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Comércio exterior
O Brasil na festa das compras
O país já tem economia mais aberta
que
a dos Estados Unidos e da Europa

Chrystiane Silva
Silenciosamente, o Brasil está realizando
uma revolução no comércio internacional. Há
oito anos, as relações de compra e venda com o resto
do mundo representavam 13% do produto interno bruto. Agora, já
alcançam quase um quarto do PIB. Pelos critérios internacionais,
economias com porcentual acima dos 30% começam a ser consideradas
abertas. E isso é bom. Quanto maior o comércio externo,
mais produtivos são os países. As importações
permitem que eles evoluam tecnologicamente, as exportações
levam à criação de novos empregos, promovem
o aumento da renda dos trabalhadores e impulsionam o crescimento.
Outra vantagem do comércio internacional é que os
países ficam menos vulneráveis às crises externas.
Como as exportações geram dólares que engordam
as reservas internacionais, diminui a dependência de investimentos
estrangeiros.
O mais impressionante, no caso do Brasil,
é que a chamada corrente de comércio, a soma das importações
e exportações, deve atingir 142 bilhões de
dólares neste ano 48% mais que no ano de 2000
mesmo sem que o país tenha desenvolvido uma estratégia
clara para a abertura comercial. Desde a década de 50, a
marca da economia nacional é a prioridade para o crescimento
por meio da substituição das importações,
sem a devida importância ao fluxo de comércio internacional.
Por um lado, essa façanha silenciosa teve a ajuda da recuperação
da economia mundial neste ano deve haver 7,5% de crescimento
dos negócios entre as nações. Por outro, ações
pontuais do governo e de alguns empresários, no desbravamento
de novos mercados, têm sido fundamentais. Nos cinco primeiros
meses deste ano, as exportações aumentaram 24% e as
importações, 18% em relação ao mesmo
período do ano passado. Vista em detalhes, a recuperação
das compras internacionais contém um sinal importante. A
maior parte do que se comprou é composta de máquinas
e equipamentos, o que demonstra investimentos em atualização
tecnológica, com conseqüentes ganhos de produtividade.
"Se continuar assim, o Brasil tem a oportunidade de reescrever sua
estratégia de desenvolvimento", celebra o ex-presidente do
Banco Central Carlos Langoni.
A
expansão do comércio internacional pode ser sustentada
por anos com a ajuda do câmbio flutuante, implantado no país
em 1999. Mas é incorreto acreditar que essa foi a grande
condição para o início do processo. Estudo
recente mostra que, no período da paridade cambial sustentada
na gestão de Gustavo Franco no Banco Central, 80% das importações
já eram compostas de compras de bens de capital, máquinas
que agora empurram a produção nas fábricas
e impulsionam o agronegócio. Do mesmo modo, ainda é
cedo para achar que o caminho à frente está desimpedido.
Há muito que fazer principalmente conquistar novos
parceiros comerciais e reduzir alíquotas de importação.
No início da abertura comercial, na década de 90,
as alíquotas caíram de 42% para 13%, em média.
Mas ainda são altas. O ritmo de negociações
para a formação da Área de Livre Comércio
das Américas também representa um entrave. O acordo
para eliminar barreiras alfandegárias no comércio
entre Brasil, Estados Unidos e outros 32 países do continente
deveria começar a valer no ano que vem. As negociações,
no entanto, caminham devagar, e a data não deve ser cumprida.
Apesar de ter dado passos importantes para
tornar a economia cada vez mais aberta, o Brasil ainda está
longe do ritmo de desempenho dos Tigres Asiáticos. Malásia
e Tailândia, por exemplo, têm índice de abertura
da economia até superior a 100% do PIB. Países desenvolvidos,
por seu lado, conseguem ser auto-suficientes na produção
de bens para consumo e acabam se tornando mais fechados. É
o caso da Zona do Euro, onde o crescimento da economia deve ficar
em apenas 1,7% neste ano. As trocas comerciais se concentram entre
os países europeus. São visíveis as conseqüências
negativas dessa situação. A Alemanha, carro-chefe
da região, tem taxa de desemprego que chega a 10,5% da força
de trabalho. A fraca atividade econômica do país fez
a produção desviar-se para o setor externo. Em relação
aos primeiros meses do ano passado, as exportações
aumentaram 4,4%, mas as importações caíram
2,2%. Sem uma corrente de comércio consistente o país
não consegue crescer.
A China é um exemplo de país
que vem tirando proveito do processo sistemático de liberalização
comercial. Os chineses exportaram 438 bilhões de dólares
no ano passado e compraram 412 bilhões de dólares
em mercadorias de outros países. A economia da China cresce
9% ao ano, com uma relação entre comércio internacional
e PIB da ordem de 63%. O México também é um
caso de sucesso. Desde que o país passou a fazer parte do
Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta),
nos anos 90, as exportações mexicanas triplicaram.
A crise econômica ocorrida há dez anos pôde ser
driblada rapidamente e o crescimento médio anual voltou à
casa dos 3%. "Economias abertas se recuperaram bem mais depressa
nas crises", diz o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega,
sócio da consultoria Tendências.
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