminhavam
com dificuldade, agora navegam livremente.
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