Edição 1858 . 16 de junho de 2004

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Medicina
Mudança precoce

Garoto alemão é a pessoa mais jovem
a fazer tratamento para trocar de sexo


Diogo Schelp

Com que idade uma pessoa está madura o suficiente para concluir que o sexo que a natureza lhe deu não é o que ela gostaria de ter? Essa foi a questão apresentada a uma comissão de ética médica alemã que tomou uma decisão inédita: permitir que um garoto de 13 anos começasse a tomar hormônio feminino para ficar mais parecido com uma garota. Johanna, hoje com 14 anos, sente que nasceu no corpo errado. É a pessoa mais jovem de que se tem notícia a passar por um processo de mudança de sexo com o acompanhamento oficial de especialistas de uma instituição médica conceituada. Os primeiros efeitos das doze gotas diárias de estrógeno, o hormônio feminino que Johanna toma, já estão aparecendo. Os seios começaram a se desenvolver. Quando for adulta, ela poderá fazer uma cirurgia de mudança de sexo, através de uma técnica conhecida como transgenitalização. Então, a transformação de sua aparência será definitiva.

A ciência ainda não descobriu por que certas pessoas se sentem desconfortáveis com o próprio gênero sexual. "Estima-se que um em cada 30.000 homens e uma em cada 100.000 mulheres sintam, desde criança, que seu sexo biológico não condiz com seu sexo psicológico", diz a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas de São Paulo. Sabe-se que as pessoas que se definem como transexuais na idade adulta costumavam se comportar, na infância, como uma criança do sexo oposto. No jardim-de-infância, quando as professoras chamavam os meninos para alguma atividade, Johanna ficava sentada. Isso não significa que todo menino que se comporta como menina, ou vice-versa, seja transexual. É uma atitude que pode mudar na adolescência. No caso de Johanna, os médicos consideraram que as chances de isso acontecer eram mínimas.

Quando os primeiros sinais da puberdade masculina começaram a aparecer, aos 12 anos, Johanna entrou em pânico. Os psiquiatras do departamento de sexologia da Universidade de Hamburgo, que a atendiam, mandaram-na consultar um endocrinologista. Ele aplicou um remédio que bloqueou a produção de hormônios masculinos. Foi uma solução provisória, reversível. Uma comissão de ética, formada por psicólogos e médicos, foi reunida para discutir se deviam ou não tratar Johanna com hormônios femininos. Eles tiveram de pesar de um lado a possibilidade de ela estar cometendo um erro ao decidir, aos 13 anos, que pertencia ao outro sexo e, de outro, o pânico que tinha de ver a puberdade transformá-la definitivamente em homem. Não foi uma decisão fácil. "Chama atenção como ela quase não questiona sua decisão de mudar de sexo", diz o endocrinologista pediátrico Achim Wüsthof, que receitou as gotas de estrógeno para Johanna. "O que para mim parece uma situação extremamente complexa para ela é muito simples: ela se sente mulher, e ponto." No Brasil, a lei não permite que menores de idade façam cirurgia ou tratamento com hormônio para mudança de sexo.

 

 

 
 
 
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