Vietnã
Eles voltaram!
A guerra acabou há 25 anos, mas a presença
americana no país nunca foi tão forte
Maurício Lima
Nas ruas de Ho Chi Minh, a antiga Saigon, no Vietnã,
as pessoas vestem jeans, camisetas e falam ao celular. Os
outdoors anunciam marcas como Coca-Cola, Visa e Federal
Express. Os primeiros shopping centers, as sagradas catedrais
do capitalismo, estão em fase final de construção.
Atualmente, a profissão com maior expansão
no mercado de trabalho é a de professor de inglês,
e a internet já faz parte do dia-a-dia dos vietnamitas.
Para os próximos anos, estão previstas privatizações
de alguns setores importantes da economia local: a indústria
bancária, a rede de telecomunicações
e a companhia aérea Vietnam Airlines. Aquele que
não soubesse o resultado da Guerra do Vietnã
poderia confundir-se caso visitasse o país hoje.
Vinte e cinco anos depois da reunificação
e da humilhante derrota dos Estados Unidos, a presença
americana vem ganhando espaço no reduto comunista.
Hoje, mais da metade da economia do Vietnã já
está nas mãos de empresas estrangeiras, principalmente
de companhias americanas. O avanço do capitalismo
ganhou grande impulso após a assinatura, no ano passado,
do acordo de normalização de relações
comerciais com os Estados Unidos. O tratado eliminou as
últimas arestas dos tempos da guerra. No mês
passado, enquanto comemorava a vitória sobre o inimigo,
o governo vietnamita esperava que mais investimentos chegassem
por lá. Não é para menos. A entrada
do capital estrangeiro vem definindo o ritmo de crescimento
da economia local. Graças sobretudo ao dinheiro americano,
o produto interno bruto cresceu 5% no ano passado, um índice
admirável. Em 1999, foram 1,4 bilhão de dólares
de investimentos estrangeiros. Para este ano, espera-se
o dobro. Atraídas pela mão-de-obra barata
e por uma vasta produção agrícola,
muitas empresas fincaram o pé no promissor mercado
vietnamita. Um dos maiores exemplos é a Nike. Depois
do Estado, a empresa americana é a maior empregadora,
com mais de 40.000 funcionários.
No último ano, faturou 400 milhões de dólares
só com a produção local e pretende
contratar mais 9.000 pessoas
nos próximos meses.
A transição de uma economia isolada para
um mercado aberto é difícil de ser concretizada
sem contratempos. As empresas estrangeiras estão
se adaptando a males como corrupção, concorrência
do contrabando que vem da Tailândia e pirataria por
falta de uma lei de patentes decente. A burocracia do governo
comunista também faz o que pode para complicar a
vida dos investidores. Mas é muito difícil
imaginar que haja caminho de volta para as reformas que
estão sendo implementadas. As mudanças na
legislação que regula a entrada de capital
externo são lentas, mas avançam. No princípio,
só era possível fazer negócios em conjunto
com firmas locais. Depois, as empresas estrangeiras passaram
a ser consideradas fornecedoras de serviços nas joint
ventures, associações entre essas companhias
e o capital local. Agora, o governo permitiu o funcionamento
de empresas 100% estrangeiras, exceto em setores considerados
estratégicos, como o petróleo. O governo de
Hanói já fechou um megacontrato de prospecção
com empresas dos Estados Unidos, da Espanha e do Japão.
O Vietnã tem 80 milhões de habitantes, que,
em geral, vivem muito longe do ideal que Ho Chi Minh, o
maior líder do Vietnã, propagava: "Independência,
liberdade e felicidade". O país é um dos mais
pobres da Ásia, com renda per capita de apenas 340
dólares. A expectativa de vida é de 66 anos,
dois a menos que no Brasil. A mortalidade infantil é
de 48 por 1.000 nascidos vivos,
30% a mais que a brasileira. Quase 20% da população
sofre com o desemprego. Conseguir trabalho é um problema
tão grande que as famílias são proibidas
de ter mais de dois filhos. Quem fica nesse limite ganha
benefícios em educação, moradia e assistência
médica. Os que não cumprem a ordem não
podem registrar o terceiro filho e, se forem funcionários
públicos, arriscam-se até a perder o emprego.
Nas regiões rurais, as pessoas só sobrevivem
porque plantam a própria comida. Um dos maiores motivos
de orgulho local é a taxa de alfabetização.
O que significa que apenas 5% não sabe ler. Quem
não trabalha nas plantações de arroz
ou para o Estado vem descobrindo o turismo como fonte de
renda. No ano passado, 1,8 milhão de pessoas visitaram
o país e deixaram inacreditáveis 13 bilhões
de dólares, segundo a Administração
Nacional de Turismo do Vietnã. Apesar de lucrativo,
o turismo é apontado pelos órgãos locais
como o grande responsável por males como prostituição,
drogas e discotecas.
O turista consegue perceber as profundas marcas que a
guerra deixou no país. Pelas ruas, ainda é
possível encontrar pessoas mutiladas ou defeituosas
por causa da guerra. O saldo foi desastroso: mais de 1 milhão
de vietnamitas morreram. Não sobrou sequer uma ponte
na região norte em razão dos bombardeios feitos
pelos Estados Unidos. As perdas americanas também
foram grandes. Cerca de 60.000
americanos morreram ou desapareceram em combate, o dobro
de baixas na Guerra da Coréia. Oficialmente, o custo
da guerra ficou acima dos 165 bilhões de dólares.
Para se ter uma idéia, a Guerra da Coréia
custou aos cofres americanos apenas 18 bilhões de
dólares. Em 1975, com a queda de Saigon, os últimos
americanos abandonaram de vez o Vietnã. Hoje eles
estão de volta. Só que, desta vez, sem disparar
um tiro.
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