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Ciência
O poder dos vulcões
Erupções como a do Krakatoa mostram
como eles trazem a morte e criam a vida

Thereza Venturoli
Na terça-feira passada, dois vulcões
na Indonésia, Bromo e Awu, entraram em atividade. Numa erupção
repentina, o Bromo lançou ao ar pedras que mataram duas pessoas
um número de vítimas insignificante, se comparado
às estatísticas de outros desastres vulcânicos
da região. Em agosto de 1883, Krakatoa (ou Krakatau,
em javanês), uma ilhota encravada no estreito entre as ilhas
de Sumatra e Java, foi pulverizada numa das maiores explosões
já registradas na história. Saldo da catástrofe:
mais de 36.000 mortos, na maioria afogados
por gigantescas paredes de água, os tsunamis, que
invadiram as ilhas próximas. A hecatombe é contada
em minúcias pelo geólogo inglês Simon Winchester
em Krakatoa, o Dia em que o Mundo Explodiu (tradução
de Anna Olga de Barros Barreto; Objetiva; 432 páginas; 57,90
reais). Alinhavando relatos sobre o cotidiano da região,
documentos oficiais e dados científicos, Winchester delineia
um quadro completo da situação social, econômica
e política das então chamadas Índias Orientais,
e mostra como um fenômeno geológico de grandes proporções
pode afetar uma sociedade, e até mesmo toda a humanidade,
por várias gerações. No caso do Krakatoa, o
autor credita à explosão um fortalecimento do misticismo
e da religiosidade das populações atingidas, um dos
componentes da fórmula que resultou na independência
da Indonésia em 1949, até então uma colônia
holandesa.
A
origem e o funcionamento dos vulcões só foram compreendidos
de fato a partir de 1965, quando o canadense Tuzo Wilson apresentou
sua teoria das placas tectônicas. Pela teoria hoje
comprovada , a camada mais externa do planeta é formada
por blocos rochosos que se encaixam como num quebra-cabeça
e flutuam sobre uma camada interna de rocha derretida. Os vulcões
nascem nos pontos onde essas placas se chocam ou se afastam, liberando
material incandescente o magma do subterrâneo.
É assim que a ciência explica a construção
do arquipélago havaiano sobre uma fresta aberta no solo oceânico,
no meio do Pacífico.
Os milhares de ilhas da Indonésia,
que repousam sobre uma zona em que duas placas tectônicas
se encontram, são um dos melhores cenários para grandes
detonações, como a do Krakatoa. O choque entre as
placas pode ativar qualquer um dos cerca de 130 vulcões da
área. Como válvulas mal reguladas de uma imensa panela
de pressão, vez por outra um deles estoura, lançando
ao ar milhões de toneladas de magma. O Krakatoa até
que foi modesto. Em 1815, outro monte indonésio, o Tambora,
deu seu espetáculo de destruição com uma intensidade
dez vezes maior essa, sim, a mais colossal explosão
já registrada. Calcula-se que a erupção e seus
efeitos posteriores tenham causado a morte de 70.000
pessoas. As cinzas e os gases liberados na atmosfera resfriaram
o planeta e provocaram grandes perdas na agricultura. A Europa viveria
no ano seguinte, 1816, uma era de fome e crises sociais, no que
se chamou de "ano sem verão".
Reuters
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| O indonésio Bromo, que entrou em erupção
na terça-feira: arquipélago célebre pelas
hecatombes |
Os vulcões têm outras armas de
destruição em massa uma delas, a perigosa combinação
de água com o magma. Uma geleira ou um lago acomodados na
cratera de um vulcão entram facilmente em ebulição
com a saída do magma. Então, uma avalanche mortal
de lama fervente, chamada lahar, escorre encosta abaixo.
Foi isso, uma locomotiva de toneladas de pedras, cinzas, terra e
água, que matou 23.000 pessoas,
em 1985, na erupção do Nevado del Ruiz, na Colômbia.
O número de vítimas do lahar só foi
menor 350 na erupção do filipino Pinatubo,
em 1991, porque houve tempo de evacuar as centenas de milhares de
moradores dos arredores. Tão ou mais perigosos do que o lahar
são os fluxos piroclásticos golfadas de gases
e lascas de material vulcânico, que avançam a mais
de 200 quilômetros por hora, queimando tudo pela frente. Foi
um desses que soterrou Pompéia e Herculano, no sul da Itália,
no ano 79, legando para a posteridade um museu calcinado do cotidiano
da civilização romana no início da era cristã.
Os vulcões ativos, porém, não
deixam em seu rastro apenas morte e trauma. Poucos anos depois da
explosão do Krakatoa, que eliminou qualquer animal ou vegetal
da área, as ruínas da ilha já eram recolonizadas
por sementes, grãos de pólen, esporos e minúsculos
insetos, arrastados pelos ventos. Terras férteis, aliás,
constituem um dos principais subprodutos das erupções
vulcânicas e um grande atrativo para milhões
de pessoas, no mundo todo, que se arriscam vivendo ao pé
desses montes sempre à beira de um ataque de nervos. Há
teorias, aliás, que dizem ser eles as fornalhas em que se
criou toda a água do planeta. Segundo esse raciocínio,
em tempos primordiais, o magma continha grandes quantidades de oxigênio
e hidrogênio em sua composição. A cada erupção,
esses gases eram liberados na atmosfera em forma de vapor
o qual, ao se resfriar, se condensava e virava água.
Aos efeitos físicos imediatos da revolução
tectônica seguem-se as conseqüências indiretas
ambientais, sociais, econômicas e culturais, traduzidas
em mitos que perduram pelos séculos. As explosões
vulcânicas ressoam no cinema em filmes como Krakatoa
Inferno de Java, Stromboli e Inferno de Dante
e na literatura. Atribui-se ao mau tempo criado pelo Tambora,
por exemplo, o poema Darkness (Trevas), de Lord Byron. Foi
esse mesmo mau tempo que trancafiou o poeta Percy Shelley e sua
mulher, Mary, no verão de 1816, numa vila à beira
de um lago suíço, em cuja reclusão Mary Shelley
gestou a novela gótica Frankenstein. "Desastres como
o de Krakatoa nos alertam para quanto os vulcões são
importantes para a vida terrestre", diz a astrônoma Rosaly
Lopes. Carioca de Ipanema, Rosaly trabalha na Nasa há treze
anos e comandou os estudos sobre os vulcões de Io, satélite
de Júpiter, durante a missão Galileu. Para isso, teve
de mergulhar fundo no vulcanismo da Terra, do qual tirou a conclusão
de que dessas chaminés saem não só rocha e
fogo, mas também "a imaginação, a criatividade
e a fome por conhecimento do homem".
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