Edição 1858 . 16 de junho de 2004

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Música
A insustentável leveza do pop

Como alguns quilos a mais podem
prejudicar um artista na hora de
negociar um contrato com as gravadoras


Sérgio Martins


Joel Rocha
Léo Jaime
Sua gordura se deve a um raro problema de saúde
Altura: 1,77 metro
Peso: 105 quilos
Pratos prediletos: comida italiana

Um dos artistas mais bem-sucedidos da música pop da década de 80, Léo Jaime, 44 anos, encontra dificuldades para lançar um novo trabalho. Desde Todo Amor (1995), seu último disco, ele é ignorado pelas gravadoras do país – apesar de fazer cerca de vinte shows por mês e ter sucessos como A Vida Não Presta cantados em uníssono pelas platéias. A razão do ostracismo, segundo o cantor, é o fato de ele estar gordo. "Cansei de ouvir gente do meio musical sugerindo que eu faça regime", diz. A irritação de Léo Jaime aumenta porque seu peso está relacionado a um problema de saúde. Ele sofre da chamada "síndrome da sela vazia": seu cérebro não produz hormônios que ajudam no emagrecimento. "A história está cheia de grandes músicos e cantores gordos. Nunca imaginei que o peso seria um problema para mim", afirma o cantor.


Rui Mendes
Sony Music
Ed Motta
Gordo feliz, ele come de tudo e não está nem aí
Altura: 1,80 metro
Peso: 130 quilos
Prato predileto: cheio
Patrícia,
do grupo Rouge
Gordinha culpada, ela sempre cai em tentação – e depois sai à procura de novos regimes
Altura: 1,60 metro
Peso: 58 quilos
Pratos prediletos: pizza com refrigerante e chocolate

De fato, a gordura raramente é um empecilho na carreira musical. No canto lírico, existe até uma associação entre peso elevado e talento. A crença não tem base científica – ao contrário do que se imaginou outrora, ser gordo não implica ter uma caixa torácica maior e assim conseguir alcançar notas mais altas. A associação entre gordura e boa voz provavelmente surgiu por causa dos castrati (cantores que eram castrados para preservar uma voz límpida e engordavam como efeito colateral) ou porque os bons cantores ganhavam regalias nas cortes do passado e cultivavam o corpanzil como sinal de status. Seja como for, há um generoso registro histórico de tenores e barítonos corpulentos – e até hoje é assim que eles aparecem na imaginação popular.

Em outros gêneros, como jazz ou rock, também não é comum o boicote aos mais cheios. Nem no exterior nem no Brasil. Ed Motta e Chorão, da banda Charlie Brown Jr., são exemplos de cantores gordos bem resolvidos. Obeso desde a infância, Ed Motta nunca deixou de afirmar que seu prato predileto é o prato cheio. Chorão, um ídolo adolescente, é tido como "limpa-trilho". O corpão de 100 quilos é mantido à custa de fast food e carnes gordurosas. No pop produzido para as massas, no entanto, freqüentemente a aparência é tão importante quanto a música. Aí as dificuldades aparecem. "Nesse campo existe uma tendência a valorizar mais a estética", diz o produtor Rick Bonadio. Bonadio produz o grupo Rouge – e suas integrantes vivem em regime. "Uma vez, me entupi de chocolates antes de uma apresentação. Nosso show é cheio de pulos e, enquanto eu dançava, a comida parecia querer saltar para fora", conta uma das rouges, Patrícia, de 20 anos, que confessa brigar com a balança. Léo Jaime sempre fez justamente esse tipo de pop leve (sem trocadilho). Por isso, ele tomou uma decisão drástica. Em vez de optar pelo regime, vai dar uma banana às gravadoras. Deverá entrar em estúdio em breve para bancar um disco independente. Além disso, vai mudar um pouco o estilo. "Será um pop punk", diz ele.

 
 
 
 
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