
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
A saga de uma vencedora
Benedita
da Silva, a nova
governadora do Rio, saltou
da
miséria para o topo da política

Marcelo Carneiro
Oscar Cabral
 |
| Benedita
da Silva em seu gabinete no Palácio Guanabara: primeira governadora
negra do país |
Em 1982,
a filha da lavadeira Maria da Conceição foi conhecer o salão
nobre da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. Até então,
o mais próximo que tinha chegado do poder era a porta dos fundos
do apartamento de Juscelino Kubitschek, onde entregava as roupas da família
do ex-presidente, lavadas pela mãe. Naquele ano, Benedita da Silva
tornou-se vereadora, dando início a uma trajetória singular
na história da política brasileira. Após o mandato
no Rio, também abriu espaço no Congresso, tornando-se a
primeira negra a tomar posse como senadora. E, em 1998, elegeu-se vice-governadora
na chapa de Anthony Garotinho. Na semana passada, Benedita subiu mais
um degrau. Assumiu o governo do Estado do Rio de Janeiro, em razão
da renúncia de Garotinho, que deixou o cargo para concorrer à
Presidência. É a primeira mulher negra governadora da história
do país. Em pouco mais de duas décadas, Benedita saltou
da miséria quase absoluta para o mais alto posto em um Estado que
é a segunda maior economia do país. Logo de cara, mostrou
que o slogan "mulher, negra e favelada", que a acompanha desde a primeira
eleição, como um mantra, não era figura de retórica.
Compôs um secretariado com 20% de negros, recrutados para trabalhar
em um governo que terá apenas nove meses para mostrar a que veio
e será uma das principais vitrines do PT na campanha presidencial
de Luís Inácio Lula da Silva.
Filha de
uma família de quinze irmãos, dos quais só conheceu
oito, Benedita é protagonista de uma saga de dar inveja a roteirista
de Hollywood. Trabalhou como engraxate, camelô, doméstica
e vendedora de pastel. Foi estuprada na infância. Dos quatro filhos
que teve, enterrou dois, um deles como indigente. Apesar de hoje ser o
principal nome do PT no Rio de Janeiro, sabe que seu maior feito foi ter
sobrevivido a um destino que parecia fadado ao fracasso num país
onde os negros representam quase 70% dos brasileiros que vivem na linha
da miséria. Benedita da Silva fez de sua história um talismã
de impressionante poder eleitoral. Na primeira campanha de que participou,
em 1982, conseguiu eleger-se vereadora com mirrados 8.000
votos. Doze anos depois, quando chegou ao Senado, quase 2,5 milhões
de fluminenses apostaram na candidata do PT, que continuava morando no
morro do Chapéu Mangueira, na Zona Sul do Rio. Só há
cerca de três anos, Bené como é conhecida
trocou a favela por uma confortável casa em Jacarepaguá,
um bairro de classe média. Já na década de 80, tinha
deixado os biscates e trabalhava em dupla jornada, como digitadora e auxiliar
de enfermagem. À noite, estudava serviço social. Formou-se
quando já era vereadora. Viúva duas vezes, atualmente é
casada com o ator Antônio Pitanga, pai da atriz Camila Pitanga,
uma das estrelas da Rede Globo.
Arquivo pessoal
 |
| O
primeiro casamento, ainda adolescente: levando a vida como engraxate,
camelô e vendedora de pastel |
A caminhada não foi tranqüila. Ao assumir uma cadeira na Câmara
de Vereadores do Rio, ficou com o pior gabinete. Na distribuição
dos veículos para os parlamentares, foi esquecida. Quando decidiu
cobrar, ouviu: "Carro não sobe morro". Não por acaso, seu
primeiro ato no governo foi abrir espaço para os negros na equipe.
A proporção de 20% foi mantida nos postos de segundo e terceiro
escalão. Para o comando da Polícia Militar, convocou o coronel
Francisco José Braz, também negro, fluente em quatro línguas,
incluindo o japonês. Aos que enxergaram uma jogada de marketing
nas indicações, a governadora avisa: "Eu ainda não
fiz nada. Tenho de colocar 30% de mulheres", disse a VEJA, na manhã
de quinta-feira, quando voava rumo a Brasília para um encontro
com o presidente Fernando Henrique.
Além
de mulher, negra e favelada, Benedita, hoje com 60 anos, incorporou ao
figurino de sua militância o ingrediente religioso. É evangélica
desde os 26. Já nas primeiras campanhas eleitorais, teve o apoio
dos colegas de fé. A partir da década de 90, porém,
passou a encaixar uma ou outra passagem bíblica nos discursos políticos.
Agora, assumiu de vez. Na posse como governadora, entoou um cântico
à capela que constrangeu até alguns de seus amigos mais
próximos. O tom messiânico não desce bem na garganta
dos companheiros do PT, boa parte dos quais, aliás, não
queria a aliança com Garotinho em 1998, empurrada goela abaixo
do diretório estadual pela executiva nacional. "Eu preferia quando
ela animava as reuniões do partido cantando sambas do João
Nogueira", alfineta o deputado estadual Chico Alencar, da ala petista
mais à esquerda. Benedita não gosta da comparação,
mas o crescimento de seu discurso político-religioso coincide com
o surgimento de outra liderança com o mesmo perfil, o ex-governador
Anthony Garotinho, com quem rompeu.
Joel Maia
 |
| A
comemoração da primeira eleição, como
vereadora, ainda morando na favela: na hora da posse, só sobrou
o pior gabinete |
A conversão
ao Evangelho não impediu a manutenção de um pecadilho:
a vaidade. Obcecada por se vestir bem, Benedita chegou a encomendar oito
vestidos em um mês à costureira Beatriz de Oliveira, no Morro
dos Cabritos, favela da Zona Sul do Rio de Janeiro. As duas se conhecem
faz treze anos e não há Saint Laurent ou Dior que a façam
abandonar Beatriz, cujos vestidos custam, em média, 130 reais.
Os penteados afros são outra marca da governadora. A cabeleireira
Dai, também há anos com Benedita, teve de dormir na casa
da governadora na véspera da posse. Tudo em nome da beleza. O corpanzil
de 93 quilos, distribuídos por 1,78 metro, conquistou o ator Antônio
Pitanga. O namoro começou em 1990, durante uma campanha, em que
ambos eram candidatos. Preocupada em não passar a imagem de que
estava ajudando o namorado a eleger-se, Benedita afastou-se de Pitanga.
A paixão, porém, falou mais alto, e veio a público
quando alguns assessores da candidata descobriram sua estratégia
para encontrar-se com o namorado: reservar diariamente na agenda cerca
de uma hora para uma tal "reunião de avaliação".
O casamento
com Pitanga, em 1993, marcou o ingresso na classe média. Benedita
passou a conviver com pessoas que, até então, jamais tinham
feito parte de seu mundo, como a colunista social Danuza Leão,
de quem ficou amiga. "Já fui até a um queijos e vinhos no
Chapéu Mangueira", relembra Danuza. Às vezes, a intimidade
com o mundanismo das colunas sociais rende dissabores. Os militantes do
PT foram à loucura quando Benedita ousou convidar a emergente Vera
Loyola a ingressar no partido, sob o argumento de que a dona de uma rede
de padarias e motéis poderia ser "uma intelectual" a serviço
do partido. "Ela queria me transformar numa Marta Suplicy do Rio", delira
Vera. Em outro episódio, Benedita teve de dar explicações
sobre a instalação de uma banheira de hidromassagem no apartamento
funcional em que morava, em Brasília.
Arquivo pessoal
 |
| O
encontro com o líder Nelson Mandela (foto) e o casamento
com o ator Antônio Pitanga, em 1993: chegada à classe
média |
Peculiaridades
como essas não chegam a atrapalhar. Benedita é uma personagem
de carisma político inegável. Graças a sua história,
a ex-engraxate, ex-camelô e ex-favelada tornou-se conhecida em todo
o mundo e encontrou-se com personalidades do naipe de Nelson Mandela e
François Mitterrand. Toda essa trajetória será colocada
à prova nos próximos meses. Candidata ao governo do Estado,
nunca teve experiência no Executivo e, apesar da força nas
urnas, não apresentou um desempenho além do razoável
como parlamentar. "Quando ela chegou ao Senado, criou-se uma expectativa,
até internacional, sobre o que uma pessoa com a sua biografia poderia
fazer. O resultado foi frustrante, e ela perdeu a chance de tornar-se
referência nacional", diz o cientista político Marcos Coimbra,
do Instituto Vox Populi. Benedita parece ter percebido que não
pode desperdiçar a segunda oportunidade. A herança que recebeu
de Garotinho, no entanto, não é nada confortável.
Uma de suas primeiras medidas foi cortar 30% dos gastos do governo para
enfrentar o caos nas contas públicas uma atitude com efeitos
colaterais ruins. Coisas como negar aumento de salário aos professores
da rede estadual e suspender investimentos, como ela fez, rendem impopularidade
aos políticos. O desafio a fez perder noites de sono, mas não
o bom humor. Em reunião com assessores, saiu-se com a seguinte
definição de seu governo: "É o exército de
Negraleone".
|
"Eu
não tenho problema algum em andar sobre tapetes vermelhos,
porque já lavei muitos em minha vida."
Em resposta ao ex-governador Leonel Brizola, que
atribuiu a ela o gosto pela pompa do poder
"Os
intelectuais estão dentro do PT, junto com os trabalhadores,
e ela é uma intelectual."
Ao convidar a emergente Vera
Loyola para ser candidata à Câmara de Vereadores
pelo PT nas eleições de 2000
"É
norma do Senado: todos os apartamentos funcionais têm banheira
de hidromassagem."
Explicando a banheira de
hidromassagem em seu apartamento funcional
"Já
tive minha fase de patinha feia, de não gostar do meu cabelo
encarapinhado, do meu pé grande. A igreja me fez ver que
não precisava ter vergonha disso."
|
Com reportagem de
Silvia Rogar
|
|
 |
|
 |

|
 |