Edição 1858 . 16 de junho de 2004

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Cinema
Feiúra é fundamental

Para as muito belas, como Charlize Theron,
esse é o melhor jeito de colocar o talento
em primeiro plano


Isabela Boscov

 

Divulgação
Charlize como a assassina Aileen Wuornos em Monster: peso extra e sobrancelhas raspadas para auxiliar num ótimo desempenho

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Imagens
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Trailer do filme

Mulheres que cometem assassinatos em série são uma raridade, o que explica em parte o fascínio que Aileen Wuornos exerceu desde sua prisão, em 1990, sobre o público americano. No espaço de pouco mais de um ano, a prostituta Aileen matou pelo menos seis homens – talvez sete, segundo confissões posteriores. O primeiro, ao que parece, em defesa própria, e os seguintes por razões mais incertas, mas que sugerem uma ânsia de acertar contas com o passado. Aileen foi deixada pela mãe aos 6 anos, e, ao que consta, a partir dos 8 sofreu estupros sistemáticos – possivelmente, também por parte de seu avô. Aos 13 anos ela teve um filho, que deu para adoção, e começou a viver nas ruas e a se prostituir. Cresceu miserável, feia e solitária. Quando foi presa, vivia de procurar clientes no acostamento de uma rodovia da Flórida por 20 dólares – a mais baixa extração do "business" sexual. Sua primeira confissão de assassinato foi tirada sem seu conhecimento, num telefonema com sua namorada, que em troca de imunidade falou com Aileen na presença de policiais. Aileen foi executada em 2002, e é difícil imaginar uma personagem mais sofrida e aterradora – ou uma candidata mais improvável para interpretá-la do que a jovem, linda e sexy Charlize Theron, a protagonista de Monster (Estados Unidos, 2003), que estréia nesta sexta-feira no país.

Woody Allen, que em Celebridades deu a Charlize o papel de uma supermodelo, disse que estar no mesmo recinto que ela era o que bastava para os botões da roupa de um sujeito derreterem. Para fazer Monster, a atriz precisou raspar as sobrancelhas, engordar, colocar um aplique maltratado no cabelo e usar uma maquiagem que faz sua pele parecer gasta e manchada. Como é comum no caso de transformações tão radicais – por exemplo, a de Robert De Niro em Touro Indomável ou a de Daniel Day-Lewis em Meu Pé Esquerdo –, a de Charlize foi recompensada com o Oscar deste ano, que ela aceitou já de volta à sua forma deslumbrante. Mas, ainda que não houvesse esse esforço de caracterização, seu desempenho se destacaria. A atriz faz transpirar, de Aileen, uma brutalidade e uma fome de afeição animais, que ao mesmo tempo a tornam repulsiva e explicam sua vingança.

Correndo o risco de fazer psicologia barata, pode-se dizer que talvez a sul-africana Charlize entenda tão bem Aileen por causa de sua própria trajetória. Quando a atriz tinha 15 anos, sua mãe matou seu pai, bêbado, em autodefesa. Até há pouco ela costumava mentir sobre o episódio – num sinal de que talvez não o tenha superado tão bem quanto diz. Charlize tem, também, outra razão para se identificar com sua personagem. Assim como a aparência de Aileen era o que bastava para categorizá-la, a beleza da atriz tem o efeito previsível de fazer com que seu talento passe para um distante segundo plano. Enfear-se, portanto, é o recurso que resta a uma mulher inteligente para derrotar a angústia de ver sua carreira se diluir em papéis que exigem muito menos do que ela tem a oferecer. É uma chance de transformação que sua personagem não teve, mas da qual Charlize, ao menos, tira o melhor proveito possível.

 
 
 
 
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