Edição 1931 . 16 de novembro de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O "nosso" Delúbio,
santo, mártir, herói

Por ter salvado o PT e o governo,
ele mereceu, no Roda Viva,
o carinho do presidente

O melhor do programa Roda Viva em que se apresentou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o mais significativo e mais expressivo, em meio às toneladas de frases pronunciadas pelo entrevistado, foi uma simples palavrinha de duas sílabas e cinco letras, um banal pronome possessivo – "nosso". Quantas e quantas vezes um "nosso" é pronunciado sem causar a mínima comoção! Por dia, uma pessoa deve recorrer a essa tão sovada quanto útil palavrinha umas dez, vinte, talvez cinqüenta vezes, e nem se dá conta disso. Já o "nosso" do presidente foi carregado de sentido, um "nosso" denso de emoção. Foi quando ele se referiu ao antigo tesoureiro do Partido dos Trabalhadores Delúbio Soares como o "nosso" Delúbio.

O presidente estava certo. Em mais de 90% de suas falas no programa ele se dedicou ou à embromação ou à inverdade pura e simples. Garantiu que nunca quis impedir CPIs e inventou que Roberto Jefferson foi cassado porque não provou as acusações da existência do mensalão, entre outras espantosas afirmações. Insistiu em que nada está provado quando há uma enxurrada de documentos mostrando de onde vieram e para onde foram os milhões de reais manipulados por operadores a serviço do PT.

Já na escolha do "nosso" para qualificar Delúbio, Lula foi feliz como poucas vezes, ele que, habituado a engrenar os discursos no puro piloto automático, sem atenção ao significado das palavras, tão freqüentemente se atrapalha ou erra. O "nosso", quando aplicado a uma pessoa, é uma maneira de demonstrar carinho. É dizer que aquela pessoa está perto, e é querida. Delúbio merece tal tratamento da parte do presidente. Ele é o esteio que escora o PT e o governo. A figura de olhos mortiços e grossos lábios do antes misterioso tesoureiro, hoje tão familiar aos brasileiros, merece ser cultuada, pelos petistas e governistas, como um herói, um mártir e um santo – nada menos do que isso.

Observe-se, antes de voltar a Delúbio, que, depois do Roda Viva, ficaram claras duas coisas. Primeiro: a crise acabou. Segundo: Lula ganhou. Com relação ao conteúdo do que ele disse no programa, o desempenho do presidente foi desastroso. Raramente se viu o primeiro mandatário da nação tão disponível para se pôr em desacordo com os fatos. Mas quem liga para conteúdos? Mais importante é que Lula estava à vontade e seguro de si. Os fatos, ora, os fatos, eram sombras indistintas, por trás da característica fumaça de verbosidade. Nesta era de política-espetáculo, política-televisão, política-marketing, é o que importa. Ele driblou as perguntas, muitas vezes incisivas, dos entrevistadores com a esperteza e a rapidez de um Tevez, a principal estrela do time presidencial, entre os zagueiros adversários.

Uma dúvida insistente – como é que ele vai enfrentar uma campanha eleitoral depois de tanto escândalo? – foi desfeita. Vai se comportar como no Roda Viva. Ele mostrou no programa que concluiu seu doutorado nos truques do ilusionismo. Ajuda-o muito o fato de, seis meses depois, o cansaço ter vencido a opinião pública. Na semana anterior, a CPI dos Correios tinha provado pela primeira vez como o dinheiro de uma estatal, no caso o Banco do Brasil, acabara na conta do PT. A revelação equivale a uma pistola fumegante encontrada na mão do assassino. No entanto... E daí? Não importa que milhões de reais tenham sido perfeitamente rastreados, em seus tortuosos e escusos caminhos. Ei-lo um candidato competitivo, talvez até favorito, na eleição do ano que vem.

E todos esses ventos a favor, graças a quem? À figura incomparável do "nosso" Delúbio. Porque – eis o ponto que o glorifica e o faz merecer o tratamento de "nosso" – ele chamou toda a culpa para si. Desde Tiradentes o país não assistia a nada igual. Os companheiros dizem que tudo é culpa dele, que ele agia sozinho, que ninguém mais sabia de nada – e ele cala, quando não consente expressamente. Os homens-bomba do Oriente Médio sacrificam a própria vida. Ele sacrificou a honra e o futuro. Não merece senão as homenagens dos correligionários.

O presidente do PT, Ricardo Berzoini, disse que a pessoa a quem Lula se refere, quando se diz traído, como já dissera tempos atrás e repetiu no Roda Viva, é Delúbio. Não, mil vezes não! Se fosse, Lula não o chamaria de "nosso". Não se pode imaginar um Cláudio Manuel da Costa ou um Tomás Antônio Gonzaga a dizer "o nosso Silvério dos Reis". Definitivamente, Delúbio Soares não é um Joaquim Silvério dos Reis. Antes, para voltar à figura do mártir da Inconfidência Mineira, é um Tiradentes. Escolheu ir sozinho para a forca. Vilipendiá-lo de um lado, como fez Berzoini, e acariciá-lo de outro, como fez Lula, é parte de uma encenação teatral representada entre petistas. No meio, o antigo professor de matemática de Goiás oferece sua pessoa em holocausto. Se Lula for reeleito, como as coisas parecem indicar, pecará por ingratidão se não erguer no jardim do Palácio da Alvorada, ao lado do canteiro de flores ornado com a estrela do PT, uma estátua ao "nosso" Delúbio, santo e mártir do petismo, herói da sobrevivência do governo.

 
 
 
 
topovoltar