Edição 1858 . 16 de junho de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Lya Luft
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Tales Alvarenga
HH vai azucrinar o PT

"O brasileiro não está muito interessado no
cérebro e na ideologia da senadora Heloísa
Helena. O que o brasileiro ama é o coração
e a fibra da mulher"

O PT transformou em mártir a senadora Heloísa Helena, de Alagoas, quando a expulsou de seus quadros no ano passado, junto com os deputados Luciana Genro, João Fontes e João Batista Babá. Como Joana d'Arc, Heloísa Helena foi para a fogueira, mas dela saiu como celebridade. O que fez a senadora para que o PT a sacrificasse? Ela apenas exigiu que o partido de Lula, eleito para governar o Brasil, continuasse defendendo as bandeiras que defendia quando ainda não era governo.

Foi um grande erro do PT a expulsão de Heloísa e dos outros três. Na semana passada, lá estavam eles fundando o Partido do Socialismo e da Liberdade (PSOL), que será chamado apenas de SOL. Se todos os trâmites da criação do SOL forem seguidos, Heloísa será sua candidata à Presidência da República em 2006. Ela não tem chances de ganhar. Mas de uma coisa se pode ter certeza. De megafone na mão, santa Heloísa vai azucrinar o PT da mesma forma que o PT azucrinou os tucanos nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso. Usará, para isso, as mesmas acusações que os petistas faziam a FHC. Heloísa Helena dirá que o PT se ajoelhou perante o FMI. Que o PT governa contra os pobres e a favor dos banqueiros. Que o PT no poder é um partido neoliberal e que Lula, José Dirceu, Antonio Palocci e Luiz Gushiken traíram seu passado para bajular a elite brasileira.

As idéias dos integrantes do SOL saem do lixo da história. Num documento assinado por Luciana Genro e João Batista Babá, com as teses finais de um encontro do PT realizado em Belo Horizonte, em 1999, os signatários defendem a suspensão do pagamento da dívida externa, a estatização do sistema bancário e financeiro, a moratória da dívida interna, a reestatização das empresas públicas que foram privatizadas, a implantação de uma nova ordem mundial baseada na extinção da Otan, da Organização Mundial do Comércio, do FMI e do Banco Mundial. Pregam a ruptura com o sistema capitalista e a construção de uma sociedade socialista.

Vale repetir que essas propostas foram apresentadas como teses finais num encontro do PT, que naquela época achava tudo isso muito natural. Hoje, para sorte dos brasileiros, os petistas no governo deixaram de ser os bebês intelectuais que foram no passado. Abriram os olhinhos e viram que o mundo é muito mais complexo do que imaginavam. Por terem crescido, serão chamados de neoliberais pelo grupo de Heloísa Helena.

O SOL não terá muito brilho político nem hoje nem no futuro, porque jamais uma parcela significativa da opinião pública vai levar a sério as idéias radicais, ingênuas e fracassadas que seus integrantes defendem. Isso não impedirá a senadora Heloísa Helena de se firmar como uma respeitável figura política, coisa que ela já é. Todos acompanharam a coragem que exibiu e as lágrimas que derramou quando o PT tentou em vão vergar-lhe a espinha dorsal.

Durante a fase da expulsão do PT, ela vivia na mídia. O brasileiro pôde observar sua austeridade, suas roupas despojadas e o cabelão preso à nuca. É uma espécie de anti-Marta Suplicy. Por ironia, na semana passada, após uma troca de elogios, Heloísa Helena e o senador Eduardo Suplicy (ex-marido de Marta) aproximaram-se um do outro, no plenário do Senado, abraçaram-se e se beijaram, quase na boca.

O brasileiro não está muito interessado no cérebro e na ideologia da senadora Heloísa Helena. O que o brasileiro ama é o coração e a fibra da mulher. Lula, José Dirceu, Antonio Palocci e Luiz Gushiken, que não a quiseram mais no PT, talvez gostem dela secretamente. Ela os faz lembrar do tempo em que eles também comiam abelha.

 
 
 
 
topo voltar