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Edição 1 747 - 17 de abril de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

A voz dos escritores

Amós Oz, Edward Said, Saramago:
que eles
têm falado e o que têm
calado sobre a guerra no Oriente Médio

Amós Oz e Edward Said são os, digamos, escritores oficiais de Israel e da Palestina. Pense-se num escritor israelense, e virá à mente Amós Oz. Pense-se num palestino, e Said será o nome. Os dois têm escrito artigos, publicados inclusive no Brasil, sobre o conflito entre seus povos. Num artigo recente (Folha de S.Paulo, 4/4/2002), Amós Oz afirma que duas guerras são travadas contra Israel como se fossem uma. A primeira é a dos palestinos para "libertar-se da ocupação e por seu direito a um Estado". A outra é a do Islã fanático para "destruir Israel". A primeira é justa, a segunda injusta. Ocorre que igualmente contra os palestinos são travadas duas guerras. Uma, justa, é promovida por Israel em favor de seu direito à existência. Outra, injusta, é para destruir a possibilidade de os palestinos sobreviverem como sociedade organizada. Entre os dois níveis em que, de um lado e de outro, se desenvolve a luta, a simetria não podia ser mais perfeita.

Um artigo recente de Edward Said (Folha de S.Paulo, 7/4/2002) começa com a discutível intenção de não querer que seja chamado de "terrorismo" o que não pode ser outra coisa – a ação dos homens-bomba. Adiante, faz duas observações que ficam a ressoar na mente. A primeira, singela mas forte como a luz do sol, é: "Os palestinos não vão desaparecer". A segunda centra na figura de Ariel Sharon. Said parte da premissa de que "o legado de um líder consiste em deixar para seus sucessores algo que sirva de alicerce sobre o qual as gerações futuras possam construir coisas novas", para concluir que o que Sharon deixará para trás serão "lápides de túmulos".

Oz e Said têm muito em comum. São da mesma geração (Said nasceu em 1935, Oz em 1939), possuem ambos posições políticas moderadas, são respeitados e conhecidos mundo afora. Tinham tudo para se dar bem, mas... Será que já se encontraram? Talvez não. E se se encontrassem, que teriam a dizer-se? Talvez nada. Eis uma das tragédias do conflito israelo-palestino.

 

José Saramago e Wole Soyinka compartilham o fato de terem sido ambos agraciados com o Nobel de Literatura, Saramago em 1998, o nigeriano Soyinka em 1986. Os dois fizeram parte de um grupo de escritores que esteve em Ramallah, examinando as condições locais e entrevistando-se com Yasser Arafat. Soyinka escreveu (O Estado de S. Paulo, 9/4/2002) que sente arrepios quando escuta os árabes chamarem de mártires os terroristas suicidas. Mas, por outro lado, conta que ouviu relatos em que "tanques arrombam e atravessam paredes à noite, despejando escombros sobre membros da família adormecidos" – e, diante disso, concluiu ser impossível "continuar visceralmente desengajado ou não se sentir moralmente agredido". Eis o escritor em sua nobre dimensão de servir – para os leitores, para seu próprio povo e para o mundo em geral – de reservatório de consciência.

Saramago comparou o que viu na Cisjordânia a Auschwitz. Cometeu não só um exagero, mas também o pecado de se ter rebaixado – ele tão digno e tão bom escritor – à vulgaridade dos paralelos demagógicos. Em bom português do Brasil, "apelou". O.k., Hitler é alguém que habita esfera única na escala da degradação humana. Mas outras comparações são cabíveis. Milosevic, por exemplo. Ou Pinochet. Milosevic está sendo julgado por um tribunal internacional. Pinochet foi denunciado na Espanha e preso na Inglaterra. São dois casos que introduziram a moda de julgar chefes de Estado em outros países que não os seus. Ariel Sharon seria candidatíssimo a igual destino, se não contasse com a sorte de ter as costas cobertas – e como – pelo aliado americano.

Elie Wiesel e Shimon Peres têm em comum serem também da mesma geração (Wiesel de 1928, Peres de 1923), terem recebido ambos o Nobel da Paz e ostentarem a condição de homens simbólicos – o primeiro do povo judeu em geral, o segundo do Estado de Israel. Wiesel, sobrevivente do holocausto, tema que permeia vários de seus livros, e prêmio Nobel da Paz em 1986, insistiu, em entrevista ao correspondente da Folha de S.Paulo em Nova York, Sérgio Dávila (Folha de S.Paulo, 7/4/2002), em denunciar os homens-bomba. Muito justo. Mas mostrou-se reticente, constrangedoramente reticente, num homem de sua estatura moral, e de vivência tão sofrida, quanto à brutalidade de Sharon.

O caso de Peres, em questão de constrangimento, é mais dramático. Como compreender que alguém como ele, formado na melhor escola de estadistas de seu país, e iniciado na política pelo próprio patriarca de Israel, Ben-Gurion, integre o gabinete de Ariel Sharon? E no entanto ele é o atual ministro das Relações Exteriores. Peres, prêmio Nobel da Paz em 1994, com Yitzhak Rabin e Yasser Arafat (Arafat Nobel da Paz!), expõe-se, às vésperas da consagradora idade dos 80 anos, a um lamentável risco de dissipação da biografia. Costuma-se pensar nele como político, mas é também escritor. Um de seus livros, From these Men, de 1979, começa com uma citação de Ben-Gurion: "A sorte de Israel depende de sua força e sua justiça". Boa frase. Nestes dias, adquire significado mais denso do que jamais.

   
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