|
|
Especial
Estatina, a grande
surpresa da medicina
Criadas para combater o colesterol alto,
elas se mostram eficazes na prevenção
e no tratamento das mais diversas doenças

Anna Paula Buchalla, de Orlando, e Paula Neiva
Montagem sobre fotos de Pedro Rubens
 |
Minúsculas pílulas brancas estão
inaugurando uma era na medicina. Criadas originalmente para baixar
o colesterol alto (um dos principais fatores de risco para infartos
e derrames), as estatinas têm se revelado uma arma potentíssima,
com um poder de alcance muito maior. Estudos feitos por alguns dos
centros de pesquisa mais respeitados do mundo sugerem que o medicamento
pode prevenir e tratar as mais diversas doenças. Angina,
Alzheimer, osteoporose, câncer, esclerose múltipla...
A lista não pára de crescer. Todo dia anuncia-se o
resultado de um novo trabalho científico sobre os efeitos
das estatinas. Uma das novidades mais recentes foi divulgada na
semana passada, na cidade de Orlando, nos Estados Unidos. Durante
o congresso da Associação Americana de Diabetes, pesquisadores
ingleses demonstraram que uma determinada estatina reduz consideravelmente
as taxas de incidência e morte por infarto ou derrame entre
diabéticos mesmo aqueles que não apresentam
excesso de colesterol no sangue (veja
reportagem). A notícia foi recebida com muito
entusiasmo pelos médicos. Não é à toa.
O diabetes e os distúrbios cardiovasculares estão
entre as principais preocupações dos especialistas
em saúde. Poucas doenças crescem num ritmo tão
assustador quanto as duas.
Lançadas comercialmente em meados da
década de 80, as estatinas causaram uma revolução
na prevenção e no tratamento do colesterol alto, um
dos piores inimigos do coração. Até então,
a única arma eficaz contra esse problema era a combinação
de dieta balanceada com exercícios físicos
uma receita que não funcionava para todo mundo, já
que a quantidade de colesterol no organismo tem um forte componente
genético. "Antes das estatinas, era muito mais difícil
manter baixos os níveis de colesterol dos pacientes. Com
elas, foi possível atacar o problema de forma agressiva,
mas também bastante segura", diz o cardiologista Otávio
Rizzi Coelho, professor da Universidade Estadual de Campinas e presidente
da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo.
O remédio é um belíssimo
negócio para a indústria farmacêutica. Cinqüenta
milhões de pessoas, 400.000 delas
no Brasil, tomam estatinas regularmente. Da lista dos dez medicamentos
mais vendidos no mundo, os dois primeiros são estatinas:
o Lípitor e o Zocor. Eles são os únicos remédios
a registrar um faturamento anual superior a 5 bilhões de
dólares. Os brasileiros sem recursos já podem adquirir
as estatinas em postos de saúde. Algumas também são
encontradas na forma de genéricos, o que reduz seu preço.
É realmente importante que o acesso a tais remédios
seja universal. As vitórias alcançadas pelas estatinas
são tão expressivas que elas foram incluídas
no seleto rol de medicamentos que mudaram a história (veja
quadro). Muitos já as chamam de "a aspirina
do século XXI". Lançada em 1897, a aspirina era indicada
inicialmente apenas como analgésico. Com o tempo, o remédio
feito a partir da casca de salgueiro provou-se eficaz contra inflamações,
doenças do coração e alguns tipos de câncer,
entre outros benefícios. É o mesmo caminho que começa
a ser trilhado pelas estatinas.
Para entender como elas agem, é preciso
conhecer um pouco o inimigo contra o qual as estatinas se lançam
ferozmente: o colesterol. Essencial ao bom funcionamento do organismo,
60% dele é produzido principalmente no fígado. Os
outros 40% vêm dos alimentos de origem animal. O colesterol
é usado na formação das membranas da célula,
na produção da vitamina D e na síntese de vários
hormônios. Há dois tipos de colesterol: o HDL e LDL.
O primeiro é o "colesterol bom", que remove o excesso de
gordura da circulação sanguínea. O outro é
o "colesterol ruim", que deposita gordura na parede das artérias,
o primeiro passo para o entupimento delas. Na tentativa de se livrar
dessas placas, o sistema imunológico organiza um contra-ataque,
o que desencadeia um processo inflamatório. Quanto mais inflamada,
maiores são os riscos de a placa explodir e obstruir uma
artéria.
As estatinas atuam em várias frentes.
Inibem a ação de uma enzima essencial à produção
de colesterol, o que acaba por reduzir os níveis de LDL no
sangue. Elas aumentam ainda o descarte do colesterol ruim pelo fígado.
Além disso, o remédio funciona como antiinflamatório,
evitando o rompimento das placas de gordura. Esse efeito foi comprovado
em meados dos anos 90. Ao acompanharem pacientes com algum risco
cardiovascular, os pesquisadores notaram que quem tomava estatina
apresentava níveis menores da proteína C-reativa ultra-sensível,
considerada um importante indicador de doenças do coração.
Quanto maiores os níveis da proteína, maior é
a probabilidade de ocorrência de infartos e derrames. As estatinas
reduzem, em média, 30% a morte por essas causas. Outra característica
do remédio que contribui para tal resultado é o seu
poder anticoagulante. Ele diminui o ritmo de aglutinação
das plaquetas sanguíneas. Quanto mais intenso esse processo,
maiores são os riscos de formação de coágulos,
que podem levar também ao entupimento arterial. "Cerca de
90% dos pacientes respondem muito bem ao tratamento", diz o médico
José Ernesto dos Santos, professor de clínica médica
da Universidade de São Paulo Ribeirão Preto
e um dos maiores estudiosos de estatinas do Brasil.
Ainda não foi completamente desvendado
como as estatinas ajudam a prevenir e tratar outros males. Em alguns
casos, como o do diabetes, a proteção oferecida pelo
medicamento está claramente associada à redução
dos riscos cardiovasculares (veja
quadro). Em outros, supõe-se que as estatinas
ataquem a raiz do mal. É o caso da doença de Alzheimer,
que se caracteriza pela morte dos neurônios, em decorrência
do depósito de placas tóxicas de proteína no
cérebro. Como o colesterol está envolvido na formação
dessas placas, é de esperar que a redução de
seus níveis baixe também a quantidade de placas. Por
seu poder anticoagulante, as estatinas facilitariam também
a irrigação cerebral, mantendo a saúde dos
neurônios. Os efeitos podem se estender ainda a outras doenças,
como os cânceres de fígado, próstata, mama e
intestino. Nesses casos, os médicos não têm
a menor pista do mecanismo de ação do remédio.
Os indícios de que ele pode funcionar para esses doentes
baseiam-se apenas na observação de que pacientes em
tratamento com alguma estatina apresentam riscos menores de vir
a desenvolver esses tumores. "Apesar de todos os possíveis
benefícios, as estatinas têm efeitos colaterais e não
devem ser tomadas indiscriminadamente", diz o cardiologista Raul
Santos, do Instituto do Coração e do Hospital Albert
Einstein, em São Paulo. Elas podem prejudicar o trabalho
de uma proteína responsável pela contração
muscular. Quando isso acontece, o paciente apresenta dores musculares,
de intensidade variável. Nos casos mais graves, as fibras
musculares são destruídas. Essa destruição
promove a liberação de uma outra proteína,
que se acumula no rim e pode levar à insuficiência
renal. As estatinas podem também, por motivos ainda desconhecidos,
alterar o funcionamento do fígado. Essas reações
adversas fizeram com que uma estatina, a cerivastatina, lançada
no início da década de 90, fosse retirada do mercado
em 2001. Cerca de 100 pessoas morreram vítimas de falência
dos rins. Esses quadros, no entanto, são muito raros. Mais
comum é o desconforto abdominal provocado pelo remédio.
A história da descoberta da estatina
lembra muito a da penicilina. Em 1928, sem querer, o bacteriologista
escocês Alexander Fleming viu que uma substância produzida
por fungos era bactericida. Nascia assim o primeiro antibiótico,
a penicilina. Em 1971, o microbiologista Akira Endo, pesquisador
do laboratório japonês Sankyo, estava em busca de um
novo antibiótico quando observou que certos fungos também
eram capazes de produzir um potente inibidor da produção
de colesterol. Ele funciona, descobriu-se, como uma defesa contra
predadores herbívoros ao ingerirem tais fungos, os
animais podem morrer, já que a redução de colesterol
neles, causada pela substância inibidora, é muito acentuada
e leva a uma pane no sistema metabólico. Endo isolou e analisou
esse composto, a partir do qual foi sintetizada em laboratório
uma molécula que daria origem à matriz das estatinas.
A primeira a ser lançada foi a lovastatina, em 1987. A última
a chegar ao mercado brasileiro, neste ano, chama-se rosuvastatina.
O princípio de todas é basicamente o mesmo. O que
muda são determinadas características, que garantem
uma potência cada vez maior e efeitos colaterais menores.
"O desenvolvimento de novas estatinas é praticamente ilimitado,
assim como o leque de doenças que elas podem ajudar a combater",
diz o especialista José Ernesto dos Santos. Uma história
sem final, mas feliz.
|