Edição 1858 . 16 de junho de 2004

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História
O coração do pequeno príncipe

Abandonado numa prisão infecta
aos 10 anos, Luís XVII, ou o único
órgão que restou dele, finalmente
descansa em paz


Gustavo Poloni

 
Fotos AP
Luís XVII e seu coração petrificado: autenticidade comprovada por exame de DNA e enterro após 209 anos

Quando os revolucionários franceses mandaram à guilhotina o rei Luís XVI e a rainha Maria Antonieta, em 1792, o herdeiro presuntivo do trono teve um destino ainda mais tenebroso. Com apenas 10 anos, aquele que seria o rei Luís XVII foi confinado numa solitária escura. Abandonado à própria sorte, teve o corpo devastado por tumores e pela sarna e finalmente morreu tuberculoso, em 1795. Na semana passada, o que restou dele – seu coração petrificado – finalmente foi alvo de uma cerimônia fúnebre digna da nobreza. Com a presença de descendentes do clã Bourbon e membros das casas reais européias, o órgão foi sepultado ao lado do túmulo de seus pais, na Basílica de Saint-Denis, ao norte de Paris. Foi a escala final de uma conturbada trajetória do coração do pequeno príncipe através dos séculos.

Após a morte do menino, seguindo um procedimento usual entre a aristocracia francesa, o médico encarregado da autópsia separou o coração e o guardou numa solução alcoólica. O conteúdo do vidro chamou a atenção de um discípulo do legista, que não resistiu à tentação de furtá-lo e guardá-lo como lembrança. O que aconteceu depois não é bem claro. Sabe-se que o vidro contendo o coração viajou pela Europa e passou por várias mãos, entre elas as da família real espanhola. Em 1975, o vasilhame foi enviado de volta à França, onde permaneceu guardado na Basílica de Saint-Denis e identificado apenas como "o coração do menino que morreu na cadeia". Tudo isso deu origem a uma série de lendas que contavam diferentes versões da morte de Luís XVII. Monarquistas afirmavam que ele havia fugido de sua cela, deixando para trás o corpo de outro menino em estado terminal. Quando a monarquia foi restaurada, em 1814, dezenas de pessoas se apresentaram como sendo herdeiros do trono.

A confusão só foi esclarecida há quatro anos, por meio daquela que se tornou uma das mais notáveis ferramentas da medicina moderna: o teste de DNA. Na época, um grupo de cientistas usou um fio de cabelo da rainha Maria Antonieta, preservado em seu túmulo, para comprovar a autenticidade do coração atribuído a seu filho. Por meio da estrutura do código genético dos seres vivos, revelada pelos cientistas pela primeira vez há 51 anos, hoje é possível determinar laços familiares com 99,9% de precisão – e, como se vê, esclarecer mistérios históricos. Foi também através de um exame genético que se identificaram os restos mortais de Nicolau II, o último czar russo, da dinastia Romanov. Ele foi fuzilado junto com sua família – esposa e cinco filhos – em 1918, pelos bolcheviques, durante a Revolução Russa. Os corpos ficaram desaparecidos por mais de cinqüenta anos. Foram encontrados em Ekaterinburgo, na região dos Montes Urais. Como no caso de Luís XVII, durante o tempo em que os corpos andaram sumidos, surgiram lendas dando conta de que os herdeiros Alexei e Anastasia teriam sobrevivido à chacina. O caso foi esclarecido apenas em 1998, quando um exame de DNA comprovou que o conjunto de ossadas era mesmo da família Romanov. Elas foram enterradas num mausoléu em São Petersburgo, antiga capital imperial, com direito a guarda de honra e discurso do então presidente russo, Boris Ieltsin.

Exames genéticos estão sendo usados para definir o local onde o navegador Cristóvão Colombo está enterrado. O genovês que descobriu a América e viajou por tantos mares morreu no dia 20 de maio de 1506, na Espanha. Em seu testamento, expressou o desejo de ser enterrado na Ilha de Hispaniola, onde hoje fica a República Dominicana, ao lado de seu filho Diego. Assim foi feito. A história começou a se complicar em 1795, quando os franceses assumiram o controle da ilha e expulsaram os espanhóis. Estes levaram os restos mortais de Colombo para Cuba, onde foram enterrados. Cem anos depois, os espanhóis foram expulsos também dessa ilha. A urna contendo a ossada do navegador foi então levada para a Espanha e colocada na catedral gótica de Santa Maria, em Sevilha. Ou pelo menos é o que pensam os espanhóis. Autoridades dominicanas dizem que Cristóvão Colombo continua enterrado por lá. Segundo elas, na correria, os espanhóis acabaram levando a urna errada – a que abriga Diego Colombo. Exames de DNA estão sendo feitos nos dois locais. Em breve será conhecida a verdade sobre o destino do navegador.

No caso de Luís XVII, da família Romanov e, agora, de Colombo, tratava-se de provar a autenticidade das ossadas. Muitas vezes membros e órgãos são preservados para estudos científicos. O cérebro do físico Albert Einstein, por exemplo, continua sendo examinado por pesquisadores americanos que querem entender de onde vinha sua genialidade. Quando morreu, em 1955, nos Estados Unidos, Einstein teve o cérebro retirado pelo legista Thomas Harvey, da Universidade Princeton, que passou a estudá-lo ao lado da professora canadense Sandra Witelson. As conclusões são interessantes. Os médicos perceberam que o tamanho do cérebro é convencional, com exceção da região do lobo parietal inferior, responsável pelo processamento matemático e pela concepção espacial, que é dilatado. Além disso, o cérebro não tem os sulcos que separam as duas porções dessa região, o que teoricamente facilitaria a comunicação entre os neurônios. Por isso, Einstein seria capaz de raciocinar de forma mais eficiente e inovadora. Muitas vezes os restos mortais insepultos de gente importante em seu tempo acabam por lançar luzes sobre a história e a ciência.

 
 
 
 
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