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Edição 1 747 - 17 de abril de 2002
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Viva o Rio
dos Simpsons

"Não há nada pior para a imagem do
Rio de Janeiro do que ter governantes
incapazes de perceber o ridículo de
processar um desenho animado"


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Fórum: você acha que a reação dos políticos brasileiros foi adequada?

Na coluna da semana passada, o tema era a histeria das autoridades brasileiras toda vez que um estrangeiro fala mal do país. Sou obrigado a retomá-lo porque surgiu um fato novo: o secretário municipal de Turismo do Rio de Janeiro, José Eduardo Guinle, quer processar os produtores do desenho animado Os Simpsons, que ambientaram um episódio na cidade. No episódio, a família Simpson, em viagem ao Rio de Janeiro, é seqüestrada por um motorista de táxi, assaltada por pivetes e atacada por macacos. O ataque dos macacos foi a passagem que mais indignou o secretário de Turismo Guinle. Ele a considerou "uma irrealidade". Como se Pernalonga e Zé Colméia se baseassem em acontecimentos reais.

O Brasil já tinha sido citado em Os Simpsons. Num velho episódio, revelou-se que o reator nuclear da cidade de Springfield, onde vivem os personagens, era manejado por jogadores de futebol brasileiros que haviam sobrevivido a um acidente aéreo. Em outro episódio, noticiou-se que o Brasil foi destruído pelo buraco de ozônio. Em outro, a insinuante apresentadora brasileira Xoxchitla se exibiu no programa infantil predileto dos pequenos Simpsons. As maiores celebridades do planeta já emprestaram sua voz aos personagens do desenho animado. O próprio Pelé interpretou um narrador com soluços, num episódio que também contou com a participação de Anthony Hopkins e Meryl Streep. Se essas celebridades aceitam ser parodiadas pelo programa, é sinal de que isso não prejudica sua imagem pública. Pelo contrário: é vantajoso ser alvo da sátira de Os Simpsons. Aliás, mais do que vantajoso: é uma honra. Os Simpsons são o melhor produto cultural americano dos anos 90. Não há banda de rock ou filme de Hollywood que possa competir com ele. O Brasil deveria pagar por cada uma de suas aparições. Em vez disso, o secretário de Turismo Guinle partiu para a briga, pedindo uma indenização aos produtores do programa, sob a alegação de que a Riotur investiu 18 milhões de dólares para divulgar a cidade no exterior. O fato é que não há nada pior para a imagem do Rio de Janeiro do que ter governantes incapazes de perceber o ridículo de processar um desenho animado. Jornais do mundo todo debocharam da ira do secretário de Turismo Guinle. É ele quem deveria pagar uma indenização à cidade.

O mais curioso é que os mesmos brasileiros que se revoltam com as críticas dos estrangeiros engolem qualquer asneira disparada por um nativo. Outro dia, Pedro Bial foi assaltado na rua e disse que a violência carioca é pior do que a da guerra civil de Angola. Considerando que a guerra civil de Angola provocou 1 milhão de mortes, a declaração de Bial pode parecer um tantinho hiperbólica. Já Jorge Bornhausen, presidente do PFL, o partido do prefeito do Rio de Janeiro, achou apropriado comparar Roseana Sarney aos palestinos perseguidos pelas tropas de Ariel Sharon em Nablus e Jenin. O Brasil não é como Angola ou a Palestina. Infelizmente, também não é como o Brasil retratado em Os Simpsons. O Brasil do desenho animado é muito mais alegre, muito mais colorido, muito mais divertido que o Brasil real. Com a vantagem adicional de ter macacos no lugar de corpos esquartejados, como o que apareceu na semana passada em Copacabana.

 
 
   
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