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Perfil
A meta é chegar
a 10 000 vitórias
Pouco conhecido no Brasil, J. Ricardo
é o jóquei, em atividade, com o maior
número de triunfos no mundo

Marcelo Carneiro
Selmy Yassuda
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| J. Ricardo, o campeão: mais de 8 700 vitórias,
um recorde duro de ser batido |
Jorge Antônio Ricardo é um atleta de ponta. Há
quase trinta anos, lida com uma rotina extenuante. Acorda às
5h30 da manhã e, em média três vezes por semana,
corre 10 quilômetros em cerca de quarenta minutos. Ainda enfrenta
uma rigorosa dieta, para que a balança nunca registre mais
de 54 quilos em um corpo de 1,61 metro, e não sabe o que
é passar um fim de semana inteiro com a família. Graças
a esse esforço, tornou-se um dos três melhores do mundo
em seu esporte, ganhando fama fora das fronteiras brasileiras. No
Brasil, o jóquei carioca J. Ricardo, o Ricardinho, é
quase um herói anônimo, uma estrela incógnita
no país de Ronaldinho, Guga e Daiane. O mais impressionante
é que suas conquistas o transformaram no jóquei em
atividade com o maior número de vitórias no mundo.
São 8.734 primeiros lugares em
hipódromos do Brasil e do exterior. Na história do
esporte, só dois jóqueis ultrapassaram essa marca.
Um morreu e o outro aposentou-se. Entre os especialistas do turfe,
dá-se como certo que, no máximo em três anos,
Ricardinho se tornará o jóquei recordista em primeiros
lugares no mundo, coroando uma carreira pontuada por inúmeras
façanhas, na maioria desconhecidas do grande público.
O pai de J. Ricardo foi um dos
grandes de sua atividade. Aos 14 anos, Ricardinho já podia
ser encontrado no Hipódromo da Gávea, no Rio de Janeiro,
montado em animais de meia tonelada e capazes de correr até
75 quilômetros por hora. Em seu primeiro ano, 1976, ficou
em trigésimo lugar no ranking dos profissionais com maior
número de vitórias. No ano seguinte, pulou para o
quarto lugar, depois terceiro e segundo. Em 1982, tornou-se o líder
das estatísticas, como o jargão do turfe designa os
campeões da temporada. De lá para cá, ninguém
conseguiu superá-lo. São 22 anos seguidos como primeiro
colocado. O que torna o feito de J. Ricardo ainda mais surpreendente
é que hoje ele tem 42 anos, e seus principais adversários
nas pistas são atletas com quase a metade de sua idade.
O que também faz de Ricardinho
um jóquei especial é uma obstinação
ferrenha, cujo melhor paralelo talvez seja outro ídolo das
pistas, só que da Fórmula 1: Ayrton Senna. Como Senna,
J. Ricardo odeia perder. Disputa praticamente todas as provas que
acontecem no Hipódromo da Gávea e é capaz de
passar as tardes assistindo a tapes de corridas anteriores de cavalos
e jóqueis adversários. Pelo menos dois dias durante
a semana, J. Ricardo sobe até a região serrana do
Estado para, longe da mulher está no terceiro casamento
e dos dois filhos, selecionar e treinar os animais com os
quais disputará os próximos páreos. É
considerado um jóquei leal, mas competitivo ao extremo. Há
três semanas, quando se preparava para montar, no Centro de
Treinamento Vale do Itajara, ouviu o comentário de um treinador
sobre outro jóquei de qualidade, que vinha tendo bons desempenhos
e dizia saber "ler a alma dos cavalos". Reagiu, sem piedade: "Ele
lê a alma dos cavalos? Sei... O que existe é fase,
e isso passa".
No caso de J. Ricardo, a fase
está demorando para passar, principalmente por sua vontade
de continuar correndo, e vencendo. Se quisesse, J. Ricardo poderia
aposentar-se. Hoje, estima-se que, entre prêmios e contratos
de montaria, ganhe cerca de 200.000 reais
por ano. Tem um patrimônio que inclui uma cobertura na Gávea,
bairro da Zona Sul do Rio, próxima ao hipódromo, e
outros dois apartamentos em nome dos filhos de 8 e 12 anos, além
de uma pequena frota de carros importados. Porém, nem o maior
temor de um jóquei, a queda, tira sua disposição.
O turfe é um esporte perigoso. Ricardinho já sofreu
fraturas em vários ossos clavícula, rádio,
omoplata, úmero, costela e falanges dos dedos dos pés
e das mãos , além de um corte profundo no braço
esquerdo e lesões no nervo ciático. Mas um número
mágico o motiva a seguir em frente: 10.000
vitórias. Nenhum outro jóquei conseguiu chegar lá.
Em toda a história do turfe, apenas quatro profissionais
ultrapassaram a barreira de 8.000 primeiros
lugares, e Ricardinho é um deles. "Por qualquer ângulo
que se veja, seu desempenho é impressionante", escreveu em
seu site o jornalista inglês Nick Higgins, um dos maiores
especialistas em turfe no mundo.
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