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História
O coração do pequeno príncipe
Abandonado numa prisão infecta
aos 10 anos, Luís XVII, ou o único
órgão que restou dele, finalmente
descansa em paz

Gustavo Poloni
Fotos AP
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| Luís XVII e seu coração petrificado:
autenticidade comprovada por exame de DNA e enterro após 209
anos |
Quando os revolucionários
franceses mandaram à guilhotina o rei Luís XVI e a
rainha Maria Antonieta, em 1792, o herdeiro presuntivo do trono
teve um destino ainda mais tenebroso. Com apenas 10 anos, aquele
que seria o rei Luís XVII foi confinado numa solitária
escura. Abandonado à própria sorte, teve o corpo devastado
por tumores e pela sarna e finalmente morreu tuberculoso, em 1795.
Na semana passada, o que restou dele seu coração
petrificado finalmente foi alvo de uma cerimônia fúnebre
digna da nobreza. Com a presença de descendentes do clã
Bourbon e membros das casas reais européias, o órgão
foi sepultado ao lado do túmulo de seus pais, na Basílica
de Saint-Denis, ao norte de Paris. Foi a escala final de uma conturbada
trajetória do coração do pequeno príncipe
através dos séculos.
Após a morte do menino, seguindo um
procedimento usual entre a aristocracia francesa, o médico
encarregado da autópsia separou o coração e
o guardou numa solução alcoólica. O conteúdo
do vidro chamou a atenção de um discípulo do
legista, que não resistiu à tentação
de furtá-lo e guardá-lo como lembrança. O que
aconteceu depois não é bem claro. Sabe-se que o vidro
contendo o coração viajou pela Europa e passou por
várias mãos, entre elas as da família real
espanhola. Em 1975, o vasilhame foi enviado de volta à França,
onde permaneceu guardado na Basílica de Saint-Denis e identificado
apenas como "o coração do menino que morreu na cadeia".
Tudo isso deu origem a uma série de lendas que contavam diferentes
versões da morte de Luís XVII. Monarquistas afirmavam
que ele havia fugido de sua cela, deixando para trás o corpo
de outro menino em estado terminal. Quando a monarquia foi restaurada,
em 1814, dezenas de pessoas se apresentaram como sendo herdeiros
do trono.
A confusão só foi esclarecida
há quatro anos, por meio daquela que se tornou uma das mais
notáveis ferramentas da medicina moderna: o teste de DNA.
Na época, um grupo de cientistas usou um fio de cabelo da
rainha Maria Antonieta, preservado em seu túmulo, para comprovar
a autenticidade do coração atribuído a seu
filho. Por meio da estrutura do código genético dos
seres vivos, revelada pelos cientistas pela primeira vez há
51 anos, hoje é possível determinar laços familiares
com 99,9% de precisão e, como se vê, esclarecer
mistérios históricos. Foi também através
de um exame genético que se identificaram os restos mortais
de Nicolau II, o último czar russo, da dinastia Romanov.
Ele foi fuzilado junto com sua família esposa e cinco
filhos em 1918, pelos bolcheviques, durante a Revolução
Russa. Os corpos ficaram desaparecidos por mais de cinqüenta
anos. Foram encontrados em Ekaterinburgo, na região dos Montes
Urais. Como no caso de Luís XVII, durante o tempo em que
os corpos andaram sumidos, surgiram lendas dando conta de que os
herdeiros Alexei e Anastasia teriam sobrevivido à chacina.
O caso foi esclarecido apenas em 1998, quando um exame de DNA comprovou
que o conjunto de ossadas era mesmo da família Romanov. Elas
foram enterradas num mausoléu em São Petersburgo,
antiga capital imperial, com direito a guarda de honra e discurso
do então presidente russo, Boris Ieltsin.
Exames genéticos estão sendo
usados para definir o local onde o navegador Cristóvão
Colombo está enterrado. O genovês que descobriu a América
e viajou por tantos mares morreu no dia 20 de maio de 1506, na Espanha.
Em seu testamento, expressou o desejo de ser enterrado na Ilha de
Hispaniola, onde hoje fica a República Dominicana, ao lado
de seu filho Diego. Assim foi feito. A história começou
a se complicar em 1795, quando os franceses assumiram o controle
da ilha e expulsaram os espanhóis. Estes levaram os restos
mortais de Colombo para Cuba, onde foram enterrados. Cem anos depois,
os espanhóis foram expulsos também dessa ilha. A urna
contendo a ossada do navegador foi então levada para a Espanha
e colocada na catedral gótica de Santa Maria, em Sevilha.
Ou pelo menos é o que pensam os espanhóis. Autoridades
dominicanas dizem que Cristóvão Colombo continua enterrado
por lá. Segundo elas, na correria, os espanhóis acabaram
levando a urna errada a que abriga Diego Colombo. Exames
de DNA estão sendo feitos nos dois locais. Em breve será
conhecida a verdade sobre o destino do navegador.
No caso de Luís XVII, da família
Romanov e, agora, de Colombo, tratava-se de provar a autenticidade
das ossadas. Muitas vezes membros e órgãos são
preservados para estudos científicos. O cérebro do
físico Albert Einstein, por exemplo, continua sendo examinado
por pesquisadores americanos que querem entender de onde vinha sua
genialidade. Quando morreu, em 1955, nos Estados Unidos, Einstein
teve o cérebro retirado pelo legista Thomas Harvey, da Universidade
Princeton, que passou a estudá-lo ao lado da professora canadense
Sandra Witelson. As conclusões são interessantes.
Os médicos perceberam que o tamanho do cérebro é
convencional, com exceção da região do lobo
parietal inferior, responsável pelo processamento matemático
e pela concepção espacial, que é dilatado.
Além disso, o cérebro não tem os sulcos que
separam as duas porções dessa região, o que
teoricamente facilitaria a comunicação entre os neurônios.
Por isso, Einstein seria capaz de raciocinar de forma mais eficiente
e inovadora. Muitas vezes os restos mortais insepultos de gente
importante em seu tempo acabam por lançar luzes sobre a história
e a ciência.
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