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Ponto
de vista: Lya Luft Quem,
por quê? "Quem maneja os cordéis
nos quais balançam e se debatem os brasileiros menos alienados?"
Confesso que habitualmente, ao escrever, procuro
me abstrair dos leitores para não me condicionar. Pensar se alguém
vai aprovar ou detestar o que escrevo me perturbaria, e a escrita é o território
da minha liberdade. Mas me agrada partilhar questionamentos com essa entidade
meio abstrata que é para mim "o leitor". Que, diga-se de passagem, não
tem sexo nem idade, portanto seria bom varrer definitivamente para a lata de lixo
rótulos tolos como "ela escreve para mulheres sobre mulheres", comentário
de quem leu mal ou nunca leu nada do que escrevo.
Rostos e nomes emergem dessa abstração "leitor" e me interpelam:
gostam, detestam, estimulam, sugerem. Ultimamente, aqui e ali, na rua, no supermercado,
seja onde for, um leitor desconhecido toca meu braço ou chama meu nome
e diz algo como: "Lya, não desanime! Não
desista!"
Atomica
Studio
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Claro
que, mesmo correndo o risco de me tornar repetitiva porque o drama se arrasta
e cenas se repetem cansativamente , não vou desanimar nem desistir.
Novas notícias aparecem, algumas espantosas, como esta: "Polícia
Federal queixa-se de que o governo atrapalha seu trabalho", manchete em vários
jornais. Há reações e indignação, gerando esperança
de que as coisas se encaminhem para um final decente, na faxina essencial para
que a gente ande outra vez de cabeça erguida e com menos sobressalto.
Pois estamos sobressaltados, estamos cheios de dúvidas. Contradições
e perplexidades nos acenam com suas mãos inquietantes. Minha dúvida
mais obstinada nestes últimos dias tem sido:
Quem (onde e por quê), semi-oculto, uno ou múltiplo, maneja os cordéis
nos quais balançam e se debatem os brasileiros menos alienados?
Quem e por que tudo faz para atrapalhar o trabalho das comissões, em que,
correndo riscos e sofrendo ameaças nem sempre veladas, tantos se empenham
em decifrar o aparente enigma e nos devolver o orgulho e a moral?
Por que se desviam, negam e sonegam informações e verdades aos que
buscam descobrir o caminho dos bilhões de reais roubados por quem deveria
estar zelando por nosso bem-estar? Por que se evita
tão tenazmente a identificação dos que malbarataram nosso
dinheiro e nossa confiança? Quem é
esse "quem"? O governo, dizem muitos, e pergunto: quem é afinal "o governo"?
Estamos rodeados de fantasmagorias? Mais: por que
algumas figuras até agora respeitadas no cenário público
parecem não ter vontade de ver desvendado logo esse segredo, certamente
velho conhecido de alguns iniciados? Mais do que
intrigante, é um pouco assustador ver que os acusados, talvez culpados,
de qualquer forma os mais atingidos, em lugar de abrir o cofre da verdade para
mostrar sua inocência, tudo fazem para que as chaves sejam jogadas no mar
do ignorado. Ainda por cima, erguem a marola das contra-acusações
e das jogadas nem sempre leais, para perturbar o bom andamento das coisas.
Nem desalento nem demais otimismo são aconselháveis, mas não
se pode fugir da pergunta: Quem comanda atrás
dos bastidores esse espetáculo de obstruções e enredamentos,
de negação do evidente e de recursos às vezes patéticos
para desviar a atenção ou adiar revelações?
Quem sabe de segredos que não devem ser expostos, e por que razão
não os quer desvendados, se não tem culpa nem é cúmplice
de malfeitos? As verdades seriam tão sérias que poderiam nos desestabilizar
enquanto país? Não tenho respostas:
só indagações, como "quem" e "por quê", junto com o
desejo de que tudo seja levado até o fim pelos homens decentes que insistem
em abrir difíceis brechas nesse território de tantas manobras. Para
que este país não acabe sendo um corpo na aparência sadio
e internamente devastado por uma enfermidade que, por medo, nunca recebeu diagnóstico
claro nem tratamento eficaz. Lya Luft
é escritora |