Edição 1858 . 16 de junho de 2004

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Comércio exterior
O Brasil na festa das compras

O país já tem economia mais aberta que
a dos Estados Unidos e da Europa


Chrystiane Silva

NESTA REPORTAGEM
Gráfico: Comércio exterior em porcentagem do PIB

Silenciosamente, o Brasil está realizando uma revolução no comércio internacional. Há oito anos, as relações de compra e venda com o resto do mundo representavam 13% do produto interno bruto. Agora, já alcançam quase um quarto do PIB. Pelos critérios internacionais, economias com porcentual acima dos 30% começam a ser consideradas abertas. E isso é bom. Quanto maior o comércio externo, mais produtivos são os países. As importações permitem que eles evoluam tecnologicamente, as exportações levam à criação de novos empregos, promovem o aumento da renda dos trabalhadores e impulsionam o crescimento. Outra vantagem do comércio internacional é que os países ficam menos vulneráveis às crises externas. Como as exportações geram dólares que engordam as reservas internacionais, diminui a dependência de investimentos estrangeiros.

O mais impressionante, no caso do Brasil, é que a chamada corrente de comércio, a soma das importações e exportações, deve atingir 142 bilhões de dólares neste ano – 48% mais que no ano de 2000 – mesmo sem que o país tenha desenvolvido uma estratégia clara para a abertura comercial. Desde a década de 50, a marca da economia nacional é a prioridade para o crescimento por meio da substituição das importações, sem a devida importância ao fluxo de comércio internacional. Por um lado, essa façanha silenciosa teve a ajuda da recuperação da economia mundial – neste ano deve haver 7,5% de crescimento dos negócios entre as nações. Por outro, ações pontuais do governo e de alguns empresários, no desbravamento de novos mercados, têm sido fundamentais. Nos cinco primeiros meses deste ano, as exportações aumentaram 24% e as importações, 18% em relação ao mesmo período do ano passado. Vista em detalhes, a recuperação das compras internacionais contém um sinal importante. A maior parte do que se comprou é composta de máquinas e equipamentos, o que demonstra investimentos em atualização tecnológica, com conseqüentes ganhos de produtividade. "Se continuar assim, o Brasil tem a oportunidade de reescrever sua estratégia de desenvolvimento", celebra o ex-presidente do Banco Central Carlos Langoni.

A expansão do comércio internacional pode ser sustentada por anos com a ajuda do câmbio flutuante, implantado no país em 1999. Mas é incorreto acreditar que essa foi a grande condição para o início do processo. Estudo recente mostra que, no período da paridade cambial sustentada na gestão de Gustavo Franco no Banco Central, 80% das importações já eram compostas de compras de bens de capital, máquinas que agora empurram a produção nas fábricas e impulsionam o agronegócio. Do mesmo modo, ainda é cedo para achar que o caminho à frente está desimpedido. Há muito que fazer – principalmente conquistar novos parceiros comerciais e reduzir alíquotas de importação. No início da abertura comercial, na década de 90, as alíquotas caíram de 42% para 13%, em média. Mas ainda são altas. O ritmo de negociações para a formação da Área de Livre Comércio das Américas também representa um entrave. O acordo para eliminar barreiras alfandegárias no comércio entre Brasil, Estados Unidos e outros 32 países do continente deveria começar a valer no ano que vem. As negociações, no entanto, caminham devagar, e a data não deve ser cumprida.

Apesar de ter dado passos importantes para tornar a economia cada vez mais aberta, o Brasil ainda está longe do ritmo de desempenho dos Tigres Asiáticos. Malásia e Tailândia, por exemplo, têm índice de abertura da economia até superior a 100% do PIB. Países desenvolvidos, por seu lado, conseguem ser auto-suficientes na produção de bens para consumo e acabam se tornando mais fechados. É o caso da Zona do Euro, onde o crescimento da economia deve ficar em apenas 1,7% neste ano. As trocas comerciais se concentram entre os países europeus. São visíveis as conseqüências negativas dessa situação. A Alemanha, carro-chefe da região, tem taxa de desemprego que chega a 10,5% da força de trabalho. A fraca atividade econômica do país fez a produção desviar-se para o setor externo. Em relação aos primeiros meses do ano passado, as exportações aumentaram 4,4%, mas as importações caíram 2,2%. Sem uma corrente de comércio consistente o país não consegue crescer.

A China é um exemplo de país que vem tirando proveito do processo sistemático de liberalização comercial. Os chineses exportaram 438 bilhões de dólares no ano passado e compraram 412 bilhões de dólares em mercadorias de outros países. A economia da China cresce 9% ao ano, com uma relação entre comércio internacional e PIB da ordem de 63%. O México também é um caso de sucesso. Desde que o país passou a fazer parte do Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta), nos anos 90, as exportações mexicanas triplicaram. A crise econômica ocorrida há dez anos pôde ser driblada rapidamente e o crescimento médio anual voltou à casa dos 3%. "Economias abertas se recuperaram bem mais depressa nas crises", diz o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, sócio da consultoria Tendências.

 
 
 
 
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