Estados Unidos
Bombas perdidas
Relatório americano diz que guerra
aérea
da Otan causou pouco dano às tropas sérvias
A idéia de que uma guerra pode ser vencida pelo
ar, por meio de ataques cirúrgicos desferidos de
até 6.000 metros de altitude
e sem riscos para os atacantes, pode entrar para os livros
de história como um conceito engenhoso, porém
inútil na vida real. Um relatório da Força
Aérea dos Estados Unidos, divulgado pela revista
americana Newsweek na semana passada, revelou que
boa parte das pontes, tanques e edifícios que a Organização
do Tratado do Atlântico Norte (Otan) dizia ter destruído
em 78 dias de bombardeio aéreo ininterrupto sobre
a Iugoslávia continua intacta. O general americano
Wesley Clark, o comandante supremo das tropas aliadas na
campanha de Kosovo no ano passado, não apenas parece
ter exagerado quanto aos resultados das incursões
aéreas de suas esquadrilhas. O devastador relatório
da Força Aérea duvida até mesmo que
todas as operações anunciadas por Clark tenham
ocorrido realmente. Dos 744 ataques supostamente realizados,
a comissão encontrou comprovação de
apenas 58.
A disparidade entre as duas listas de alvos atingidos
a da Otan, divulgada no final da guerra, e a da Força
Aérea, completada depois de uma inspeção
realizada por uma comissão de investigação
que vasculhou todo o território da Iugoslávia
durante várias semanas é desconcertante.
A lista de objetivos destruídos da primeira inclui
120 tanques, 220 carros blindados de transporte de tropas
e 450 peças de artilharia. A segunda enumera apenas
catorze tanques, dezoito carros blindados e vinte peças
de artilharia. O relatório transforma as milionárias
e superequipadas forças da Otan em motivo de chacota.
A criatividade dos sérvios, muitas vezes, ludibriou
os modernos equipamentos aliados encarregados de detectar
os alvos inimigos com artifícios primitivos, como
simulacros de pontes montados em polietileno e armamentos
de papel-alumínio. Sobre os alvos militares fajutos,
explodiram dezenas de mísseis Tomahawk de 750.000
dólares cada um, enquanto o armamento sérvio
de verdade permanecia incólume. A conclusão
é que, mesmo contando com armas e equipamento de
última geração, o piloto não
tem como saber, a uma altura de 6.000
metros, no que está atirando. Uma operação
aérea para ser eficaz tem de ser feita à moda
antiga, com vôo baixo e lento, arriscando a vida dos
militares.
Inflar façanhas bélicas é tão
antigo quanto a própria guerra. Durante a Guerra
do Vietnã, terminada há 25 anos, as estatísticas
oficiais sempre aumentavam as baixas inimigas e diminuíam
as americanas. Mas com a guerra tecnológica moderna,
em que os Estados Unidos pretendem derrotar o inimigo a
distância, sem expor os soldados a um perigoso confronto
direto, a tendência a maquiar o poder de destruição
dos exércitos tornou-se uma necessidade. O mundo
entrou na década de 90 de queixo caído com
as imagens de ficção científica da
Guerra do Golfo. O general Norman Schwarzkopf, comandante
das tropas que combatiam o Iraque, garantiu, na época,
que os ataques aéreos cirúrgicos dos aliados
haviam inutilizado o potencial bélico iraquiano.
Uma comissão das Nações Unidas constatou
mais tarde que o Iraque manteve praticamente intacto seu
arsenal de mísseis. Foram encontrados 133 mísseis
de vários tipos em território iraquiano. Também
os mísseis Patriot, que se tornaram famosos durante
a guerra pela suposta precisão e capacidade de destruição
dos foguetes inimigos em vôo, saíram da revisão
contábil com sua munição de propaganda
esvaziada. Um relatório das Forças Armadas
americanas revelou que os Patriots haviam derrubado dez,
e não 24 mísseis Scud, como anunciou o comando
aliado à época dos combates.
Diante da pressão da sociedade que admite ir à
guerra mas não aceita a baixa de seus soldados, os
generais americanos criaram o mito da guerra cirúrgica.
Em Kosovo, descobriu-se que, com a moderna tecnologia, não
é muito difícil acertar um alvo fixo das alturas.
Mas alvejar um tanque ou um caminhão em movimento
é quase impossível. Com isso, mudou-se o próprio
perfil da guerra. Os objetivos mais expostos ao fogo aéreo
são civis desguarnecidos. É nesse campo que
as guerras tecnológicas têm registrado mais
baixas. A comissão que investigou a guerra na Iugoslávia
encontrou dezenas de carros, caminhões e ônibus
civis destruídos muito mais do que veículos
militares. Num espaço de uma semana, a Otan explodiu
por engano a Embaixada da China em Belgrado e lançou
toneladas de bombas sobre o vilarejo de Korisa. No final,
os sérvios registraram cerca de 600 baixas militares
e 1.300 vítimas civis.
Para os vencedores, eliminar civis ou militares dá
na mesma. Apesar de manter suas forças militares
praticamente intactas, Milosevic aceitou a derrota e se
retirou de Kosovo. Pesou na decisão, sobretudo, o
estrago causado na infra-estrutura civil do país.
Esse, sim, bem intenso.
Saiba
mais |
|
|
|