Reservas
A volta do cacique
E se a mão
que cumprimenta o índio Raoni fosse
a do presidente Fernando Henrique?
Ricardo Villela
Reuters
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Raoni e o presidente Chirac: no
exterior, fama continua em alta
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Há dois anos, o cacique Raoni, líder caiapó
mais conhecido pelo tamanho do beiço, foi ao Palácio
do Planalto pedir verbas para a Funai e não conseguiu
ser recebido por Fernando Henrique Cardoso. Esperou em vão
do lado de fora. Na terça-feira da semana passada,
Raoni conseguiu ser recebido pelo presidente, não
do Brasil, mas da França. O encontro com Jacques
Chirac foi o ponto culminante de um giro pela Europa que
começou no fim de abril e só deve terminar
na última semana de maio. Antes do encontro com o
presidente francês, Raoni visitou o Museu do Louvre
em Paris, bateu papo com a atriz italiana Claudia Cardinale
nos bastidores de um programa de televisão, ensinou
cultura indígena do Brasil para crianças de
uma escola francesa, passeou por uma floresta queimada no
interior do país e deu entrevista em caiapó
ao lado da ministra do Meio Ambiente do país. Da
França seguiu para a Bélgica no fim da semana
passada. Se as autoridades brasileiras dessem a Raoni a
mesma atenção conferida pelas entidades européias,
talvez isso melhorasse a vida dos índios. Se no aniversário
dos 500 anos do Descobrimento FHC tivesse posado ao lado
de Raoni para uma foto como a que aparece no alto desta
página, em vez de ter se deslocado para a desastrada
cerimônia em Porto Seguro, isso teria poupado o governo
do vexame que sofreu na Bahia e ainda poderia render alguns
pontos no ibope da popularidade presidencial.
A andança de Raoni tem um objetivo definido. Arrecadar
3 milhões de dólares para custear a fundação
de um instituto com seu nome em defesa da Floresta Amazônica.
Segundo os planos do cacique, a sede do instituto será
uma aldeia high tech no interior da reserva indígena
do Xingu, na divisa do Pará com Mato Grosso. O complexo
comportará hospital, centro cultural, laboratórios,
alojamentos para visitantes e até um centro de informática
dotado de computadores conectados à internet para
divulgar a causa indígena pelo mundo. Se tudo der
certo (em outras palavras, se os europeus soltarem dinheiro
suficiente), as obras começam no fim do ano e ficam
prontas em 2004. O discurso usado por Raoni para convencer
os europeus a financiar o projeto é o seguinte: "Nossa
reserva está ameaçada por invasões
de pessoas procurando por ouro e madeira e não temos
os recursos para proteger a floresta que nós preservamos
para todo o mundo", conforme afirmou numa entrevista à
imprensa.
A estratégia já funcionou uma vez. Em 1989,
Raoni conheceu o roqueiro inglês Sting durante a excursão
do cantor ao Brasil. Foi amizade à primeira vista.
Por vários meses, os dois viajaram mundo afora visitando
chefes de Estado. Até pelo papa João Paulo
II foram recebidos. Ao final, conseguiram reunir 1,5 milhão
de dólares em doações, dinheiro utilizado
na demarcação da reserva do Xingu. Depois
disso, os dois se separaram e o cacique sumiu por uns tempos.
Agora, aos 75 anos de idade, olha quem está aí
de volta.
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