Edição 1858 . 16 de junho de 2004

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A meta é chegar
a 10 000 vitórias

Pouco conhecido no Brasil, J. Ricardo
é o jóquei, em atividade, com o maior
número de triunfos no mundo


Marcelo Carneiro

Selmy Yassuda
J. Ricardo, o campeão: mais de 8 700 vitórias, um recorde duro de ser batido


Jorge Antônio Ricardo é um atleta de ponta. Há quase trinta anos, lida com uma rotina extenuante. Acorda às 5h30 da manhã e, em média três vezes por semana, corre 10 quilômetros em cerca de quarenta minutos. Ainda enfrenta uma rigorosa dieta, para que a balança nunca registre mais de 54 quilos em um corpo de 1,61 metro, e não sabe o que é passar um fim de semana inteiro com a família. Graças a esse esforço, tornou-se um dos três melhores do mundo em seu esporte, ganhando fama fora das fronteiras brasileiras. No Brasil, o jóquei carioca J. Ricardo, o Ricardinho, é quase um herói anônimo, uma estrela incógnita no país de Ronaldinho, Guga e Daiane. O mais impressionante é que suas conquistas o transformaram no jóquei em atividade com o maior número de vitórias no mundo. São 8.734 primeiros lugares em hipódromos do Brasil e do exterior. Na história do esporte, só dois jóqueis ultrapassaram essa marca. Um morreu e o outro aposentou-se. Entre os especialistas do turfe, dá-se como certo que, no máximo em três anos, Ricardinho se tornará o jóquei recordista em primeiros lugares no mundo, coroando uma carreira pontuada por inúmeras façanhas, na maioria desconhecidas do grande público.

O pai de J. Ricardo foi um dos grandes de sua atividade. Aos 14 anos, Ricardinho já podia ser encontrado no Hipódromo da Gávea, no Rio de Janeiro, montado em animais de meia tonelada e capazes de correr até 75 quilômetros por hora. Em seu primeiro ano, 1976, ficou em trigésimo lugar no ranking dos profissionais com maior número de vitórias. No ano seguinte, pulou para o quarto lugar, depois terceiro e segundo. Em 1982, tornou-se o líder das estatísticas, como o jargão do turfe designa os campeões da temporada. De lá para cá, ninguém conseguiu superá-lo. São 22 anos seguidos como primeiro colocado. O que torna o feito de J. Ricardo ainda mais surpreendente é que hoje ele tem 42 anos, e seus principais adversários nas pistas são atletas com quase a metade de sua idade.

O que também faz de Ricardinho um jóquei especial é uma obstinação ferrenha, cujo melhor paralelo talvez seja outro ídolo das pistas, só que da Fórmula 1: Ayrton Senna. Como Senna, J. Ricardo odeia perder. Disputa praticamente todas as provas que acontecem no Hipódromo da Gávea e é capaz de passar as tardes assistindo a tapes de corridas anteriores de cavalos e jóqueis adversários. Pelo menos dois dias durante a semana, J. Ricardo sobe até a região serrana do Estado para, longe da mulher – está no terceiro casamento – e dos dois filhos, selecionar e treinar os animais com os quais disputará os próximos páreos. É considerado um jóquei leal, mas competitivo ao extremo. Há três semanas, quando se preparava para montar, no Centro de Treinamento Vale do Itajara, ouviu o comentário de um treinador sobre outro jóquei de qualidade, que vinha tendo bons desempenhos e dizia saber "ler a alma dos cavalos". Reagiu, sem piedade: "Ele lê a alma dos cavalos? Sei... O que existe é fase, e isso passa".

No caso de J. Ricardo, a fase está demorando para passar, principalmente por sua vontade de continuar correndo, e vencendo. Se quisesse, J. Ricardo poderia aposentar-se. Hoje, estima-se que, entre prêmios e contratos de montaria, ganhe cerca de 200.000 reais por ano. Tem um patrimônio que inclui uma cobertura na Gávea, bairro da Zona Sul do Rio, próxima ao hipódromo, e outros dois apartamentos em nome dos filhos de 8 e 12 anos, além de uma pequena frota de carros importados. Porém, nem o maior temor de um jóquei, a queda, tira sua disposição. O turfe é um esporte perigoso. Ricardinho já sofreu fraturas em vários ossos – clavícula, rádio, omoplata, úmero, costela e falanges dos dedos dos pés e das mãos –, além de um corte profundo no braço esquerdo e lesões no nervo ciático. Mas um número mágico o motiva a seguir em frente: 10.000 vitórias. Nenhum outro jóquei conseguiu chegar lá. Em toda a história do turfe, apenas quatro profissionais ultrapassaram a barreira de 8.000 primeiros lugares, e Ricardinho é um deles. "Por qualquer ângulo que se veja, seu desempenho é impressionante", escreveu em seu site o jornalista inglês Nick Higgins, um dos maiores especialistas em turfe no mundo.

 

 

 
 
 
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