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Sociedade
Voar, emagrecer e comprar...
A festa dos "com jatinho" no interior
de São Paulo foi um luxo e teve gente
de todas as classes

Daniela Pinheiro, de Itirapina
Claudio Rossi
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| O casal Rosana e Fernando: "É
uma estupidez criticar o que fizemos" |
Um dos maiores grupos empresariais brasileiros,
que faturou cerca de 7,5 bilhões de reais no ano passado,
a empreiteira Camargo Corrêa se notabilizou por ter tocado
algumas das maiores obras públicas do país. Depois
da morte do fundador Sebastião Camargo, há dez anos,
passou a ser administrada pelos três genros, já que
as filhas Rosana, Renata e Regina nunca quiseram se envolver no
negócio. A família, discretíssima, sempre fugiu
de badalações. Até agora. Nas últimas
semanas, os holofotes iluminaram o estilo de vida de um dos genros,
Fernando de Arruda Botelho, vice-presidente da holding, e de seus
amigos endinheirados que compõem o clube dos "com jatinho"
brasileiro. Na semana passada, Botelho armou um dos maiores espetáculos
aéreos (e terrestres) de que se tem notícia para comemorar
seu aniversário de 56 anos. Em sua fazenda, recebeu 300 aeronaves
e 8.500 pessoas entre proprietários
de jatos e helicópteros e amantes da aviação
em uma festa memorável que custou 1,5 milhão
de reais.
Homem de hábitos refinados, ele costuma
caçar nos Alpes austríacos e esquiar nos Alpes franceses.
Botelho é casado há 29 anos com Rosana, com quem tem
três filhos. Sempre foi um obcecado por aeronaves. Para a
festa, mandou construir em uma das fazendas da família, a
200 quilômetros de São Paulo, uma pista de pouso de
1.200 metros, arquibancadas para 2.500
pessoas, estacionamento para 1.000 automóveis
e uma praça de alimentação como as de shopping
centers. Duas potentes antenas foram providenciadas para que os
convidados pudessem usar seus celulares. Dez controladores de vôo,
cedidos pelo Departamento de Aviação Civil, cuidaram
da orientação dos aviões sobre a fazenda. A
Esquadrilha da Fumaça exibiu-se com o brilho de sempre. Houve
show de pára-quedismo, de caças da Força Aérea
Brasileira e tiros de artilharia foram disparados de tanques, enquanto
um ator fantasiado de Santos Dumont (cachê de 2.000
reais) circulava entre os presentes. Botelho fez questão
de convidar funcionários da empresa e a população
das cidades vizinhas.
Claudio Rossi
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| A fazenda dos donos da Camargo Corrêa:
três dias de comemoração ao custo de 1,5
milhão de reais |
A festa teve patrocinadores que investiram
um total de 700.000 reais e ganharam
o direito de montar cerca de quatro dezenas de estandes para vender
seus produtos aos convidados. Na feirinha negociaram-se relógios
de 4.000 reais, e até dois aviões
Cirrus, feitos nos Estados Unidos, foram vendidos durante a festa.
Eles custaram 700.000 reais cada um.
"Estou achando o máximo. Esse evento tem um cunho social
importante. Olhe em volta, há uma integração
entre classes sociais. É um negócio 'família'.",
disse o arquiteto paulista Ricardo Julião, que chegou em
seu Cessna Skylane, de 600.000 reais.
"Avião é a minha caminhonete", diz o pecuarista Carlos
Eduardo Ribeiro do Valle, que também tem um Skylane. Dono
de fazendas em Mato Grosso e no Pará, com um barco de pesca
no Araguaia, ele igualmente se empolgou com o Cirrus. "Eu vou comprar
esse daí. O avião tem um pára-quedas acoplado.
Se houver algum problema, é só apertar um botão
e a gente é ejetado para fora", diz ele, que sobreviveu a
um acidente de avião. "Olhe, avião é coisa
simples, é modo de vida, não é frescura. É
necessidade."
Um de seus filhos, financista em Wall Street,
pilota planadores quando vai para os Hamptons, o balneário
elegante dos nova-iorquinos. O outro é piloto da empresa
de táxi aéreo da Camargo Corrêa. Entre uma pirueta
de avião e outra, os convidados vip eram agraciados com alguns
brindes. Pelo menos 300 deles, como o pecuarista Lélio Ravagnani
(enteado da apresentadora Hebe Camargo) e sua mulher, Ana Cristina,
e os pilotos octogenários da esquadra Senta a Pua, que participaram
da luta contra os nazistas na II Guerra, ganharam jaquetas de couro
confeccionadas pela Daslu, a rica loja paulistana. Cada uma custou
2.000 reais. Para a galera, foram sorteados
prêmios mais baratos, como ingressos para shows e poltronas
das Casas Bahia.
Claudio Rossi
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| O empresário Paulo Setúbal: vips ganharam
jaqueta de 2 000 reais |
"Dizem que manter um avião é
tão caro como manter uma amante. Só que dá
menos trabalho", brincava o empresário Randolph Haynes, diretor
da empresa de eventos Alcântara Machado, que circulou nos
três dias da festa fotografando tudo. Ele e a mulher, Alice,
costumam viajar para os Estados Unidos pilotando o próprio
avião, um bimotor pressurizado Beech Bonanza. "Ele me leva
sempre para jogar golfe em algum lugar. Para compensar, eu o acompanho
nesses eventos aeronáuticos", diz Alice. As famílias
Setúbal e Ermírio de Moraes, epítomes da riqueza
brasileira, também marcaram presença. O todo-poderoso
presidente da Duratex e da Itautec Philco, Paulo Setúbal,
e seu irmão Olavo Setúbal Júnior, da Itaú
Seguros, tiravam fotos e comentavam as manobras aéreas. Paulo
demonstrava como funcionam alguns dos aparelhos vendidos no estande
da Itautec. "É um evento importante para fazer business,
popularizar a aviação e resgatar a imagem do Exército.
É restrito? É, mas e daí? Tudo o que se faz
tem de ter uma razão descomunal?", diz ele, que chegou no
jato da Camargo Corrêa. "Olhe que espetáculo. Isso
é uma maravilha!", não se cansava de repetir José
Ermírio de Moraes Neto, sobrinho de Antônio Ermírio
e presidente do banco Votorantim. José chegou de helicóptero.
Claudio Rossi
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| Beatriz e a mãe, Renata Machado: discussões
acaloradas sobre a Daslu |
Aliás, essas aeronaves de asas móveis eram motivo
de acalorada discussão. "Aviãozinho não é
caro. Qualquer um pode ter. Você compra um por 100.000
dólares. Agora, helicóptero é só para
quem tem bala na agulha. Helicóptero bom vale, no mínimo,
1 milhão de dólares", dizia o empresário André
Massini, no estande do Cirrus. No grupo de mulheres presentes (a
maioria vestida com coletes e jaquetinhas com pele no pescoço)
só havia dois assuntos. O primeiro girava em torno de dietas
e, em especial, sobre os métodos de emagrecimento do endocrinologista
Mauricio Hirata, o novo darling das socialites paulistanas. Hirata
tem sempre uma dezena de seguranças em seu consultório
para evitar o eventual seqüestro de alguma cliente vip. A socialite
Ana Maria Velloso desfilava o corpinho 20 quilos mais enxuto graças
a Hirata. O outro assunto era mais polêmico. As opiniões
se dividiam sobre "o que será feito da Daslu?". Algumas mulheres
diziam que a butique corre o risco de se popularizar depois de mudar
para um prédio de cinco andares. A empresária Renata
Alcântara Machado comentava sobre o destino da butique com
a filha Beatriz Parente. "Parece que elas querem se tornar tipo
uma Saks (a cara loja de departamentos de Nova York). Podem
pegar um público diferente. Ainda não se sabe", afirma.
Ser um "com jatinho" é, sobretudo,
não considerar a hipótese de percorrer de carro distâncias
maiores que 100 quilômetros. A socialite Regina Velloso, casada
com o empresário Inácio Moraes, que tem um Piper Seneca
IV de 1 milhão de reais, explica: "Time is money,
não dá para gastar tempo no trânsito. Além
do mais, tem a questão da violência. No avião,
não te assaltam, não te roubam". Há outras
vantagens. "Não dá para pensar em se locomover como
se estivéssemos na idade da pedra. Avião é
natural", diz a empresária Silvia Kraljevic, casada com Jorge
Kraljevic, do ramo de construção civil. Os publicitários
Nelson Biondi e sua mulher, Silvana Tinelli, que têm uma propriedade
a 30 quilômetros da fazenda de Botelho, chegaram de helicóptero.
O turboélice Beech King Air 350 (um novo custa 12 milhões
de reais) ficou estacionado na fazenda. "A coisa se popularizou
na elite de certa maneira porque ninguém tem jatinho pessoa
física. É tudo pessoa jurídica. Então,
as empresas compram e os proprietários usam", diz o consultor
Paulo Rivetti, que deixou em São Paulo o seu FK9, um avião
ultraleve avançado.
Com tanta visibilidade em torno do evento,
as questões de segurança, uma preocupação
essencial na vida de Fernando Botelho, foram deixadas de lado. "Não
ficamos pensando em violência ou em invasão de Movimento
dos Sem-Terra. Se tiver alguma coisa, a gente chama a polícia.
O que estamos fazendo é ajudar o Brasil. É uma estupidez
criticar. Para fazer isto aqui, gerei 600 empregos, os hotéis
da região ficaram lotados, os restaurantes cheios. As pessoas
têm de falar menos e fazer mais. É isso o que eu faço",
diz Botelho. É o sexto ano em que ele e o grupo dos "com
jatinho" se reúnem às vésperas de seu aniversário.
A idéia é fazer do evento algo ainda maior nos próximos
anos. "Queremos transformar este encontro no maior da América
Latina", diz. No entanto, o público esperado pela família
Botelho neste ano era muito maior. "Muita gente não veio
porque ficou com medo do controle do DAC. É o primeiro ano
em que eles verificaram toda a documentação, viram
se os impostos estavam pagos em dia, estipularam horários
rígidos para pouso e decolagem das aeronaves", afirma o empresário
Dimas de Melo Pimenta II, herdeiro da tradicional empresa paulista
Dimep, que fabrica catracas eletrônicas. Ele veio de helicóptero.
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