Edição 1858 . 16 de junho de 2004

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Especial
Estatina, a grande
surpresa da medicina

Criadas para combater o colesterol alto,
elas se mostram eficazes na prevenção
e no tratamento das mais diversas doenças


Anna Paula Buchalla, de Orlando, e Paula Neiva


Montagem sobre fotos de Pedro Rubens

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Muito além do colesterol alto
NESTA EDIÇÃO
Também para diabetes
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VEJA Saúde

Minúsculas pílulas brancas estão inaugurando uma era na medicina. Criadas originalmente para baixar o colesterol alto (um dos principais fatores de risco para infartos e derrames), as estatinas têm se revelado uma arma potentíssima, com um poder de alcance muito maior. Estudos feitos por alguns dos centros de pesquisa mais respeitados do mundo sugerem que o medicamento pode prevenir e tratar as mais diversas doenças. Angina, Alzheimer, osteoporose, câncer, esclerose múltipla... A lista não pára de crescer. Todo dia anuncia-se o resultado de um novo trabalho científico sobre os efeitos das estatinas. Uma das novidades mais recentes foi divulgada na semana passada, na cidade de Orlando, nos Estados Unidos. Durante o congresso da Associação Americana de Diabetes, pesquisadores ingleses demonstraram que uma determinada estatina reduz consideravelmente as taxas de incidência e morte por infarto ou derrame entre diabéticos – mesmo aqueles que não apresentam excesso de colesterol no sangue (veja reportagem). A notícia foi recebida com muito entusiasmo pelos médicos. Não é à toa. O diabetes e os distúrbios cardiovasculares estão entre as principais preocupações dos especialistas em saúde. Poucas doenças crescem num ritmo tão assustador quanto as duas.

Lançadas comercialmente em meados da década de 80, as estatinas causaram uma revolução na prevenção e no tratamento do colesterol alto, um dos piores inimigos do coração. Até então, a única arma eficaz contra esse problema era a combinação de dieta balanceada com exercícios físicos – uma receita que não funcionava para todo mundo, já que a quantidade de colesterol no organismo tem um forte componente genético. "Antes das estatinas, era muito mais difícil manter baixos os níveis de colesterol dos pacientes. Com elas, foi possível atacar o problema de forma agressiva, mas também bastante segura", diz o cardiologista Otávio Rizzi Coelho, professor da Universidade Estadual de Campinas e presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo.

O remédio é um belíssimo negócio para a indústria farmacêutica. Cinqüenta milhões de pessoas, 400.000 delas no Brasil, tomam estatinas regularmente. Da lista dos dez medicamentos mais vendidos no mundo, os dois primeiros são estatinas: o Lípitor e o Zocor. Eles são os únicos remédios a registrar um faturamento anual superior a 5 bilhões de dólares. Os brasileiros sem recursos já podem adquirir as estatinas em postos de saúde. Algumas também são encontradas na forma de genéricos, o que reduz seu preço. É realmente importante que o acesso a tais remédios seja universal. As vitórias alcançadas pelas estatinas são tão expressivas que elas foram incluídas no seleto rol de medicamentos que mudaram a história (veja quadro). Muitos já as chamam de "a aspirina do século XXI". Lançada em 1897, a aspirina era indicada inicialmente apenas como analgésico. Com o tempo, o remédio feito a partir da casca de salgueiro provou-se eficaz contra inflamações, doenças do coração e alguns tipos de câncer, entre outros benefícios. É o mesmo caminho que começa a ser trilhado pelas estatinas.

Para entender como elas agem, é preciso conhecer um pouco o inimigo contra o qual as estatinas se lançam ferozmente: o colesterol. Essencial ao bom funcionamento do organismo, 60% dele é produzido principalmente no fígado. Os outros 40% vêm dos alimentos de origem animal. O colesterol é usado na formação das membranas da célula, na produção da vitamina D e na síntese de vários hormônios. Há dois tipos de colesterol: o HDL e LDL. O primeiro é o "colesterol bom", que remove o excesso de gordura da circulação sanguínea. O outro é o "colesterol ruim", que deposita gordura na parede das artérias, o primeiro passo para o entupimento delas. Na tentativa de se livrar dessas placas, o sistema imunológico organiza um contra-ataque, o que desencadeia um processo inflamatório. Quanto mais inflamada, maiores são os riscos de a placa explodir e obstruir uma artéria.

As estatinas atuam em várias frentes. Inibem a ação de uma enzima essencial à produção de colesterol, o que acaba por reduzir os níveis de LDL no sangue. Elas aumentam ainda o descarte do colesterol ruim pelo fígado. Além disso, o remédio funciona como antiinflamatório, evitando o rompimento das placas de gordura. Esse efeito foi comprovado em meados dos anos 90. Ao acompanharem pacientes com algum risco cardiovascular, os pesquisadores notaram que quem tomava estatina apresentava níveis menores da proteína C-reativa ultra-sensível, considerada um importante indicador de doenças do coração. Quanto maiores os níveis da proteína, maior é a probabilidade de ocorrência de infartos e derrames. As estatinas reduzem, em média, 30% a morte por essas causas. Outra característica do remédio que contribui para tal resultado é o seu poder anticoagulante. Ele diminui o ritmo de aglutinação das plaquetas sanguíneas. Quanto mais intenso esse processo, maiores são os riscos de formação de coágulos, que podem levar também ao entupimento arterial. "Cerca de 90% dos pacientes respondem muito bem ao tratamento", diz o médico José Ernesto dos Santos, professor de clínica médica da Universidade de São Paulo – Ribeirão Preto e um dos maiores estudiosos de estatinas do Brasil.

Ainda não foi completamente desvendado como as estatinas ajudam a prevenir e tratar outros males. Em alguns casos, como o do diabetes, a proteção oferecida pelo medicamento está claramente associada à redução dos riscos cardiovasculares (veja quadro). Em outros, supõe-se que as estatinas ataquem a raiz do mal. É o caso da doença de Alzheimer, que se caracteriza pela morte dos neurônios, em decorrência do depósito de placas tóxicas de proteína no cérebro. Como o colesterol está envolvido na formação dessas placas, é de esperar que a redução de seus níveis baixe também a quantidade de placas. Por seu poder anticoagulante, as estatinas facilitariam também a irrigação cerebral, mantendo a saúde dos neurônios. Os efeitos podem se estender ainda a outras doenças, como os cânceres de fígado, próstata, mama e intestino. Nesses casos, os médicos não têm a menor pista do mecanismo de ação do remédio. Os indícios de que ele pode funcionar para esses doentes baseiam-se apenas na observação de que pacientes em tratamento com alguma estatina apresentam riscos menores de vir a desenvolver esses tumores. "Apesar de todos os possíveis benefícios, as estatinas têm efeitos colaterais e não devem ser tomadas indiscriminadamente", diz o cardiologista Raul Santos, do Instituto do Coração e do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Elas podem prejudicar o trabalho de uma proteína responsável pela contração muscular. Quando isso acontece, o paciente apresenta dores musculares, de intensidade variável. Nos casos mais graves, as fibras musculares são destruídas. Essa destruição promove a liberação de uma outra proteína, que se acumula no rim e pode levar à insuficiência renal. As estatinas podem também, por motivos ainda desconhecidos, alterar o funcionamento do fígado. Essas reações adversas fizeram com que uma estatina, a cerivastatina, lançada no início da década de 90, fosse retirada do mercado em 2001. Cerca de 100 pessoas morreram vítimas de falência dos rins. Esses quadros, no entanto, são muito raros. Mais comum é o desconforto abdominal provocado pelo remédio.

A história da descoberta da estatina lembra muito a da penicilina. Em 1928, sem querer, o bacteriologista escocês Alexander Fleming viu que uma substância produzida por fungos era bactericida. Nascia assim o primeiro antibiótico, a penicilina. Em 1971, o microbiologista Akira Endo, pesquisador do laboratório japonês Sankyo, estava em busca de um novo antibiótico quando observou que certos fungos também eram capazes de produzir um potente inibidor da produção de colesterol. Ele funciona, descobriu-se, como uma defesa contra predadores herbívoros – ao ingerirem tais fungos, os animais podem morrer, já que a redução de colesterol neles, causada pela substância inibidora, é muito acentuada e leva a uma pane no sistema metabólico. Endo isolou e analisou esse composto, a partir do qual foi sintetizada em laboratório uma molécula que daria origem à matriz das estatinas. A primeira a ser lançada foi a lovastatina, em 1987. A última a chegar ao mercado brasileiro, neste ano, chama-se rosuvastatina. O princípio de todas é basicamente o mesmo. O que muda são determinadas características, que garantem uma potência cada vez maior e efeitos colaterais menores. "O desenvolvimento de novas estatinas é praticamente ilimitado, assim como o leque de doenças que elas podem ajudar a combater", diz o especialista José Ernesto dos Santos. Uma história sem final, mas feliz.

 






Fotos Pedro Rubens; Dulla
 
 
 
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