Edição 1 649 -17/5/2000

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Salário

O mínimo custou muito caro

Depois de vencer a votação do salário
à base de ameaças, o Planalto tenta
diminuir a tensão entre os aliados

Sandra Brasil

José Paulo Lacerda/AE
ACM, ao lado do deputado Aloizio Mercadante: triste com o PFL


O placar folgado com que o governo venceu a batalha na votação do novo salário mínimo no Congresso não traduz as dificuldades que o Planalto terá pela frente para reconstruir a base aliada e recuperar a imagem do presidente com a opinião pública. O governo defendia a posição impopular traduzida no mínimo de 151 reais. Para vencer, precisava obter 279 votos. Conseguiu 346 a favor – 67 a mais que o necessário – e 204 contra. Sob a óptica da contabilidade da União, o resultado não poderia ter sido melhor. Um salário mínimo de 177 reais, como queria a oposição, obrigaria o governo a rever todas as metas econômicas para este ano. Apenas com a Previdência, o buraco adicional seria de 6 bilhões de reais somente em 2000. Pelo menos até o próximo ano, quando o valor do mínimo voltará a ser debatido, o governo poderá respirar aliviado. Não existe nenhuma outra votação em pauta que possa colocar o Orçamento da União em risco daqui para a frente.


Na assessoria do presidente Fernando Henrique Cardoso, a compreensão é de que a votação pode representar o ponto de virada da popularidade do governo. A partir de agora, após uma seqüência de más notícias (o fiasco da festa dos 500 anos, a baderna do MST e a votação do mínimo), o índice de aprovação de FHC tende a desenhar uma curva ascendente. É no que acredita a turma que abastece o Palácio do Planalto de pesquisas. Historicamente, a popularidade de FHC atinge seu pior momento quando se discute o mínimo, em maio. O motivo é que o valor aprovado é sempre mais baixo do que a sociedade deseja, desencadeando uma sensação de frustração. Em junho, a cesta básica começa a cair e a popularidade de Fernando Henrique se recupera. Essa tendência se mantém até dezembro, quando atinge sua melhor fase. Os bruxos do Planalto esperam que essa curva se repita neste ano, reforçada mais ainda pela expectativa de que o produto interno bruto tenha uma expansão da ordem de 4%.

O trabalho vai ser complicado na reconstrução da base de sustentação política do governo. O humor entre os parlamentares governistas nunca foi tão ruim. Um sinal disso veio com toda a clareza quando o painel proclamou o resultado da votação do mínimo na semana passada. Ninguém comemorou a vitória, como costuma acontecer depois de operações difíceis como essa. Foi o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso quem jogou a pressão ao limite máximo. Em um discurso na 1ª Conferência Nacional da Indústria da Construção em São Paulo, na segunda-feira, FHC ameaçou publicamente os parlamentares que pretendiam votar por um salário mínimo superior aos 151 reais defendidos pelo Planalto. "Quem estiver votando contra, está contra mim e fora do governo", disse. Para vencer a disputa, o governo avisou que demitiria os ocupantes de cargos de confiança ligados aos parlamentares governistas que votassem contra o mínimo oficial. Para os fiéis, o governo prometeu agilizar a liberação de recursos orçamentários resultantes de emendas de políticos.

ACM não gostou da declaração de FHC. "Eu acho que é muito pior parlamentar roubando do que a pessoa votar por uma questão de consciência em um salário mais alto", disse ACM, numa alusão ao senador Jader Barbalho, do PMDB, que também integra a base de apoio do governo, seu maior inimigo no momento. Por causa da frase dura do presidente, ACM chegou a combinar a demissão do ministro da Previdência, Waldeck Ornélas, seu afilhado político. A cúpula do PFL interferiu para evitar o pior. Às vésperas da votação, FHC cedeu e convidou ACM para uma reunião na qual lhe fez elogios em público. "Nas decisões difíceis o senador nunca faltou", disse.

Dentro do PFL, partido que costuma comportar-se como um monolito até nas questões mais difíceis, houve brigas sérias, inclusive uma discussão pesada entre ACM e Jorge Bornhausen, presidente da sigla. Bornhausen está convencido de que ACM firmou posição pelo salário de 177 reais para apresentar-se como um político diferente dos demais integrantes de seu partido. Entende Bornhausen que ACM está mais preocupado com sua imagem individual do que com a do PFL. Numa discussão que tiveram diante de testemunhas, o presidente do Senado queixou-se das notícias publicadas na imprensa sobre seu isolamento no partido. "Não faço jogo individual", afirmou Bornhausen. "Faz sim, faz sim", respondeu ACM, com o dedo em riste e um tom de voz alterado.

Na trincheira oposta, irritados com o afago que o presidente Fernando Henrique fez a ACM, Jader Barbalho e Geddel Vieira Lima, um dos líderes do PMDB na Câmara, boicotaram o café da manhã oferecido por FHC no Palácio da Alvorada aos líderes da base governista e aos integrantes da área econômica. Nesse mesmo dia chegou ao Congresso a notícia de pesadas acusações que Jader Barbalho havia feito contra ACM na noite anterior, durante um jantar com parlamentares do PMDB. Jader chamou ACM de "batedor de carteiras". Depois de aprovado o mínimo de 151 reais, o presidente deu um recado geral a todos os governistas: "O governo precisa de menos politiquice, menos briga e mais ação concreta", afirmou. "Daqui para a frente não quero mais discutir questões pessoais." Dificilmente conseguirá concretizar essa que é a mãe de todas as reformas.

A batalha das cartas

Ana Araujo
Jader: "Vou lutar até a morte contra ACM"


Houve um tempo em que os presidentes da República se viam às voltas com cartas do Fundo Monetário Internacional e despachavam sobre o assunto com o Ministério da Fazenda. É diferente com Fernando Henrique Cardoso, que precisa administrar as cartas dos senadores Antonio Carlos Magalhães, do PFL, e Jader Barbalho, do PMDB, e tratar do assunto com a Advocacia Geral da União.

Há duas semanas, ACM escreveu uma carta ao presidente listando denúncias de corrupção contra Barbalho. Na quarta-feira, Barbalho revidou e também preparou uma carta ao Planalto, contendo as suas denúncias contra o presidente do Senado. Como os dois políticos são peças importantes na base de sustentação do governo, Fernando Henrique trata do tema com cuidado redobrado.

Em sua carta, Jader avisou ao presidente que daqui para a frente "lutaria até a morte" contra o senador ACM. Diante da ameaça, o senador baiano foi lacônico: "Se ele (Jader) disse isso, deve ser para forçar que eu vá ao enterro dele". Resta esperar de onde virá a próxima pedrada nessa luta de gente grande.

 

 
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