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Roberto
Pompeu de Toledo
A
voz dos escritores
Amós
Oz, Edward
Said,
Saramago:
que eles têm
falado e
o que têm
calado
sobre a
guerra no Oriente
Médio
Amós
Oz e Edward Said são os, digamos, escritores oficiais de Israel
e da Palestina. Pense-se num escritor israelense, e virá à
mente Amós Oz. Pense-se num palestino, e Said será o nome.
Os dois têm escrito artigos, publicados inclusive no Brasil, sobre
o conflito entre seus povos. Num artigo recente (Folha de S.Paulo,
4/4/2002), Amós Oz afirma que duas guerras são travadas
contra Israel como se fossem uma. A primeira é a dos palestinos
para "libertar-se da ocupação e por seu direito a um Estado".
A outra é a do Islã fanático para "destruir Israel".
A primeira é justa, a segunda injusta. Ocorre que igualmente contra
os palestinos são travadas duas guerras. Uma, justa, é promovida
por Israel em favor de seu direito à existência. Outra, injusta,
é para destruir a possibilidade de os palestinos sobreviverem como
sociedade organizada. Entre os dois níveis em que, de um lado e
de outro, se desenvolve a luta, a simetria não podia ser mais perfeita.
Um artigo recente de Edward Said (Folha de S.Paulo, 7/4/2002) começa
com a discutível intenção de não querer que
seja chamado de "terrorismo" o que não pode ser outra coisa
a ação dos homens-bomba. Adiante, faz duas observações
que ficam a ressoar na mente. A primeira, singela mas forte como a luz
do sol, é: "Os palestinos não vão desaparecer". A
segunda centra na figura de Ariel Sharon. Said parte da premissa de que
"o legado de um líder consiste em deixar para seus sucessores algo
que sirva de alicerce sobre o qual as gerações futuras possam
construir coisas novas", para concluir que o que Sharon deixará
para trás serão "lápides de túmulos".
Oz e Said têm muito em comum. São da mesma geração
(Said nasceu em 1935, Oz em 1939), possuem ambos posições
políticas moderadas, são respeitados e conhecidos mundo
afora. Tinham tudo para se dar bem, mas... Será que já se
encontraram? Talvez não. E se se encontrassem, que teriam a dizer-se?
Talvez nada. Eis uma das tragédias do conflito israelo-palestino.
José
Saramago e Wole Soyinka compartilham o fato de terem sido ambos agraciados
com o Nobel de Literatura, Saramago em 1998, o nigeriano Soyinka em 1986.
Os dois fizeram parte de um grupo de escritores que esteve em Ramallah,
examinando as condições locais e entrevistando-se com Yasser
Arafat. Soyinka escreveu (O Estado de S. Paulo, 9/4/2002) que sente
arrepios quando escuta os árabes chamarem de mártires os
terroristas suicidas. Mas, por outro lado, conta que ouviu relatos em
que "tanques arrombam e atravessam paredes à noite, despejando
escombros sobre membros da família adormecidos" e, diante
disso, concluiu ser impossível "continuar visceralmente desengajado
ou não se sentir moralmente agredido". Eis o escritor em sua nobre
dimensão de servir para os leitores, para seu próprio
povo e para o mundo em geral de reservatório de consciência.
Saramago comparou o que viu na Cisjordânia a Auschwitz. Cometeu
não só um exagero, mas também o pecado de se ter
rebaixado ele tão digno e tão bom escritor
à vulgaridade dos paralelos demagógicos. Em bom português
do Brasil, "apelou". O.k., Hitler é alguém que habita esfera
única na escala da degradação humana. Mas outras
comparações são cabíveis. Milosevic, por exemplo.
Ou Pinochet. Milosevic está sendo julgado por um tribunal internacional.
Pinochet foi denunciado na Espanha e preso na Inglaterra. São dois
casos que introduziram a moda de julgar chefes de Estado em outros países
que não os seus. Ariel Sharon seria candidatíssimo a igual
destino, se não contasse com a sorte de ter as costas cobertas
e como pelo aliado americano.
Elie
Wiesel e Shimon Peres têm em comum serem também da mesma
geração (Wiesel de 1928, Peres de 1923), terem recebido
ambos o Nobel da Paz e ostentarem a condição de homens simbólicos
o primeiro do povo judeu em geral, o segundo do Estado de Israel.
Wiesel, sobrevivente do holocausto, tema que permeia vários de
seus livros, e prêmio Nobel da Paz em 1986, insistiu, em entrevista
ao correspondente da Folha de S.Paulo em Nova York, Sérgio
Dávila (Folha de S.Paulo, 7/4/2002), em denunciar os homens-bomba.
Muito justo. Mas mostrou-se reticente, constrangedoramente reticente,
num homem de sua estatura moral, e de vivência tão sofrida,
quanto à brutalidade de Sharon.
O caso de Peres, em questão de constrangimento, é mais dramático.
Como compreender que alguém como ele, formado na melhor escola
de estadistas de seu país, e iniciado na política pelo próprio
patriarca de Israel, Ben-Gurion, integre o gabinete de Ariel Sharon? E
no entanto ele é o atual ministro das Relações Exteriores.
Peres, prêmio Nobel da Paz em 1994, com Yitzhak Rabin e Yasser Arafat
(Arafat Nobel da Paz!), expõe-se, às vésperas da
consagradora idade dos 80 anos, a um lamentável risco de dissipação
da biografia. Costuma-se pensar nele como político, mas é
também escritor. Um de seus livros, From these Men, de 1979,
começa com uma citação de Ben-Gurion: "A sorte de
Israel depende de sua força e sua justiça". Boa frase. Nestes
dias, adquire significado mais denso do que jamais.
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