Edição 1 649 -17/5/2000

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Sem governo, o país divide-se em enclaves
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Somália

Um país aos pedaços

Sem governo há nove anos, a Somália
dividiu-se em vários enclaves que
tentam ter vida independente

Cristiano Dias

A última vez que a Somália mereceu alguma atenção internacional foi em 1994, quando as tropas dos Estados Unidos, chamadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) para colocar ordem na casa, abandonaram o país derrotadas. Dias antes da retirada americana, o mundo se chocara com a imagem do corpo esquartejado de um soldado arrastado pela turba pelas ruas da capital, Mogadíscio. Agora quem está sendo esquartejada é a própria Somália. Sem governo central desde 1991, quando o ditador Mohamed Siad Barre foi escorraçado do poder, o país continua mergulhado na batalha insana entre seus mais de trinta clãs e os respectivos senhores da guerra. O país praticamente não dispõe de serviços públicos, sistema de ensino ou de saúde, não coleta impostos e não tem representação diplomática em nenhuma capital ou foro internacional. No vácuo deixado pela ausência de comando germinaram novos países que se autoproclamaram independentes, mas que não receberam reconhecimento internacional.

O mais próspero desses pseudopaíses é a Somalilândia, que ocupa a região norte da Somália geográfica. Tida como independente desde 1991, a região tem presidente, Parlamento, Poder Judiciário e polícia próprios. O orçamento do país é de apenas 15 milhões de dólares, o equivalente ao preço do passe de um jogador de futebol médio. Um ministro do novo Estado ganha 20 dólares por mês. Como não é reconhecida no exterior como nação independente, não mantém nenhuma forma de comércio exterior nem recebe ajuda externa de espécie alguma. Sua única relação com o mundo se dá por meio de alguns governos da Europa que mantêm negociações não oficiais visando repatriar refugiados indesejados.

Violência – Em 1998, na zona fronteiriça com a Somalilândia, foi fundada a Puntlândia, que ainda está montando sua estrutura de governo própria. Existem ainda iniciativas para a criação da Hiranlândia, na região central, e da Jubalândia, no extremo sul. Uma autoridade nacional está sendo negociada entre os dois clãs que disputam o poder em Benadir, a região onde se situa a capital. Cada um desses falsos países cresce e aparece em torno de um clã que consegue impor-se em uma determinada região. No resto do território, considerado pela ONU zona de crise, nenhum senhor da guerra conseguiu superioridade para impor sua lei e a anarquia é ainda mais completa.

A Somália nunca foi um lugar pacífico. Os clãs se digladiam na região conhecida como "Chifre da África" desde a proclamação da independência, em 1960. Durante mais de vinte anos o país foi governado pelo ditador Mohamed Siad Barre. Enquanto atendeu aos interesses estratégicos da Guerra Fria, Barre conseguiu manter-se no poder. Com o fim do comunismo, foi deposto num golpe de Estado chefiado por Mohamed Farah Aidid e Ali Mahdi Mohamed, chefes dos dois principais clãs da capital. Mas nenhum deles teve forças para assumir o poder total. Uma tentativa de intervenção internacional, patrocinada pela ONU e executada pelos marines americanos entre 1992 e 1994, fracassou retumbantemente. Com a retirada das tropas de paz, a guerra entre os clãs se disseminou.

A guerra é a única instituição que funciona na Somália. A estrutura social impede que o cidadão comum fique de fora de um clã e que um clã fique fora da guerra. A ONU calcula que nove em cada dez habitantes vivem ou viveram em áreas de confronto armado. Um quarto da população, cerca de 2,5 milhões de pessoas, já esteve na linha de frente de combates. Níveis sem precedentes de violência e destruição minaram os valores culturais, o poder e a religião, resumindo a vida a um código de conduta de guerra.

Apenas uma gama reduzida de serviços públicos é oferecida ao povo. O abastecimento de água e de eletricidade foi arruinado. Geradores à base de querosene operados por particulares fornecem energia, limitada a poucas horas e a um custo elevado, para alguns pontos das principais cidades. As provisões básicas, serviços médicos, educação e comida dependem da boa vontade das organizações de ajuda humanitária. O sistema educacional entrou em colapso. Existem poucas escolas primárias, raríssimas secundárias e nenhuma universidade. Esse quadro fez com que os poucos profissionais habilitados do país fossem procurar trabalho e um meio de vida digno no exílio. Duas gerações inteiras de jovens já deixaram de ir a escola, prejudicando o futuro de cada um e a estabilidade da região. Sem educação, a desmilitarização torna-se impossível. A única coisa que se ensina e se aprende é guerrear.

A dimensão do drama aumenta quando se constata que, com apenas 15% de adultos alfabetizados, o país não terá pessoas para ocupar as posições estratégicas de produção e liderança, mesmo que alcance a paz. O único incentivo à produção é a total ausência de impostos. No norte, microprodutores agrícolas prosperaram com a certeza de que não têm de dividir seus lucros com ninguém mais. O mesmo fenômeno aconteceu no setor de telecomunicações. Com aporte de capital estrangeiro, as velhas empresas foram modernizadas e realizaram um milagre: o telefone celular funciona. Mas é tudo. Estimativas da ONU apontam a Somália como o país mais pobre do mundo. A expectativa de vida é de 41 anos. Uma em cada quatro crianças não chega ao quinto ano de vida. A violência levou 20% da população a deixar o país. A Somália já desapareceu. Agora são os somalis que estão morrendo.

 
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