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Os filhos do silêncio
Casal
de lésbicas recorre à fertilização in vitro
para ter bebês surdos como elas

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O desejo
número 1 de toda mãe é ter um bebê saudável.
Essa é, pode-se dizer, a ordem natural da vida. É isso que
torna tão difícil entender que uma mãe recorra à
fertilização artificial com o objetivo premeditado de produzir
um bebê com uma deficiência congênita. Talvez se deva
dizer "duas mães", pois se trata de um casal de lésbicas
americanas, Sharon Duchesneau e Candace McCullough, ambas surdas. Em lugar
de um neném de olhos claros ou superinteligente, elas procuraram
gerar um filho surdo. Na verdade, o segundo, pois já criam uma
menina de 5 anos, Jehanne, surda de nascença. Como os bancos de
sêmen se recusaram a colaborar com tal projeto, elas recorreram
a um doador surdo. Aliás, o mesmo que ajudou a gerar Jehanne. Há
quatro meses, Sharon deu à luz um menino, Gauvin. Só no
mês passado o bebê atingiu o desenvolvimento necessário
para ser submetido a um sofisticado teste de audiologia: ele tem uma leve
capacidade auditiva no ouvido direito, que, segundo os médicos,
deverá perder em poucos anos. As mamães ficaram encantadas.
"Queremos que nossos filhos sejam como nós somos. Queremos que
gostem das mesmas coisas que nós", diz Sharon.
Normalmente
uma em cada 2.000 crianças nasce com
problemas de audição. Em casos como o de Sharon, que é
filha de um casal surdo, a possibilidade sobe para uma em duas. Como o
pai também tem a deficiência, as probabilidades se elevam
para três em quatro. "O que fizemos foi aumentar nossas chances
de ter um bebê que fosse surdo", define Candace, que adotou a criança.
"É uma eugenia ao contrário", espanta-se Volnei Garrafa,
professor de bioética da Universidade de Brasília. "Em vez
de darem vantagens competitivas a seus filhos, elas escolheram que a criança
tivesse uma doença. É um egoísmo absurdo." A decisão
de ter um filho deficiente auditivo foi tomada por razões surpreendentes.
Desde os anos 80, muitos surdos americanos desenvolveram o conceito de
que a surdez não é uma deficiência médica,
mas uma identidade cultural. Eles se vêem como uma tribo à
parte, com linguagem própria (a de sinais), e manifestam abertamente
sua preferência por filhos surdos, com os quais possam comunicar-se
livremente.
Essa curiosa
interpretação da surdez surgiu na única universidade
para deficientes auditivos, a Gallaudet, localizada em Washington. Como
não vêem a surdez como uma deficiência, não
acham que trouxeram uma criança doente ao mundo. Sharon e Candace
consideram-se na mesma condição de pais que recorrem à
seleção de embriões para ter uma menina. Ou um casal
de negros que deseja um filho também negro. "Como um surdo, uma
menina e um negro podem sofrer discriminação", diz Sharon.
"Por causa disso os negros não deveriam ter filhos negros?" O argumento
é, evidentemente, capcioso. O problema ético decorre do
uso de técnicas de fertilização para assegurar o
nascimento de uma criança deficiente. Um surdo pode ter uma vida
quase normal. Sharon e Candace, ambas na faixa dos 30 anos e há
dez vivendo juntas, cursaram universidade e têm um padrão
de vida de classe média alta mas a deficiência sempre
significa desvantagens e limitações. Mesmo que a criança
tenha uma excelente comunicação com os pais em casa, com
o uso da linguagem de sinais, estará isolada quando sair à
rua, onde a maioria escuta perfeitamente. Esse é um caso em que
a mamãe desejou para seu filho justamente o indesejado.
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