Edição 1 649 -17/5/2000

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Reservas

A volta do cacique

E se a mão que cumprimenta o índio Raoni fosse
a do presidente Fernando Henrique?

Ricardo Villela

Reuters

Raoni e o presidente Chirac: no exterior, fama continua em alta


Há dois anos, o cacique Raoni, líder caiapó mais conhecido pelo tamanho do beiço, foi ao Palácio do Planalto pedir verbas para a Funai e não conseguiu ser recebido por Fernando Henrique Cardoso. Esperou em vão do lado de fora. Na terça-feira da semana passada, Raoni conseguiu ser recebido pelo presidente, não do Brasil, mas da França. O encontro com Jacques Chirac foi o ponto culminante de um giro pela Europa que começou no fim de abril e só deve terminar na última semana de maio. Antes do encontro com o presidente francês, Raoni visitou o Museu do Louvre em Paris, bateu papo com a atriz italiana Claudia Cardinale nos bastidores de um programa de televisão, ensinou cultura indígena do Brasil para crianças de uma escola francesa, passeou por uma floresta queimada no interior do país e deu entrevista em caiapó ao lado da ministra do Meio Ambiente do país. Da França seguiu para a Bélgica no fim da semana passada. Se as autoridades brasileiras dessem a Raoni a mesma atenção conferida pelas entidades européias, talvez isso melhorasse a vida dos índios. Se no aniversário dos 500 anos do Descobrimento FHC tivesse posado ao lado de Raoni para uma foto como a que aparece no alto desta página, em vez de ter se deslocado para a desastrada cerimônia em Porto Seguro, isso teria poupado o governo do vexame que sofreu na Bahia e ainda poderia render alguns pontos no ibope da popularidade presidencial.

A andança de Raoni tem um objetivo definido. Arrecadar 3 milhões de dólares para custear a fundação de um instituto com seu nome em defesa da Floresta Amazônica. Segundo os planos do cacique, a sede do instituto será uma aldeia high tech no interior da reserva indígena do Xingu, na divisa do Pará com Mato Grosso. O complexo comportará hospital, centro cultural, laboratórios, alojamentos para visitantes e até um centro de informática dotado de computadores conectados à internet para divulgar a causa indígena pelo mundo. Se tudo der certo (em outras palavras, se os europeus soltarem dinheiro suficiente), as obras começam no fim do ano e ficam prontas em 2004. O discurso usado por Raoni para convencer os europeus a financiar o projeto é o seguinte: "Nossa reserva está ameaçada por invasões de pessoas procurando por ouro e madeira e não temos os recursos para proteger a floresta que nós preservamos para todo o mundo", conforme afirmou numa entrevista à imprensa.

A estratégia já funcionou uma vez. Em 1989, Raoni conheceu o roqueiro inglês Sting durante a excursão do cantor ao Brasil. Foi amizade à primeira vista. Por vários meses, os dois viajaram mundo afora visitando chefes de Estado. Até pelo papa João Paulo II foram recebidos. Ao final, conseguiram reunir 1,5 milhão de dólares em doações, dinheiro utilizado na demarcação da reserva do Xingu. Depois disso, os dois se separaram e o cacique sumiu por uns tempos. Agora, aos 75 anos de idade, olha quem está aí de volta.

 
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  Raoni.com