Edição 1 649 -17/5/2000

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Vietnã

Eles voltaram!

A guerra acabou há 25 anos, mas a presença
americana no país nunca foi tão forte

Maurício Lima

 

Nas ruas de Ho Chi Minh, a antiga Saigon, no Vietnã, as pessoas vestem jeans, camisetas e falam ao celular. Os outdoors anunciam marcas como Coca-Cola, Visa e Federal Express. Os primeiros shopping centers, as sagradas catedrais do capitalismo, estão em fase final de construção. Atualmente, a profissão com maior expansão no mercado de trabalho é a de professor de inglês, e a internet já faz parte do dia-a-dia dos vietnamitas. Para os próximos anos, estão previstas privatizações de alguns setores importantes da economia local: a indústria bancária, a rede de telecomunicações e a companhia aérea Vietnam Airlines. Aquele que não soubesse o resultado da Guerra do Vietnã poderia confundir-se caso visitasse o país hoje. Vinte e cinco anos depois da reunificação e da humilhante derrota dos Estados Unidos, a presença americana vem ganhando espaço no reduto comunista.

Hoje, mais da metade da economia do Vietnã já está nas mãos de empresas estrangeiras, principalmente de companhias americanas. O avanço do capitalismo ganhou grande impulso após a assinatura, no ano passado, do acordo de normalização de relações comerciais com os Estados Unidos. O tratado eliminou as últimas arestas dos tempos da guerra. No mês passado, enquanto comemorava a vitória sobre o inimigo, o governo vietnamita esperava que mais investimentos chegassem por lá. Não é para menos. A entrada do capital estrangeiro vem definindo o ritmo de crescimento da economia local. Graças sobretudo ao dinheiro americano, o produto interno bruto cresceu 5% no ano passado, um índice admirável. Em 1999, foram 1,4 bilhão de dólares de investimentos estrangeiros. Para este ano, espera-se o dobro. Atraídas pela mão-de-obra barata e por uma vasta produção agrícola, muitas empresas fincaram o pé no promissor mercado vietnamita. Um dos maiores exemplos é a Nike. Depois do Estado, a empresa americana é a maior empregadora, com mais de 40.000 funcionários. No último ano, faturou 400 milhões de dólares só com a produção local e pretende contratar mais 9.000 pessoas nos próximos meses.

A transição de uma economia isolada para um mercado aberto é difícil de ser concretizada sem contratempos. As empresas estrangeiras estão se adaptando a males como corrupção, concorrência do contrabando que vem da Tailândia e pirataria por falta de uma lei de patentes decente. A burocracia do governo comunista também faz o que pode para complicar a vida dos investidores. Mas é muito difícil imaginar que haja caminho de volta para as reformas que estão sendo implementadas. As mudanças na legislação que regula a entrada de capital externo são lentas, mas avançam. No princípio, só era possível fazer negócios em conjunto com firmas locais. Depois, as empresas estrangeiras passaram a ser consideradas fornecedoras de serviços nas joint ventures, associações entre essas companhias e o capital local. Agora, o governo permitiu o funcionamento de empresas 100% estrangeiras, exceto em setores considerados estratégicos, como o petróleo. O governo de Hanói já fechou um megacontrato de prospecção com empresas dos Estados Unidos, da Espanha e do Japão.

O Vietnã tem 80 milhões de habitantes, que, em geral, vivem muito longe do ideal que Ho Chi Minh, o maior líder do Vietnã, propagava: "Independência, liberdade e felicidade". O país é um dos mais pobres da Ásia, com renda per capita de apenas 340 dólares. A expectativa de vida é de 66 anos, dois a menos que no Brasil. A mortalidade infantil é de 48 por 1.000 nascidos vivos, 30% a mais que a brasileira. Quase 20% da população sofre com o desemprego. Conseguir trabalho é um problema tão grande que as famílias são proibidas de ter mais de dois filhos. Quem fica nesse limite ganha benefícios em educação, moradia e assistência médica. Os que não cumprem a ordem não podem registrar o terceiro filho e, se forem funcionários públicos, arriscam-se até a perder o emprego. Nas regiões rurais, as pessoas só sobrevivem porque plantam a própria comida. Um dos maiores motivos de orgulho local é a taxa de alfabetização. O que significa que apenas 5% não sabe ler. Quem não trabalha nas plantações de arroz ou para o Estado vem descobrindo o turismo como fonte de renda. No ano passado, 1,8 milhão de pessoas visitaram o país e deixaram inacreditáveis 13 bilhões de dólares, segundo a Administração Nacional de Turismo do Vietnã. Apesar de lucrativo, o turismo é apontado pelos órgãos locais como o grande responsável por males como prostituição, drogas e discotecas.

O turista consegue perceber as profundas marcas que a guerra deixou no país. Pelas ruas, ainda é possível encontrar pessoas mutiladas ou defeituosas por causa da guerra. O saldo foi desastroso: mais de 1 milhão de vietnamitas morreram. Não sobrou sequer uma ponte na região norte em razão dos bombardeios feitos pelos Estados Unidos. As perdas americanas também foram grandes. Cerca de 60.000 americanos morreram ou desapareceram em combate, o dobro de baixas na Guerra da Coréia. Oficialmente, o custo da guerra ficou acima dos 165 bilhões de dólares. Para se ter uma idéia, a Guerra da Coréia custou aos cofres americanos apenas 18 bilhões de dólares. Em 1975, com a queda de Saigon, os últimos americanos abandonaram de vez o Vietnã. Hoje eles estão de volta. Só que, desta vez, sem disparar um tiro.

 
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