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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo O
"nosso" Delúbio, santo, mártir, herói
Por
ter salvado o PT e o governo, ele
mereceu, no Roda Viva, o carinho do presidente
O melhor do programa Roda Viva em que se
apresentou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o mais significativo
e mais expressivo, em meio às toneladas de frases pronunciadas pelo entrevistado,
foi uma simples palavrinha de duas sílabas e cinco letras, um banal pronome
possessivo "nosso". Quantas e quantas vezes um "nosso" é pronunciado
sem causar a mínima comoção! Por dia, uma pessoa deve recorrer
a essa tão sovada quanto útil palavrinha umas dez, vinte, talvez
cinqüenta vezes, e nem se dá conta disso. Já o "nosso" do presidente
foi carregado de sentido, um "nosso" denso de emoção. Foi quando
ele se referiu ao antigo tesoureiro do Partido dos Trabalhadores Delúbio
Soares como o "nosso" Delúbio. O presidente
estava certo. Em mais de 90% de suas falas no programa ele se dedicou ou à
embromação ou à inverdade pura e simples. Garantiu que nunca
quis impedir CPIs e inventou que Roberto Jefferson foi cassado porque não
provou as acusações da existência do mensalão, entre
outras espantosas afirmações. Insistiu em que nada está provado
quando há uma enxurrada de documentos mostrando de onde vieram e para onde
foram os milhões de reais manipulados por operadores a serviço do
PT. Já na escolha do "nosso" para qualificar
Delúbio, Lula foi feliz como poucas vezes, ele que, habituado a engrenar
os discursos no puro piloto automático, sem atenção ao significado
das palavras, tão freqüentemente se atrapalha ou erra. O "nosso",
quando aplicado a uma pessoa, é uma maneira de demonstrar carinho. É
dizer que aquela pessoa está perto, e é querida. Delúbio
merece tal tratamento da parte do presidente. Ele é o esteio que escora
o PT e o governo. A figura de olhos mortiços e grossos lábios do
antes misterioso tesoureiro, hoje tão familiar aos brasileiros, merece
ser cultuada, pelos petistas e governistas, como um herói, um mártir
e um santo nada menos do que isso. Observe-se,
antes de voltar a Delúbio, que, depois do Roda Viva, ficaram claras
duas coisas. Primeiro: a crise acabou. Segundo: Lula ganhou. Com relação
ao conteúdo do que ele disse no programa, o desempenho do presidente foi
desastroso. Raramente se viu o primeiro mandatário da nação
tão disponível para se pôr em desacordo com os fatos. Mas
quem liga para conteúdos? Mais importante é que Lula estava à
vontade e seguro de si. Os fatos, ora, os fatos, eram sombras indistintas, por
trás da característica fumaça de verbosidade. Nesta era de
política-espetáculo, política-televisão, política-marketing,
é o que importa. Ele driblou as perguntas, muitas vezes incisivas, dos
entrevistadores com a esperteza e a rapidez de um Tevez, a principal estrela do
time presidencial, entre os zagueiros adversários.
Uma dúvida insistente como é que ele vai enfrentar uma campanha
eleitoral depois de tanto escândalo? foi desfeita. Vai se comportar
como no Roda Viva. Ele mostrou no programa que concluiu seu doutorado nos
truques do ilusionismo. Ajuda-o muito o fato de, seis meses depois, o cansaço
ter vencido a opinião pública. Na semana anterior, a CPI dos Correios
tinha provado pela primeira vez como o dinheiro de uma estatal, no caso o Banco
do Brasil, acabara na conta do PT. A revelação equivale a uma pistola
fumegante encontrada na mão do assassino. No entanto... E daí? Não
importa que milhões de reais tenham sido perfeitamente rastreados, em seus
tortuosos e escusos caminhos. Ei-lo um candidato competitivo, talvez até
favorito, na eleição do ano que vem.
E todos esses ventos a favor, graças a quem? À figura incomparável
do "nosso" Delúbio. Porque eis o ponto que o glorifica e o faz merecer
o tratamento de "nosso" ele chamou toda a culpa para si. Desde Tiradentes
o país não assistia a nada igual. Os companheiros dizem que tudo
é culpa dele, que ele agia sozinho, que ninguém mais sabia de nada
e ele cala, quando não consente expressamente. Os homens-bomba do
Oriente Médio sacrificam a própria vida. Ele sacrificou a honra
e o futuro. Não merece senão as homenagens dos correligionários.
O presidente do PT, Ricardo Berzoini, disse que
a pessoa a quem Lula se refere, quando se diz traído, como já dissera
tempos atrás e repetiu no Roda Viva, é Delúbio. Não,
mil vezes não! Se fosse, Lula não o chamaria de "nosso". Não
se pode imaginar um Cláudio Manuel da Costa ou um Tomás Antônio
Gonzaga a dizer "o nosso Silvério dos Reis". Definitivamente, Delúbio
Soares não é um Joaquim Silvério dos Reis. Antes, para voltar
à figura do mártir da Inconfidência Mineira, é um Tiradentes.
Escolheu ir sozinho para a forca. Vilipendiá-lo de um lado, como fez Berzoini,
e acariciá-lo de outro, como fez Lula, é parte de uma encenação
teatral representada entre petistas. No meio, o antigo professor de matemática
de Goiás oferece sua pessoa em holocausto. Se Lula for reeleito, como as
coisas parecem indicar, pecará por ingratidão se não erguer
no jardim do Palácio da Alvorada, ao lado do canteiro de flores ornado
com a estrela do PT, uma estátua ao "nosso" Delúbio, santo e mártir
do petismo, herói da sobrevivência do governo. |