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Memória
Ray Charles
único
O americano Ray Charles pertenceu a uma categoria
rara de artista: a dos legítimos inventores. O gênero
que ele forjou foi a soul music, e ele fez isso ao secularizar o
gospel ao transportar a vibração e o fervor
das canções religiosas negras para o âmbito
da música popular. Não bastasse isso, Charles ainda
deu nova energia ao country, ao jazz, ao blues enfim, a todos
os estilos aos quais aplicou sua engenhosidade, seu piano endiabrado
e sua peculiar voz rouca. Esse artista único morreu na quinta-feira
passada, 10 de junho, por causa de problemas no fígado. Ele
tinha 73 anos.
O sorriso aberto foi uma marca registrada
do músico, mas sua vida não foi particularmente feliz.
Ele nasceu em 23 de setembro de 1930. "Os pretos da época
eram naturalmente pobres. Pois minha família conseguia ser
mais pobre ainda", declarou certa vez. Sua visão se perdeu
quando ele tinha 6 anos, por causa de um glaucoma. Os pais o mandaram
para uma escola de cegos e nela, além de aprender a consertar
carros, ele descobriu o piano. Quando tinha 15 anos sua mãe
morreu e ele decidiu ganhar a vida tocando. A explosão de
seu talento ocorreu nos anos 50, quando ele "adicionou o discurso
do diabo às canções sagradas", segundo a definição
do produtor musical Jerry Wexler, e deu nascimento à soul
music. Entre os clássicos que o consagraram estão
What I'd Say e Hit the Road Jack.
Charles se casou duas vezes e teve nove filhos
com sete mulheres. Em 1965, foi preso por posse de heroína
e passou um ano internado para livrar-se do vício. O fim
da dependência foi comemorado com trabalho intenso ao longo
das décadas seguintes. Nos últimos tempos, Charles
preparava um disco de duetos. "Eu nasci com a música dentro
de mim", escreveu em sua autobiografia. "Ela me era necessária
como a comida e a água."
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