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Viva
o Rio
dos Simpsons
"Não
há nada pior para a imagem do
Rio de Janeiro do que ter governantes
incapazes de perceber o ridículo de
processar um desenho animado"

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Na
coluna da semana passada, o tema era a histeria das autoridades brasileiras
toda vez que um estrangeiro fala mal do país. Sou obrigado a retomá-lo
porque surgiu um fato novo: o secretário municipal de Turismo do
Rio de Janeiro, José Eduardo Guinle, quer processar os produtores
do desenho animado Os Simpsons, que ambientaram um episódio
na cidade. No episódio, a família Simpson, em viagem ao
Rio de Janeiro, é seqüestrada por um motorista de táxi,
assaltada por pivetes e atacada por macacos. O ataque dos macacos foi
a passagem que mais indignou o secretário de Turismo Guinle. Ele
a considerou "uma irrealidade". Como se Pernalonga e Zé
Colméia se baseassem em acontecimentos reais.
O Brasil já tinha sido citado em Os Simpsons. Num velho
episódio, revelou-se que o reator nuclear da cidade de Springfield,
onde vivem os personagens, era manejado por jogadores de futebol brasileiros
que haviam sobrevivido a um acidente aéreo. Em outro episódio,
noticiou-se que o Brasil foi destruído pelo buraco de ozônio.
Em outro, a insinuante apresentadora brasileira Xoxchitla se exibiu no
programa infantil predileto dos pequenos Simpsons. As maiores celebridades
do planeta já emprestaram sua voz aos personagens do desenho animado.
O próprio Pelé interpretou um narrador com soluços,
num episódio que também contou com a participação
de Anthony Hopkins e Meryl Streep. Se essas celebridades aceitam ser parodiadas
pelo programa, é sinal de que isso não prejudica sua imagem
pública. Pelo contrário: é vantajoso ser alvo da
sátira de Os Simpsons. Aliás, mais do que vantajoso:
é uma honra. Os Simpsons são o melhor produto cultural
americano dos anos 90. Não há banda de rock ou filme de
Hollywood que possa competir com ele. O Brasil deveria pagar por cada
uma de suas aparições. Em vez disso, o secretário
de Turismo Guinle partiu para a briga, pedindo uma indenização
aos produtores do programa, sob a alegação de que a Riotur
investiu 18 milhões de dólares para divulgar a cidade no
exterior. O fato é que não há nada pior para a imagem
do Rio de Janeiro do que ter governantes incapazes de perceber o ridículo
de processar um desenho animado. Jornais do mundo todo debocharam da ira
do secretário de Turismo Guinle. É ele quem deveria pagar
uma indenização à cidade.
O mais curioso é que os mesmos brasileiros que se revoltam com
as críticas dos estrangeiros engolem qualquer asneira disparada
por um nativo. Outro dia, Pedro Bial foi assaltado na rua e disse que
a violência carioca é pior do que a da guerra civil de Angola.
Considerando que a guerra civil de Angola provocou 1 milhão de
mortes, a declaração de Bial pode parecer um tantinho hiperbólica.
Já Jorge Bornhausen, presidente do PFL, o partido do prefeito do
Rio de Janeiro, achou apropriado comparar Roseana Sarney aos palestinos
perseguidos pelas tropas de Ariel Sharon em Nablus e Jenin. O Brasil não
é como Angola ou a Palestina. Infelizmente, também não
é como o Brasil retratado em Os Simpsons. O Brasil do desenho
animado é muito mais alegre, muito mais colorido, muito mais divertido
que o Brasil real. Com a vantagem adicional de ter macacos no lugar de
corpos esquartejados, como o que apareceu na semana passada em Copacabana.
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