Edição 1858 . 16 de junho de 2004

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Sociedade
Voar, emagrecer e comprar...

A festa dos "com jatinho" no interior
de São Paulo foi um luxo e teve gente
de todas as classes


Daniela Pinheiro, de Itirapina


Claudio Rossi
O casal Rosana e Fernando: "É uma estupidez criticar o que fizemos"

Um dos maiores grupos empresariais brasileiros, que faturou cerca de 7,5 bilhões de reais no ano passado, a empreiteira Camargo Corrêa se notabilizou por ter tocado algumas das maiores obras públicas do país. Depois da morte do fundador Sebastião Camargo, há dez anos, passou a ser administrada pelos três genros, já que as filhas Rosana, Renata e Regina nunca quiseram se envolver no negócio. A família, discretíssima, sempre fugiu de badalações. Até agora. Nas últimas semanas, os holofotes iluminaram o estilo de vida de um dos genros, Fernando de Arruda Botelho, vice-presidente da holding, e de seus amigos endinheirados que compõem o clube dos "com jatinho" brasileiro. Na semana passada, Botelho armou um dos maiores espetáculos aéreos (e terrestres) de que se tem notícia para comemorar seu aniversário de 56 anos. Em sua fazenda, recebeu 300 aeronaves e 8.500 pessoas – entre proprietários de jatos e helicópteros e amantes da aviação – em uma festa memorável que custou 1,5 milhão de reais.

Homem de hábitos refinados, ele costuma caçar nos Alpes austríacos e esquiar nos Alpes franceses. Botelho é casado há 29 anos com Rosana, com quem tem três filhos. Sempre foi um obcecado por aeronaves. Para a festa, mandou construir em uma das fazendas da família, a 200 quilômetros de São Paulo, uma pista de pouso de 1.200 metros, arquibancadas para 2.500 pessoas, estacionamento para 1.000 automóveis e uma praça de alimentação como as de shopping centers. Duas potentes antenas foram providenciadas para que os convidados pudessem usar seus celulares. Dez controladores de vôo, cedidos pelo Departamento de Aviação Civil, cuidaram da orientação dos aviões sobre a fazenda. A Esquadrilha da Fumaça exibiu-se com o brilho de sempre. Houve show de pára-quedismo, de caças da Força Aérea Brasileira e tiros de artilharia foram disparados de tanques, enquanto um ator fantasiado de Santos Dumont (cachê de 2.000 reais) circulava entre os presentes. Botelho fez questão de convidar funcionários da empresa e a população das cidades vizinhas.


Claudio Rossi
A fazenda dos donos da Camargo Corrêa: três dias de comemoração ao custo de 1,5 milhão de reais

A festa teve patrocinadores que investiram um total de 700.000 reais e ganharam o direito de montar cerca de quatro dezenas de estandes para vender seus produtos aos convidados. Na feirinha negociaram-se relógios de 4.000 reais, e até dois aviões Cirrus, feitos nos Estados Unidos, foram vendidos durante a festa. Eles custaram 700.000 reais cada um. "Estou achando o máximo. Esse evento tem um cunho social importante. Olhe em volta, há uma integração entre classes sociais. É um negócio 'família'.", disse o arquiteto paulista Ricardo Julião, que chegou em seu Cessna Skylane, de 600.000 reais. "Avião é a minha caminhonete", diz o pecuarista Carlos Eduardo Ribeiro do Valle, que também tem um Skylane. Dono de fazendas em Mato Grosso e no Pará, com um barco de pesca no Araguaia, ele igualmente se empolgou com o Cirrus. "Eu vou comprar esse daí. O avião tem um pára-quedas acoplado. Se houver algum problema, é só apertar um botão e a gente é ejetado para fora", diz ele, que sobreviveu a um acidente de avião. "Olhe, avião é coisa simples, é modo de vida, não é frescura. É necessidade."

Um de seus filhos, financista em Wall Street, pilota planadores quando vai para os Hamptons, o balneário elegante dos nova-iorquinos. O outro é piloto da empresa de táxi aéreo da Camargo Corrêa. Entre uma pirueta de avião e outra, os convidados vip eram agraciados com alguns brindes. Pelo menos 300 deles, como o pecuarista Lélio Ravagnani (enteado da apresentadora Hebe Camargo) e sua mulher, Ana Cristina, e os pilotos octogenários da esquadra Senta a Pua, que participaram da luta contra os nazistas na II Guerra, ganharam jaquetas de couro confeccionadas pela Daslu, a rica loja paulistana. Cada uma custou 2.000 reais. Para a galera, foram sorteados prêmios mais baratos, como ingressos para shows e poltronas das Casas Bahia.


Claudio Rossi
O empresário Paulo Setúbal: vips ganharam jaqueta de 2 000 reais

"Dizem que manter um avião é tão caro como manter uma amante. Só que dá menos trabalho", brincava o empresário Randolph Haynes, diretor da empresa de eventos Alcântara Machado, que circulou nos três dias da festa fotografando tudo. Ele e a mulher, Alice, costumam viajar para os Estados Unidos pilotando o próprio avião, um bimotor pressurizado Beech Bonanza. "Ele me leva sempre para jogar golfe em algum lugar. Para compensar, eu o acompanho nesses eventos aeronáuticos", diz Alice. As famílias Setúbal e Ermírio de Moraes, epítomes da riqueza brasileira, também marcaram presença. O todo-poderoso presidente da Duratex e da Itautec Philco, Paulo Setúbal, e seu irmão Olavo Setúbal Júnior, da Itaú Seguros, tiravam fotos e comentavam as manobras aéreas. Paulo demonstrava como funcionam alguns dos aparelhos vendidos no estande da Itautec. "É um evento importante para fazer business, popularizar a aviação e resgatar a imagem do Exército. É restrito? É, mas e daí? Tudo o que se faz tem de ter uma razão descomunal?", diz ele, que chegou no jato da Camargo Corrêa. "Olhe que espetáculo. Isso é uma maravilha!", não se cansava de repetir José Ermírio de Moraes Neto, sobrinho de Antônio Ermírio e presidente do banco Votorantim. José chegou de helicóptero.

Claudio Rossi
Beatriz e a mãe, Renata Machado: discussões acaloradas sobre a Daslu


Aliás, essas aeronaves de asas móveis eram motivo de acalorada discussão. "Aviãozinho não é caro. Qualquer um pode ter. Você compra um por 100.000 dólares. Agora, helicóptero é só para quem tem bala na agulha. Helicóptero bom vale, no mínimo, 1 milhão de dólares", dizia o empresário André Massini, no estande do Cirrus. No grupo de mulheres presentes (a maioria vestida com coletes e jaquetinhas com pele no pescoço) só havia dois assuntos. O primeiro girava em torno de dietas e, em especial, sobre os métodos de emagrecimento do endocrinologista Mauricio Hirata, o novo darling das socialites paulistanas. Hirata tem sempre uma dezena de seguranças em seu consultório para evitar o eventual seqüestro de alguma cliente vip. A socialite Ana Maria Velloso desfilava o corpinho 20 quilos mais enxuto graças a Hirata. O outro assunto era mais polêmico. As opiniões se dividiam sobre "o que será feito da Daslu?". Algumas mulheres diziam que a butique corre o risco de se popularizar depois de mudar para um prédio de cinco andares. A empresária Renata Alcântara Machado comentava sobre o destino da butique com a filha Beatriz Parente. "Parece que elas querem se tornar tipo uma Saks (a cara loja de departamentos de Nova York). Podem pegar um público diferente. Ainda não se sabe", afirma.

Ser um "com jatinho" é, sobretudo, não considerar a hipótese de percorrer de carro distâncias maiores que 100 quilômetros. A socialite Regina Velloso, casada com o empresário Inácio Moraes, que tem um Piper Seneca IV de 1 milhão de reais, explica: "Time is money, não dá para gastar tempo no trânsito. Além do mais, tem a questão da violência. No avião, não te assaltam, não te roubam". Há outras vantagens. "Não dá para pensar em se locomover como se estivéssemos na idade da pedra. Avião é natural", diz a empresária Silvia Kraljevic, casada com Jorge Kraljevic, do ramo de construção civil. Os publicitários Nelson Biondi e sua mulher, Silvana Tinelli, que têm uma propriedade a 30 quilômetros da fazenda de Botelho, chegaram de helicóptero. O turboélice Beech King Air 350 (um novo custa 12 milhões de reais) ficou estacionado na fazenda. "A coisa se popularizou na elite de certa maneira porque ninguém tem jatinho pessoa física. É tudo pessoa jurídica. Então, as empresas compram e os proprietários usam", diz o consultor Paulo Rivetti, que deixou em São Paulo o seu FK9, um avião ultraleve avançado.

Com tanta visibilidade em torno do evento, as questões de segurança, uma preocupação essencial na vida de Fernando Botelho, foram deixadas de lado. "Não ficamos pensando em violência ou em invasão de Movimento dos Sem-Terra. Se tiver alguma coisa, a gente chama a polícia. O que estamos fazendo é ajudar o Brasil. É uma estupidez criticar. Para fazer isto aqui, gerei 600 empregos, os hotéis da região ficaram lotados, os restaurantes cheios. As pessoas têm de falar menos e fazer mais. É isso o que eu faço", diz Botelho. É o sexto ano em que ele e o grupo dos "com jatinho" se reúnem às vésperas de seu aniversário. A idéia é fazer do evento algo ainda maior nos próximos anos. "Queremos transformar este encontro no maior da América Latina", diz. No entanto, o público esperado pela família Botelho neste ano era muito maior. "Muita gente não veio porque ficou com medo do controle do DAC. É o primeiro ano em que eles verificaram toda a documentação, viram se os impostos estavam pagos em dia, estipularam horários rígidos para pouso e decolagem das aeronaves", afirma o empresário Dimas de Melo Pimenta II, herdeiro da tradicional empresa paulista Dimep, que fabrica catracas eletrônicas. Ele veio de helicóptero.

 
 
 
 
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