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Livros
A sordidez cubana
A miséria cotidiana da ilha de
Fidel Castro
nos contos do marginal Pedro Juan
Gutiérrez

Jerônimo Teixeira
AP
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| Gutiérrez: mergulho na Havana que os turistas
não vêem |
O cubano Pedro Juan Gutiérrez é
daqueles escritores que não se contentam em fazer literatura:
também precisam cultivar o seu folclore. Gutiérrez,
o marginal que vive entre prostitutas e achacadores de Havana, é
o principal personagem de Gutiérrez, o escritor aclamado
no mundo e ignorado em Cuba. Assim como nos romances da Trilogia
Suja de Havana, os contos de O Insaciável Homem-Aranha
(tradução de José Rubens Siqueira;
Companhia das Letras; 201 páginas; 35 reais) têm como
protagonista uma figura que se confunde com o autor. Todas as histórias
são narradas por um escritor cinqüentão que já
foi jornalista e também se exercita na pintura. É
ele quem recomenda a uma admiradora que evite confundir obra e autor:
"Meus livros são meus livros e eu sou eu". O conselho é
fátuo: afinal, o próprio Gutiérrez promove
o apagamento dos limites entre biografia e literatura. E é
uma senhora biografia a dele. O homem já fez de tudo: foi
sorveteiro, soldado, cortador de cana, repórter.
Ao
contrário de escritores compatriotas, como Guillermo Cabrera
Infante, Gutiérrez se recusa a buscar o exílio. No
entanto, nenhuma editora em Cuba teve coragem de publicar sua ficção,
que é um mergulho obsceno no submundo cubano. Aliás,
a palavra "submundo" quase perde o sentido nessa Havana em que a
superfície glamourosa só existe para os turistas.
É uma cidade em que ninguém mais tem uma profissão
regular, pois os biscates, o mercado negro e até mesmo a
prostituição trazem uma compensação
financeira maior.
No conto que abre O Insaciável Homem-Aranha,
vemos Silvia, uma artista plástica cubana, ser estuprada
(ou quase) por um mendigo negro no Central Park, em Nova York. É
como se Gutiérrez acenasse para a universalidade de seu tema
central: a sordidez humana. Mas essa é a única cena
que se passa fora de Cuba. A partir daí, vemos um contundente
painel das agruras cotidianas na ilha de Fidel Castro (o ditador,
aliás, não é mencionado). Embora os contos,
como é próprio do gênero, sejam auto-suficientes,
o ideal é que o leitor siga a seqüência do livro.
De história em história, vai-se compondo o drama do
alter ego de Gutiérrez seu romance conflituoso com
uma certa Julia, sua luta cotidiana pela sobrevivência, sua
cultivada aura de marginal. E, é claro, muitas mulheres,
especialmente mulatas. As aventuras priápicas são
a única exuberância tropical que sobrou na miserável
ilha cubana.
| A
luta pela carne |
| "Fomos ao supermercado da Terceira
com a Setenta. Chegamos às nove e meia. Havia um
grupo de cinqüenta ou sessenta pessoas esperando
debaixo do sol. Quando abriram as portas, às dez,
entraram todos correndo. Julia e eu nos olhamos assombrados
e corremos também. Iam todos para o mesmo lugar:
um balcão refrigerado com cem ou duzentos pacotes
de ossos. As pessoas se empurravam violentamente para
pegar uns tantos pacotes. (...) Passei o braço
direito por cima de todo mundo e agarrei três pacotes.
As mulheres da primeira fila tinham corrido mais depressa.
Agora se davam ao luxo de escolher os pacotes que tinham
mais restos de carne grudados nos ossos."
Trecho do conto
Vazio e Perplexidade
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