Salário
O mínimo custou muito caro
Depois de vencer a votação
do salário
à base de ameaças, o Planalto tenta
diminuir a tensão entre os aliados
Sandra Brasil
José Paulo Lacerda/AE
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| ACM, ao lado do deputado Aloizio
Mercadante: triste com o PFL |
O placar folgado com que o governo venceu a batalha na votação
do novo salário mínimo no Congresso não
traduz as dificuldades que o Planalto terá pela frente
para reconstruir a base aliada e recuperar a imagem do presidente
com a opinião pública. O governo defendia
a posição impopular traduzida no mínimo
de 151 reais. Para vencer, precisava obter 279 votos. Conseguiu
346 a favor 67 a mais que o necessário
e 204 contra. Sob a óptica da contabilidade da União,
o resultado não poderia ter sido melhor. Um salário
mínimo de 177 reais, como queria a oposição,
obrigaria o governo a rever todas as metas econômicas
para este ano. Apenas com a Previdência, o buraco
adicional seria de 6 bilhões de reais somente em
2000. Pelo menos até o próximo ano, quando
o valor do mínimo voltará a ser debatido,
o governo poderá respirar aliviado. Não existe
nenhuma outra votação em pauta que possa colocar
o Orçamento da União em risco daqui para a
frente.
Na
assessoria do presidente Fernando Henrique Cardoso, a compreensão
é de que a votação pode representar
o ponto de virada da popularidade do governo. A partir de
agora, após uma seqüência de más
notícias (o fiasco da festa dos 500 anos, a baderna
do MST e a votação do mínimo), o índice
de aprovação de FHC tende a desenhar uma curva
ascendente. É no que acredita a turma que abastece
o Palácio do Planalto de pesquisas. Historicamente,
a popularidade de FHC atinge seu pior momento quando se
discute o mínimo, em maio. O motivo é que
o valor aprovado é sempre mais baixo do que a sociedade
deseja, desencadeando uma sensação de frustração.
Em junho, a cesta básica começa a cair e a
popularidade de Fernando Henrique se recupera. Essa tendência
se mantém até dezembro, quando atinge sua
melhor fase. Os bruxos do Planalto esperam que essa curva
se repita neste ano, reforçada mais ainda pela expectativa
de que o produto interno bruto tenha uma expansão
da ordem de 4%.
O trabalho vai ser complicado na reconstrução
da base de sustentação política do
governo. O humor entre os parlamentares governistas nunca
foi tão ruim. Um sinal disso veio com toda a clareza
quando o painel proclamou o resultado da votação
do mínimo na semana passada. Ninguém comemorou
a vitória, como costuma acontecer depois de operações
difíceis como essa. Foi o próprio presidente
Fernando Henrique Cardoso quem jogou a pressão ao
limite máximo. Em um discurso na 1ª Conferência
Nacional da Indústria da Construção
em São Paulo, na segunda-feira, FHC ameaçou
publicamente os parlamentares que pretendiam votar por um
salário mínimo superior aos 151 reais defendidos
pelo Planalto. "Quem estiver votando contra, está
contra mim e fora do governo", disse. Para vencer a disputa,
o governo avisou que demitiria os ocupantes de cargos de
confiança ligados aos parlamentares governistas que
votassem contra o mínimo oficial. Para os fiéis,
o governo prometeu agilizar a liberação de
recursos orçamentários resultantes de emendas
de políticos.
ACM não gostou da declaração de FHC.
"Eu acho que é muito pior parlamentar roubando do
que a pessoa votar por uma questão de consciência
em um salário mais alto", disse ACM, numa alusão
ao senador Jader Barbalho, do PMDB, que também integra
a base de apoio do governo, seu maior inimigo no momento.
Por causa da frase dura do presidente, ACM chegou a combinar
a demissão do ministro da Previdência, Waldeck
Ornélas, seu afilhado político. A cúpula
do PFL interferiu para evitar o pior. Às vésperas
da votação, FHC cedeu e convidou ACM para
uma reunião na qual lhe fez elogios em público.
"Nas decisões difíceis o senador nunca faltou",
disse.
Dentro do PFL, partido que costuma comportar-se como um
monolito até nas questões mais difíceis,
houve brigas sérias, inclusive uma discussão
pesada entre ACM e Jorge Bornhausen, presidente da sigla.
Bornhausen está convencido de que ACM firmou posição
pelo salário de 177 reais para apresentar-se como
um político diferente dos demais integrantes de seu
partido. Entende Bornhausen que ACM está mais preocupado
com sua imagem individual do que com a do PFL. Numa discussão
que tiveram diante de testemunhas, o presidente do Senado
queixou-se das notícias publicadas na imprensa sobre
seu isolamento no partido. "Não faço jogo
individual", afirmou Bornhausen. "Faz sim, faz sim", respondeu
ACM, com o dedo em riste e um tom de voz alterado.
Na trincheira oposta, irritados com o afago que o presidente
Fernando Henrique fez a ACM, Jader Barbalho e Geddel Vieira
Lima, um dos líderes do PMDB na Câmara, boicotaram
o café da manhã oferecido por FHC no Palácio
da Alvorada aos líderes da base governista e aos
integrantes da área econômica. Nesse mesmo
dia chegou ao Congresso a notícia de pesadas acusações
que Jader Barbalho havia feito contra ACM na noite anterior,
durante um jantar com parlamentares do PMDB. Jader chamou
ACM de "batedor de carteiras". Depois de aprovado o mínimo
de 151 reais, o presidente deu um recado geral a todos os
governistas: "O governo precisa de menos politiquice, menos
briga e mais ação concreta", afirmou. "Daqui
para a frente não quero mais discutir questões
pessoais." Dificilmente conseguirá concretizar essa
que é a mãe de todas as reformas.
A batalha das cartas
Ana Araujo
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| Jader: "Vou lutar até
a morte contra ACM" |
Houve um tempo em que os presidentes da República
se viam às voltas com cartas do Fundo Monetário
Internacional e despachavam sobre o assunto com o
Ministério da Fazenda. É diferente com
Fernando Henrique Cardoso, que precisa administrar
as cartas dos senadores Antonio Carlos Magalhães,
do PFL, e Jader Barbalho, do PMDB, e tratar do assunto
com a Advocacia Geral da União.
Há duas semanas, ACM escreveu uma carta ao
presidente listando denúncias de corrupção
contra Barbalho. Na quarta-feira, Barbalho revidou
e também preparou uma carta ao Planalto, contendo
as suas denúncias contra o presidente do Senado.
Como os dois políticos são peças
importantes na base de sustentação do
governo, Fernando Henrique trata do tema com cuidado
redobrado.
Em sua carta, Jader avisou ao presidente que daqui
para a frente "lutaria até a morte" contra
o senador ACM. Diante da ameaça, o senador
baiano foi lacônico: "Se ele (Jader)
disse isso, deve ser para forçar que eu vá
ao enterro dele". Resta esperar de onde virá
a próxima pedrada nessa luta de gente grande.
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