Edição 1858 . 16 de junho de 2004

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Livros
A sordidez cubana

A miséria cotidiana da ilha de Fidel Castro
nos contos do marginal Pedro Juan Gutiérrez


Jerônimo Teixeira

 
AP
Gutiérrez: mergulho na Havana que os turistas não vêem

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Trecho do livro

O cubano Pedro Juan Gutiérrez é daqueles escritores que não se contentam em fazer literatura: também precisam cultivar o seu folclore. Gutiérrez, o marginal que vive entre prostitutas e achacadores de Havana, é o principal personagem de Gutiérrez, o escritor aclamado no mundo e ignorado em Cuba. Assim como nos romances da Trilogia Suja de Havana, os contos de O Insaciável Homem-Aranha (tradução de José Rubens Siqueira; Companhia das Letras; 201 páginas; 35 reais) têm como protagonista uma figura que se confunde com o autor. Todas as histórias são narradas por um escritor cinqüentão que já foi jornalista e também se exercita na pintura. É ele quem recomenda a uma admiradora que evite confundir obra e autor: "Meus livros são meus livros e eu sou eu". O conselho é fátuo: afinal, o próprio Gutiérrez promove o apagamento dos limites entre biografia e literatura. E é uma senhora biografia a dele. O homem já fez de tudo: foi sorveteiro, soldado, cortador de cana, repórter.

Ao contrário de escritores compatriotas, como Guillermo Cabrera Infante, Gutiérrez se recusa a buscar o exílio. No entanto, nenhuma editora em Cuba teve coragem de publicar sua ficção, que é um mergulho obsceno no submundo cubano. Aliás, a palavra "submundo" quase perde o sentido nessa Havana em que a superfície glamourosa só existe para os turistas. É uma cidade em que ninguém mais tem uma profissão regular, pois os biscates, o mercado negro e até mesmo a prostituição trazem uma compensação financeira maior.

No conto que abre O Insaciável Homem-Aranha, vemos Silvia, uma artista plástica cubana, ser estuprada (ou quase) por um mendigo negro no Central Park, em Nova York. É como se Gutiérrez acenasse para a universalidade de seu tema central: a sordidez humana. Mas essa é a única cena que se passa fora de Cuba. A partir daí, vemos um contundente painel das agruras cotidianas na ilha de Fidel Castro (o ditador, aliás, não é mencionado). Embora os contos, como é próprio do gênero, sejam auto-suficientes, o ideal é que o leitor siga a seqüência do livro. De história em história, vai-se compondo o drama do alter ego de Gutiérrez – seu romance conflituoso com uma certa Julia, sua luta cotidiana pela sobrevivência, sua cultivada aura de marginal. E, é claro, muitas mulheres, especialmente mulatas. As aventuras priápicas são a única exuberância tropical que sobrou na miserável ilha cubana.

 
A luta pela carne
"Fomos ao supermercado da Terceira com a Setenta. Chegamos às nove e meia. Havia um grupo de cinqüenta ou sessenta pessoas esperando debaixo do sol. Quando abriram as portas, às dez, entraram todos correndo. Julia e eu nos olhamos assombrados e corremos também. Iam todos para o mesmo lugar: um balcão refrigerado com cem ou duzentos pacotes de ossos. As pessoas se empurravam violentamente para pegar uns tantos pacotes. (...) Passei o braço direito por cima de todo mundo e agarrei três pacotes. As mulheres da primeira fila tinham corrido mais depressa. Agora se davam ao luxo de escolher os pacotes que tinham mais restos de carne grudados nos ossos."

Trecho do conto Vazio e Perplexidade

 
 
 
 
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