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Medicina
Mudança precoce
Garoto alemão é a pessoa mais
jovem
a fazer tratamento para trocar de sexo

Diogo Schelp
Com que idade uma pessoa está madura
o suficiente para concluir que o sexo que a natureza lhe deu não
é o que ela gostaria de ter? Essa foi a questão apresentada
a uma comissão de ética médica alemã
que tomou uma decisão inédita: permitir que um garoto
de 13 anos começasse a tomar hormônio feminino para
ficar mais parecido com uma garota. Johanna, hoje com 14 anos, sente
que nasceu no corpo errado. É a pessoa mais jovem de que
se tem notícia a passar por um processo de mudança
de sexo com o acompanhamento oficial de especialistas de uma instituição
médica conceituada. Os primeiros efeitos das doze gotas diárias
de estrógeno, o hormônio feminino que Johanna toma,
já estão aparecendo. Os seios começaram a se
desenvolver. Quando for adulta, ela poderá fazer uma cirurgia
de mudança de sexo, através de uma técnica
conhecida como transgenitalização. Então, a
transformação de sua aparência será definitiva.
A ciência ainda não descobriu
por que certas pessoas se sentem desconfortáveis com o próprio
gênero sexual. "Estima-se que um em cada 30.000
homens e uma em cada 100.000 mulheres
sintam, desde criança, que seu sexo biológico não
condiz com seu sexo psicológico", diz a psiquiatra Carmita
Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas
de São Paulo. Sabe-se que as pessoas que se definem como
transexuais na idade adulta costumavam se comportar, na infância,
como uma criança do sexo oposto. No jardim-de-infância,
quando as professoras chamavam os meninos para alguma atividade,
Johanna ficava sentada. Isso não significa que todo menino
que se comporta como menina, ou vice-versa, seja transexual. É
uma atitude que pode mudar na adolescência. No caso de Johanna,
os médicos consideraram que as chances de isso acontecer
eram mínimas.
Quando os primeiros sinais da puberdade masculina
começaram a aparecer, aos 12 anos, Johanna entrou em pânico.
Os psiquiatras do departamento de sexologia da Universidade de Hamburgo,
que a atendiam, mandaram-na consultar um endocrinologista. Ele aplicou
um remédio que bloqueou a produção de hormônios
masculinos. Foi uma solução provisória, reversível.
Uma comissão de ética, formada por psicólogos
e médicos, foi reunida para discutir se deviam ou não
tratar Johanna com hormônios femininos. Eles tiveram de pesar
de um lado a possibilidade de ela estar cometendo um erro ao decidir,
aos 13 anos, que pertencia ao outro sexo e, de outro, o pânico
que tinha de ver a puberdade transformá-la definitivamente
em homem. Não foi uma decisão fácil. "Chama
atenção como ela quase não questiona sua decisão
de mudar de sexo", diz o endocrinologista pediátrico Achim
Wüsthof, que receitou as gotas de estrógeno para Johanna.
"O que para mim parece uma situação extremamente complexa
para ela é muito simples: ela se sente mulher, e ponto."
No Brasil, a lei não permite que menores de idade façam
cirurgia ou tratamento com hormônio para mudança de
sexo.
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