Edição 1 649 -17/5/2000

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Estados Unidos

Bombas perdidas

Relatório americano diz que guerra aérea
da Otan causou pouco dano às tropas sérvias

A idéia de que uma guerra pode ser vencida pelo ar, por meio de ataques cirúrgicos desferidos de até 6.000 metros de altitude e sem riscos para os atacantes, pode entrar para os livros de história como um conceito engenhoso, porém inútil na vida real. Um relatório da Força Aérea dos Estados Unidos, divulgado pela revista americana Newsweek na semana passada, revelou que boa parte das pontes, tanques e edifícios que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) dizia ter destruído em 78 dias de bombardeio aéreo ininterrupto sobre a Iugoslávia continua intacta. O general americano Wesley Clark, o comandante supremo das tropas aliadas na campanha de Kosovo no ano passado, não apenas parece ter exagerado quanto aos resultados das incursões aéreas de suas esquadrilhas. O devastador relatório da Força Aérea duvida até mesmo que todas as operações anunciadas por Clark tenham ocorrido realmente. Dos 744 ataques supostamente realizados, a comissão encontrou comprovação de apenas 58.

A disparidade entre as duas listas de alvos atingidos – a da Otan, divulgada no final da guerra, e a da Força Aérea, completada depois de uma inspeção realizada por uma comissão de investigação que vasculhou todo o território da Iugoslávia durante várias semanas – é desconcertante. A lista de objetivos destruídos da primeira inclui 120 tanques, 220 carros blindados de transporte de tropas e 450 peças de artilharia. A segunda enumera apenas catorze tanques, dezoito carros blindados e vinte peças de artilharia. O relatório transforma as milionárias e superequipadas forças da Otan em motivo de chacota. A criatividade dos sérvios, muitas vezes, ludibriou os modernos equipamentos aliados encarregados de detectar os alvos inimigos com artifícios primitivos, como simulacros de pontes montados em polietileno e armamentos de papel-alumínio. Sobre os alvos militares fajutos, explodiram dezenas de mísseis Tomahawk de 750.000 dólares cada um, enquanto o armamento sérvio de verdade permanecia incólume. A conclusão é que, mesmo contando com armas e equipamento de última geração, o piloto não tem como saber, a uma altura de 6.000 metros, no que está atirando. Uma operação aérea para ser eficaz tem de ser feita à moda antiga, com vôo baixo e lento, arriscando a vida dos militares.

Inflar façanhas bélicas é tão antigo quanto a própria guerra. Durante a Guerra do Vietnã, terminada há 25 anos, as estatísticas oficiais sempre aumentavam as baixas inimigas e diminuíam as americanas. Mas com a guerra tecnológica moderna, em que os Estados Unidos pretendem derrotar o inimigo a distância, sem expor os soldados a um perigoso confronto direto, a tendência a maquiar o poder de destruição dos exércitos tornou-se uma necessidade. O mundo entrou na década de 90 de queixo caído com as imagens de ficção científica da Guerra do Golfo. O general Norman Schwarzkopf, comandante das tropas que combatiam o Iraque, garantiu, na época, que os ataques aéreos cirúrgicos dos aliados haviam inutilizado o potencial bélico iraquiano. Uma comissão das Nações Unidas constatou mais tarde que o Iraque manteve praticamente intacto seu arsenal de mísseis. Foram encontrados 133 mísseis de vários tipos em território iraquiano. Também os mísseis Patriot, que se tornaram famosos durante a guerra pela suposta precisão e capacidade de destruição dos foguetes inimigos em vôo, saíram da revisão contábil com sua munição de propaganda esvaziada. Um relatório das Forças Armadas americanas revelou que os Patriots haviam derrubado dez, e não 24 mísseis Scud, como anunciou o comando aliado à época dos combates.

Diante da pressão da sociedade que admite ir à guerra mas não aceita a baixa de seus soldados, os generais americanos criaram o mito da guerra cirúrgica. Em Kosovo, descobriu-se que, com a moderna tecnologia, não é muito difícil acertar um alvo fixo das alturas. Mas alvejar um tanque ou um caminhão em movimento é quase impossível. Com isso, mudou-se o próprio perfil da guerra. Os objetivos mais expostos ao fogo aéreo são civis desguarnecidos. É nesse campo que as guerras tecnológicas têm registrado mais baixas. A comissão que investigou a guerra na Iugoslávia encontrou dezenas de carros, caminhões e ônibus civis destruídos – muito mais do que veículos militares. Num espaço de uma semana, a Otan explodiu por engano a Embaixada da China em Belgrado e lançou toneladas de bombas sobre o vilarejo de Korisa. No final, os sérvios registraram cerca de 600 baixas militares e 1.300 vítimas civis. Para os vencedores, eliminar civis ou militares dá na mesma. Apesar de manter suas forças militares praticamente intactas, Milosevic aceitou a derrota e se retirou de Kosovo. Pesou na decisão, sobretudo, o estrago causado na infra-estrutura civil do país. Esse, sim, bem intenso.

 

 

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