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O mar vai virar deserto

O maior desastre ecológico
produzido pelo homem está
fazendo desaparecer o Mar
de Aral, na Ásia, que, segundo
especialistas, estará totalmente
seco em 2010

Adriana Carvalho

 

Foto de 1994 mostra a devastação no Mar de Aral


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Em muitos filmes de ficção científica e em propagandas terroristas de entidades ambientalistas, o futuro será um lugar devastado e poluído, árido, com escassez de comida e de outros recursos vitais. Para cerca de 55 milhões de pessoas que vivem na bacia do Mar de Aral, na Ásia Central, esse futuro aterrorizante é o duro presente. Em torno desse mar, que na verdade é um lago de água salgada situado entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, giravam a economia e a vida dessas duas nações e de outras três ex-repúblicas soviéticas. Até o fim da década de 50, ele media cerca de 66.500 quilômetros quadrados, área equivalente à dos Estados do Rio de Janeiro e Alagoas somados. Era o quarto maior lago do mundo e fonte de uma grande indústria pesqueira, que garantia a renda e o trabalho. Um verdadeiro oásis em uma região desértica. O que não se sabia naquela época é que o Aral estava iniciando ali seu processo de extinção. A política econômica promovida pelo ditador Josef Stalin nas décadas anteriores e intensificada pelo regime comunista dos anos 60 foi a principal responsável pela catástrofe ambiental na região. Os líderes políticos quiseram desenvolver as lavouras de algodão por considerar que o produto poderia trazer mais dividendos para a então União Soviética do que a venda de peixes. Para isso, desviaram os rios Amu Daria e Syr Daria, que desembocam no Mar de Aral, para irrigar as plantações. Em alguns anos, nenhuma gota mais de suas águas conseguia chegar ao lago, que começou a secar.

Nas últimas quatro décadas, o Aral perdeu 60% de sua extensão e três quartos do volume de água. Quem morava nas margens do lago hoje está a quilômetros de distância da água. A salinidade triplicou desde então, e muitos moradores são levados ao confinamento em casa por dias, às vezes semanas, durante as freqüentes tempestades de areia e sal. Alguns especialistas prevêem que até 2010 o Aral sumirá definitivamente do mapa. Os pesticidas utilizados indiscriminadamente nas lavouras contaminaram os lençóis freáticos. Das quase 200 espécies de animais que eram encontradas nas proximidades do Aral, apenas quatro dezenas sobreviveram. As florestas que cercavam as margens do lago praticamente desapareceram. As conseqüências da destruição da natureza caíram em dominó sobre a população. Sem a água e os peixes do Mar de Aral, a indústria pesqueira definhou. Sem indústria, a população ficou também sem empregos. "Com menos empregos, a renda per capita caiu para um terço. Isso aumentou a pobreza, que por sua vez fez crescer o número de casos de doenças relacionadas à miséria", diz o líder do Fundo Internacional para Salvar o Mar de Aral, Rim Giniyatullin.

Em artigo publicado recentemente, o diretor da Associação Internacional de Recursos Hídricos, Juha Uitto, diz que a contaminação por agrotóxicos e pelo sal elevou a níveis epidêmicos a ocorrência de câncer, assim como a tuberculose, a asma e outras doenças respiratórias. Uma em cada nove crianças morre antes de completar 1 ano de vida. A maior parte das gestantes sofre de anemia. Tão assustadoras quanto essas estatísticas são as previsões de Uitto de que a extinção do Mar de Aral está não só alimentando a pobreza como também o terrorismo. Ele lembra que, no auge da era soviética, o bacilo anthrax, aquele que aterrorizou os Estados Unidos no ano passado, era cultivado com outras armas biológicas em Vozrozhdenya, uma das ilhas do Mar de Aral. Com a drenagem das águas do lago, a ilha se tornou uma península, o que facilitou o acesso aos militantes políticos que vivem na região. Nada impede que eles invadam os laboratórios abandonados e consigam retomar a cultura do bacilo que ainda pode estar no solo contaminado.

O desastre ecológico do Mar de Aral é considerado um dos mais graves de todos os tempos. Mas não foi o único provocado pela irresponsabilidade de um governo. O ditador iraquiano Saddam Hussein será conhecido pelas gerações futuras, entre outras atrocidades, por destruir o chamado Crescente Fértil do Oriente Médio. Logo após a Guerra do Golfo, na década de 90, ele desenhou um projeto semelhante ao dos soviéticos para desviar as águas que banhavam os pântanos dos rios Tigre e Eufrates e irrigar as terras áridas do resto do país. Hoje restam apenas 10% do ecossistema original. O desastre colocou em risco de extinção quarenta espécies de pássaros. O desaparecimento do Mar de Aral é considerado irreversível por muitos. O desastre ficará marcado na história geológica do planeta como a primeira grande cicatriz deixada pelo homem na Terra. Que seja também a última.

   
 
   
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