Edição 1858 . 16 de junho de 2004

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Memória
Ray Charles
único

O americano Ray Charles pertenceu a uma categoria rara de artista: a dos legítimos inventores. O gênero que ele forjou foi a soul music, e ele fez isso ao secularizar o gospel – ao transportar a vibração e o fervor das canções religiosas negras para o âmbito da música popular. Não bastasse isso, Charles ainda deu nova energia ao country, ao jazz, ao blues – enfim, a todos os estilos aos quais aplicou sua engenhosidade, seu piano endiabrado e sua peculiar voz rouca. Esse artista único morreu na quinta-feira passada, 10 de junho, por causa de problemas no fígado. Ele tinha 73 anos.

O sorriso aberto foi uma marca registrada do músico, mas sua vida não foi particularmente feliz. Ele nasceu em 23 de setembro de 1930. "Os pretos da época eram naturalmente pobres. Pois minha família conseguia ser mais pobre ainda", declarou certa vez. Sua visão se perdeu quando ele tinha 6 anos, por causa de um glaucoma. Os pais o mandaram para uma escola de cegos e nela, além de aprender a consertar carros, ele descobriu o piano. Quando tinha 15 anos sua mãe morreu e ele decidiu ganhar a vida tocando. A explosão de seu talento ocorreu nos anos 50, quando ele "adicionou o discurso do diabo às canções sagradas", segundo a definição do produtor musical Jerry Wexler, e deu nascimento à soul music. Entre os clássicos que o consagraram estão What I'd Say e Hit the Road Jack.

Charles se casou duas vezes e teve nove filhos com sete mulheres. Em 1965, foi preso por posse de heroína e passou um ano internado para livrar-se do vício. O fim da dependência foi comemorado com trabalho intenso ao longo das décadas seguintes. Nos últimos tempos, Charles preparava um disco de duetos. "Eu nasci com a música dentro de mim", escreveu em sua autobiografia. "Ela me era necessária como a comida e a água."

 
 
 
 
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