Reforma agrária
Suspiro no campo
Governo anuncia pacote agrícola
de 8 bilhões
de reais como forma de inibir os ataques do MST
Alexandre Secco
O governo destina anualmente algo como 11 bilhões
de reais ao grande agricultor, aquele que garante uma produção
de quase 65 bilhões de reais ao ano equivalente
a 80% do PIB agrícola. Na semana passada, o Palácio
do Planalto anunciou um pacote de 8 bilhões de reais
para o financiamento da agricultura familiar e para reforçar
o caixa da reforma agrária. Como a agricultura familiar
não produz resultados econômicos expressivos,
o valor alocado pode ser considerado fabuloso. A decisão
de conceder tanto dinheiro a um setor modesto da economia
tem por trás uma motivação política,
ligada à pressão exercida pelos militantes
do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), que invadiram
prédios públicos em diversas capitais nos
últimos dias. Apesar de o pacote ter sido motivado
pelo MST, o Planalto manteve distância do movimento.
Para participar da solenidade de lançamento do plano,
o governo preferiu chamar representantes de outro movimento
que luta pela reforma agrária, a Confederação
Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). Diferente
da entidade de João Pedro Stedile, a Contag é
conhecida por fazer um sindicalismo conciliatório.
Até pouco tempo atrás, a confederação
foi dirigida por um tucano.
Para o MST, o pacote é inócuo. Seus dirigentes
querem não 8 bilhões de reais para a reforma
agrária e a agricultura familiar, mas sim 15 bilhões
de reais, quase o dobro do que será concedido. Como
o governo investe anualmente algo como 5,5 bilhões
de reais nessa área, o novo pacote representa um
reforço considerável: 45% a mais. O dinheiro
vai estar concentrado na pasta do Desenvolvimento Agrário.
Com esse volume de recursos, Raul Jungmann se transforma
num ministro mais forte. Jungmann é responsável
pela aplicação de uma fatia significativa
dos gastos sociais do governo Fernando Henrique Cardoso.
Durante a solenidade de lançamento do pacote, além
da Contag, estava presente outra entidade que sempre apoiou
o MST. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) levou
até o Planalto alguns dirigentes e o presidente da
entidade, Vicente Paulo da Silva. Do lado de fora, 6.500
manifestantes da Contag pediam dinheiro para a pequena agricultura.
Quando o presidente Fernando Henrique anunciou as medidas
aos presentes, houve aplausos. "A gente não esperava
tanto", disse Manoel José dos Santos, presidente
da Contag. Como Brasília lançou o pacote às
pressas com o objetivo de acalmar o clima de tensão,
há muitos detalhes que precisam ser resolvidos pela
equipe econômica. O principal é de onde vai
sair o dinheiro, já que os recursos não estão
previstos no Orçamento. A única saída
é cortar verbas de outros investimentos.
Dida Sampaio/AE
 |
|
Manifestação da Contag,
em Brasília: discurso favorável e aplausos
para o governo
|
O pacote agrícola serve a dois propósitos.
Um deles é justamente isolar o MST ao privilegiar
um movimento moderado como a Contag. O outro é tentar
modificar a dura realidade do pequeno proprietário
rural. As pequenas propriedades do campo não produzem
o bastante para sustentar as famílias que nelas vivem
porque falta dinheiro para a compra de fertilizantes, equipamentos
e até sementes. Boa parte dos agricultores tampouco
tem a formação adequada para assimilar novas
tecnologias, que aumentam a produtividade, e cometem erros
básicos no manejo do solo. Por causa disso, de acordo
com estudos especializados, 1 milhão de minifúndios
foram abandonados na década passada. Nas propriedades
onde se consegue obter algum lucro, o resultado mensal dificilmente
ultrapassa os 60 reais por mês. Dessa forma qualquer
trabalho na cidade é mais atraente. No Nordeste,
a situação é especialmente dramática.
Lá vivem 17 milhões de pessoas em pequenas
propriedades, quase a metade da população
rural do Brasil. Não há dúvida de que
a imensa maioria precisa de assistência. "Se nada
for feito, mais de 10 milhões de pessoas podem deixar
o campo e se mudar para as cidades", diz o professor Eliseu
Alves, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(Embrapa), órgão do governo. "Isso será
uma bomba populacional."
Revolução Por incrível
que pareça, a chegada desse dinheiro ao campo pode
produzir um efeito colateral indesejado. Todos os estudos
sérios feitos sobre os investimentos na agricultura
mostram que, quanto mais se investe, menos se necessita
de mão-de-obra. O resultado é que, para desespero
do governo, investir no campo pode aumentar a legião
dos sem-terra, engordando os acampamentos do MST. Isso acontece
porque a agricultura está passando por uma segunda
revolução. A primeira foi a das máquinas.
Os tratores passaram a fazer o trabalho do homem e liberaram
mão-de-obra. Agora está em curso a revolução
da produtividade, impulsionada pelo barateamento dos defensivos
e fertilizantes. O Brasil dobrou o uso de adubos por metro
quadrado, e a produtividade da terra aumentou significativamente
na última década. Quando se produz mais, o
preço do grão cai. Quem não acompanha
os novos padrões tem prejuízo se vender a
mercadoria e não tem meios de manter-se no negócio.
Famílias inteiras de produtores rurais acabam desempregadas.
Além do pacote agrícola, o governo encenou
outros movimentos com o objetivo de acalmar os ânimos
no campo. Numa entrevista à imprensa, o secretário
geral da presidência, Aloysio Nunes Ferreira, informou
que o presidente estava pronto a conversar com o MST. O
mesmo recado foi repassado pelo presidente da CUT, Vicentinho.
No começo da semana o ministro da Justiça,
José Gregori, mandou rever o enquadramento de dois
militantes do MST na Lei de Segurança Nacional. Os
manifestantes foram enquadrados no Código Penal,
no crime que trata do atentado contra serviços essenciais.
Raul Jungmann também admitiu discutir o teor da medida
provisória que tira da lista de desapropriações
por um prazo de dois anos a fazenda que venha a ser invadida.
Além disso, Jungmann manteve uma série de
contatos telefônicos com líderes do PT na Câmara
dos Deputados a fim, segundo ele, de tentar fazer uma ponte
para viabilizar uma reaproximação do governo
com o MST. Do lado do PT, há certa resistência.
"A reação do governo foi despropositada e
ainda precisamos avaliar melhor o que aconteceu para definir
o que fazer", disse Aloizio Mercadante, líder do
partido.
De seu lado, o MST se recolheu aos acampamentos. Na semana
passada, os sem-terra deixaram o último prédio
que restava invadido, o do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) no Rio de Janeiro. Um dos
líderes do movimento, Jaime Amorim, disse que o MST
está disposto a aceitar o nome de Amaury Bier, secretário
executivo do Ministério da Fazenda, como representante
da equipe econômica na mesa de negociações.
No governo, ninguém acredita que o movimento esteja
mudando o método de atuação. É
apenas um recuo tático.
"Ele não pode aparecer na TV"
Oscar Cabral |
| Stedile: tirado do ar em oito
Estados |
A palavra censura reapareceu no noticiário
político e o responsável por sua ressurreição
trabalha no Palácio do Planalto. Ele se chama
Andrea Matarazzo e responde pela Secretaria de Comunicação
da Presidência da República. No dia 5
de maio, Matarazzo decidiu censurar um programa de
televisão chamado Opinião Brasil,
porque ele daria espaço a um inimigo do governo,
o líder do Movimento dos Sem-Terra, João
Pedro Stedile. O programa vai ao ar nas noites de
sexta-feira e é produzido em parceria por duas
emissoras estatais: a Rede Cultura, propriedade do
governo de São Paulo, e a Rede Educativa, do
governo federal. Jornalistas das duas estatais fazem
as perguntas e dividem a responsabilidade da retransmissão
do sinal para o resto do país. A Cultura envia
o sinal para quinze Estados e a Educativa, para oito.
Raul Junior |
| Andrea Matarazzo: censura
à difusão de idéias |
Pouco antes de o programa ir ao ar, Matarazzo ligou
para o presidente da Fundação Padre
Anchieta, que administra a Cultura, Jorge da Cunha
Lima. "Um sujeito que incita o quebra-quebra de pedágios
e que foi indiciado pela Polícia Federal não
pode aparecer numa TV educativa", argumentou, ao pedir
que a entrevista não fosse exibida. Cunha Lima
não cedeu. Matarazzo também entrou em
contato com a TVE, onde não pediu nada, ordenou.
Resultado: a entrevista com Stedile não foi
vista em oito Estados brasileiros.
Nas democracias, leva-se a sério a livre
expressão das idéias. Radicais de direita
ou de esquerda manifestam-se abertamente nos Estados
Unidos e na Europa. Entende-se que isso não
enfraquece, antes fortalece, as instituições
democráticas. Matarazzo, portanto, errou ao
cercear as palavras do radical João Pedro Stedile.
Coisa muito diferente é estender essa tolerância
democrática a atos criminosos, como os que
são praticados pelos sem-terra quando invadem
prédios públicos e tomam funcionários
como reféns. A mesma democracia que garante
o direito de expressão precisa preservar o
direito constitucional das pessoas à integridade
física e patrimonial, ameaçado sempre
que os sem-terra tomam um prédio de assalto.
A repercussão da atitude de Matarazzo foi
péssima para o governo e excelente para o MST.
O programa tem índices de audiência irrisórios
e a entrevista que seria vista por um grupo diminuto
de pessoas se transformou num debate sobre a liberdade
de expressão. Como de costume, o Planalto tratou
de informar que a atitude de Matarazzo era isolada
e que o presidente não tinha nada a ver com
aquilo. Também, como de hábito, nada
aconteceu com o secretário.
|