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Cinema
Feiúra é fundamental
Para as muito belas, como Charlize Theron,
esse é o melhor jeito de colocar o talento
em primeiro plano

Isabela Boscov
Divulgação
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| Charlize como a assassina Aileen Wuornos em
Monster: peso extra e sobrancelhas raspadas para auxiliar
num ótimo desempenho |
Mulheres que cometem assassinatos em série
são uma raridade, o que explica em parte o fascínio
que Aileen Wuornos exerceu desde sua prisão, em 1990, sobre
o público americano. No espaço de pouco mais de um
ano, a prostituta Aileen matou pelo menos seis homens talvez
sete, segundo confissões posteriores. O primeiro, ao que
parece, em defesa própria, e os seguintes por razões
mais incertas, mas que sugerem uma ânsia de acertar contas
com o passado. Aileen foi deixada pela mãe aos 6 anos, e,
ao que consta, a partir dos 8 sofreu estupros sistemáticos
possivelmente, também por parte de seu avô.
Aos 13 anos ela teve um filho, que deu para adoção,
e começou a viver nas ruas e a se prostituir. Cresceu miserável,
feia e solitária. Quando foi presa, vivia de procurar clientes
no acostamento de uma rodovia da Flórida por 20 dólares
a mais baixa extração do "business" sexual.
Sua primeira confissão de assassinato foi tirada sem seu
conhecimento, num telefonema com sua namorada, que em troca de imunidade
falou com Aileen na presença de policiais. Aileen foi executada
em 2002, e é difícil imaginar uma personagem mais
sofrida e aterradora ou uma candidata mais improvável
para interpretá-la do que a jovem, linda e sexy Charlize
Theron, a protagonista de Monster (Estados Unidos,
2003), que estréia nesta sexta-feira no país.
Woody Allen, que em Celebridades deu
a Charlize o papel de uma supermodelo, disse que estar no mesmo
recinto que ela era o que bastava para os botões da roupa
de um sujeito derreterem. Para fazer Monster, a atriz precisou
raspar as sobrancelhas, engordar, colocar um aplique maltratado
no cabelo e usar uma maquiagem que faz sua pele parecer gasta e
manchada. Como é comum no caso de transformações
tão radicais por exemplo, a de Robert De Niro em Touro
Indomável ou a de Daniel Day-Lewis em Meu Pé
Esquerdo , a de Charlize foi recompensada com o Oscar
deste ano, que ela aceitou já de volta à sua forma
deslumbrante. Mas, ainda que não houvesse esse esforço
de caracterização, seu desempenho se destacaria. A
atriz faz transpirar, de Aileen, uma brutalidade e uma fome de afeição
animais, que ao mesmo tempo a tornam repulsiva e explicam sua vingança.
Correndo o risco de fazer psicologia barata,
pode-se dizer que talvez a sul-africana Charlize entenda tão
bem Aileen por causa de sua própria trajetória. Quando
a atriz tinha 15 anos, sua mãe matou seu pai, bêbado,
em autodefesa. Até há pouco ela costumava mentir sobre
o episódio num sinal de que talvez não o tenha
superado tão bem quanto diz. Charlize tem, também,
outra razão para se identificar com sua personagem. Assim
como a aparência de Aileen era o que bastava para categorizá-la,
a beleza da atriz tem o efeito previsível de fazer com que
seu talento passe para um distante segundo plano. Enfear-se, portanto,
é o recurso que resta a uma mulher inteligente para derrotar
a angústia de ver sua carreira se diluir em papéis
que exigem muito menos do que ela tem a oferecer. É uma chance
de transformação que sua personagem não teve,
mas da qual Charlize, ao menos, tira o melhor proveito possível.
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