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Edição 1 747 - 17 de abril de 2002
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A química do vício

Pesquisadores americanos descobrem
por que um fumante acende um cigarro
a cada cinqüenta minutos, em média

Karina Pastore


Contexto


Um único cigarro contém 4.700 substâncias, mas apenas uma causa dependência: a nicotina. Depois que um fumante traga, ela demora apenas nove segundos para chegar ao cérebro e desencadear a liberação de dopamina, neurotransmissor responsável pela sensação de prazer. Esse processo é conhecido, mas os pesquisadores se perguntavam por que motivo uma pessoa viciada em nicotina sente necessidade de fumar de cinqüenta em cinqüenta minutos, em média. Uma equipe de estudiosos da Universidade de Chicago parece ter encontrado a resposta para o mistério – a compulsão por nicotina obedeceria a um ritmo biológico. Que só não tem precisão suíça porque há de se levar em conta as peculiaridades e circunstâncias de cada fumante. Em artigo publicado na revista científica Neuron, o médico Daniel McGehee e sua equipe relatam que duas substâncias produzidas no cérebro, os neurotransmissores GABA e glutamato, ajudam a manter alto o nível de dopamina liberado graças à ação da nicotina. O efeito dura cerca de uma hora, justamente o tempo que um fumante leva entre um cigarro e outro.


"O estudo abre a possibilidade para a criação, a longo prazo, de novos remédios contra o tabagismo", diz o psiquiatra Montezuma Pimenta Ferreira, responsável pelo ambulatório de tabagismo do Hospital das Clínicas de São Paulo. Ao identificar as substâncias responsáveis pela duração do bem-estar causado pelo cigarro, os especialistas têm um alvo certo contra o qual atirar. Podem desenvolver drogas que bloqueiem a ação do GABA e do glutamato. Uma vez atingido esse obje, a longo prazo, de novos remédios contra o tabagismo", diz o psiquiatra Montezuma Pimenta Ferreira, responsável pelo ambulatório de tabagismo do Hospital das Clínicas de São Paulo. Ao identificar as substâncias responsáveis pela duração do bem-estar causado pelo cigarro, os especialistas têm um alvo certo contra o qual atirar. Podem desenvolver drogas que bloqueiem a ação do GABA e do glutamato. Uma vez atingido esse objetivo, os níveis de dopamina no cérebro cairiam poucos segundos depois da primeira tragada e a pessoa não teria motivação – pelo menos química – para continuar fumando.

Desvendar por completo os mecanismos de ação da nicotina é um dos grandes desafios da medicina. Há 1,1 bilhão de fumantes em todo o mundo e ocorrem 4 milhões de mortes por ano relacionadas ao tabaco. O vício está vinculado a 90% dos casos de câncer de pulmão, 80% dos de enfisema pulmonar, 25% dos de infarto e 40% dos de bronquite crônica. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a nicotina é, depois da morfina, a droga que mais provoca dependência. De cada 100 dependentes, apenas três, ao final de um ano, conseguem abandonar o cigarro.

 

O pirulito da discórdia

Muita gente que tenta entrar para o clube dos não-fumantes recorre aos chicletes e adesivos de nicotina. Esses artifícios suprem a necessidade orgânica da substância, sem que a pessoa tenha de ingerir a fumaça venenosa do cigarro. Recentemente, foram colocados à venda nos Estados Unidos pirulitos de nicotina, nos sabores framboesa, limão, uva e morango. Os fabricantes dizem – sem nenhuma comprovação – que eles têm efeito mais rápido que o de chicletes e adesivos. Apontam, ainda, uma outra vantagem, esta de ordem psicológica: o leva-e-traz à boca se assemelha ao gesto de fumar, o que serviria de consolo para o sujeito que deseja parar com o cigarro. Mas há um senão: as crianças podem confundir esses pirulitos com guloseimas normais.



   
 
   
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