Edição 1 649 -17/5/2000

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Democracia, pero no mucho

Presidentes que rasgam a Constituição
e ignoram os partidos dominam a
política em alguns países vizinhos

Ricardo Amorim

Um jeito novo de fazer política velha causa furor na América do Sul. De forma inusitada, alguns países realizam eleições com o objetivo de se tornar menos democráticos. A figura mais fulgurante da tendência é o presidente Hugo Chávez, da Venezuela, que descobriu na via eleitoral um excelente instrumento para amealhar poderes ditatoriais. Eleito com grande maioria no ano passado, ele reescreveu a Constituição para recolocar em disputa todos os cargos eletivos, inclusive o seu, neste 28 de maio. O objetivo de Chávez é açambarcar a maior quantidade possível de cargos eletivos e tornar-se senhor absoluto do Executivo, do Legislativo, do Judiciário e das Forças Armadas. Precisa fazer isso às pressas, antes que suas medidas populistas coloquem a economia venezuelana de joelhos e façam virar a maré da opinião pública. No mesmo dia em que Chávez consolida seu poder absoluto, o peruano Alberto Fujimori espera reeleger-se para um terceiro mandato. Presidente autoritário, que fechou o Congresso e costurou uma Constituição sob medida para se perpetuar no poder, ele é favorito num processo eleitoral eivado de irregularidades.

Os golpes de Estado estão desprestigiados no mundo globalizado. A estratégia agora é o golpe populista, referendado pelas multidões iradas. Numa bizarra erupção de democracia direta, estudantes, indígenas, nacionalistas, sindicalistas e militares depuseram um presidente no Equador e empossaram outro que, por sua vez, renunciou em benefício de um terceiro, Gustavo Noboa. Na Colômbia, um presidente eleito entregou porções enormes de território a dois movimentos guerrilheiros comunistas, sem receber em troca as negociações de paz que esperava. A Bolívia elegeu como presidente Hugo Banzer, um ex-ditador que não se sabe até quando permanecerá fiel à reencarnação como democrata. Chávez nada tem de dissimulado. Um tenente-coronel pára-quedista que tentou um sangrento golpe de Estado no início da década de 90, ele tornou-se uma versão tropical de Kadafi. Como o líder líbio, ele sustenta que a vontade da maioria está acima da lei e da ordem. A tradução é que um ditador legitimado pelas urnas pode fazer o que quiser. Não é bom negócio para o cidadão comum, cuja segurança e liberdade só podem ser asseguradas por um Estado regido pela lei.

Não é à toa que na Europa e nos Estados Unidos começam a emergir estudos e advertências sobre o novo descaminho da América Latina. Em Londres, o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos alertou para a emergência de líderes neopopulistas na América Latina. A secretária de Estado americana, Madeleine Albright, fez advertências parecidas numa conferência em Washington, há três semanas (até sugeriu indiretamente que o Brasil precisa ajudar a conter seus vizinhos mais furibundos). Como sempre, falar de América Latina é um exagero, pois reúne no mesmo saco gatos diferentes, das micronações do Caribe a gigantes como Brasil e Argentina. A infecção, por enquanto, está restrita aos países andinos. O que gerou a fórmula esdrúxula da "democracia, pero no mucho" é uma combinação de fatores próprios dos países dessa área, ainda que muitas mazelas sejam comuns nas vizinhanças.

Primeiro, a falência de uma estrutura política obsoleta, baseada na partilha do Estado entre partidos tradicionais e corruptos. Segundo, a permanência de uma ampla condição de miséria, exclusão social e a dificuldade de adaptação ao mundo globalizado. O Peru e o Equador têm a média de dezoito computadores por grupo de 1.000 habitantes (no Brasil, o número é quase o dobro). A economia venezuelana depende quase que exclusivamente do desempenho de suas torres de extração de petróleo. A Colômbia está sitiada entre a guerrilha, que domina 40% de seu território, e traficantes de drogas. "Quando as instituições tradicionais não funcionam, as massas ficam disponíveis para mobilizações de cunho populista", explica Francisco Panizza, professor de política latino-americana da London School of Economics. Assim, no lugar dos antigos ditadores fardados, surgiram líderes que criaram regimes que aliam formalidades democráticas a práticas autoritárias. É como um câncer que se espalha.

 
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