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Edição 1 747 - 17 de abril de 2002
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Os filhos do silêncio

Casal de lésbicas recorre à fertilização in vitro para ter bebês surdos como elas

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Enquete: você acha que pais com deficiência auditiva têm o direito de gerar em laboratório um filho com o mesmo problema deles?

O desejo número 1 de toda mãe é ter um bebê saudável. Essa é, pode-se dizer, a ordem natural da vida. É isso que torna tão difícil entender que uma mãe recorra à fertilização artificial com o objetivo premeditado de produzir um bebê com uma deficiência congênita. Talvez se deva dizer "duas mães", pois se trata de um casal de lésbicas americanas, Sharon Duchesneau e Candace McCullough, ambas surdas. Em lugar de um neném de olhos claros ou superinteligente, elas procuraram gerar um filho surdo. Na verdade, o segundo, pois já criam uma menina de 5 anos, Jehanne, surda de nascença. Como os bancos de sêmen se recusaram a colaborar com tal projeto, elas recorreram a um doador surdo. Aliás, o mesmo que ajudou a gerar Jehanne. Há quatro meses, Sharon deu à luz um menino, Gauvin. Só no mês passado o bebê atingiu o desenvolvimento necessário para ser submetido a um sofisticado teste de audiologia: ele tem uma leve capacidade auditiva no ouvido direito, que, segundo os médicos, deverá perder em poucos anos. As mamães ficaram encantadas. "Queremos que nossos filhos sejam como nós somos. Queremos que gostem das mesmas coisas que nós", diz Sharon.

Normalmente uma em cada 2.000 crianças nasce com problemas de audição. Em casos como o de Sharon, que é filha de um casal surdo, a possibilidade sobe para uma em duas. Como o pai também tem a deficiência, as probabilidades se elevam para três em quatro. "O que fizemos foi aumentar nossas chances de ter um bebê que fosse surdo", define Candace, que adotou a criança. "É uma eugenia ao contrário", espanta-se Volnei Garrafa, professor de bioética da Universidade de Brasília. "Em vez de darem vantagens competitivas a seus filhos, elas escolheram que a criança tivesse uma doença. É um egoísmo absurdo." A decisão de ter um filho deficiente auditivo foi tomada por razões surpreendentes. Desde os anos 80, muitos surdos americanos desenvolveram o conceito de que a surdez não é uma deficiência médica, mas uma identidade cultural. Eles se vêem como uma tribo à parte, com linguagem própria (a de sinais), e manifestam abertamente sua preferência por filhos surdos, com os quais possam comunicar-se livremente.

Essa curiosa interpretação da surdez surgiu na única universidade para deficientes auditivos, a Gallaudet, localizada em Washington. Como não vêem a surdez como uma deficiência, não acham que trouxeram uma criança doente ao mundo. Sharon e Candace consideram-se na mesma condição de pais que recorrem à seleção de embriões para ter uma menina. Ou um casal de negros que deseja um filho também negro. "Como um surdo, uma menina e um negro podem sofrer discriminação", diz Sharon. "Por causa disso os negros não deveriam ter filhos negros?" O argumento é, evidentemente, capcioso. O problema ético decorre do uso de técnicas de fertilização para assegurar o nascimento de uma criança deficiente. Um surdo pode ter uma vida quase normal. Sharon e Candace, ambas na faixa dos 30 anos e há dez vivendo juntas, cursaram universidade e têm um padrão de vida de classe média alta – mas a deficiência sempre significa desvantagens e limitações. Mesmo que a criança tenha uma excelente comunicação com os pais em casa, com o uso da linguagem de sinais, estará isolada quando sair à rua, onde a maioria escuta perfeitamente. Esse é um caso em que a mamãe desejou para seu filho justamente o indesejado.

   
 
   
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