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Estados Unidos
O triunfo do senso comum
O Dia D foi o primeiro ato da Guerra Fria.
Reagan venceu-a valendo-se de dois
princípios simples: o comunismo é mau e os
governos mais atrapalham do que ajudam
AFP
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Reuters
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O mundo assistiu na semana passada a dois eventos
que trazem à lembrança o começo e o fim da
Guerra Fria, um dos períodos mais cínicos, sombrios,
complexos, sangrentos e pouco entendidos da história contemporânea.
As comemorações dos sessenta anos do Dia D, o desembarque
aliado na França na II Guerra Mundial, lembraram a derrocada
do nazismo. Pouco ou nada se falou de sua outra função
histórica, a de ter sido, na visão de muitos historiadores,
o começo da surda hostilidade entre o Ocidente e a União
Soviética, que duraria quase meio século. Quando os
aliados desembarcaram na Europa no dia 6 de junho de 1944, não
havia mais um único soldado alemão em território
soviético. Os alemães lutavam para defender sua pátria
do formidável contra-ataque soviético. A monumental
operação de guerra do Dia D visava chegar a Berlim,
claro, mas seu objetivo paralelo e não menos vital era cortar
o avanço soviético sobre a Europa, que parecia inevitável
depois que as divisões vermelhas esmagassem a resistência
nazista. Por essa razão, o desembarque na Normandia deve
ser também lembrado como o primeiro ato da Guerra Fria.
O enterro com honras de Estado dado ao ex-presidente
Ronald Reagan, morto nos Estados Unidos aos 93 anos, evocou a maior
conquista atribuída a ele, o nocaute econômico, tecnológico
e moral da União Soviética, que resultou na derrota
do comunismo e no conseqüente fim da Guerra Fria. Entre o Dia
D e a dissolução do mundo soviético, em dezembro
de 1991, passaram-se 47 anos. Durante esse tempo, o avanço
de regimes ditatoriais de orientação comunista em
seu afã de implementar à força suas mudanças
revolucionárias fez dezenas de milhões de vítimas.
"Como as árvores, as revoluções devem ser julgadas
por seus frutos", escreveu o sociólogo italiano Ignazio Silone,
coordenador de um extenso estudo levado a cabo por intelectuais
europeus sobre os custos em vidas humanas da implantação
do comunismo no mundo. O levantamento de Silone mostra que os frutos
da revolução comunista foram monstruosos. Líderes
comunistas mataram 25 milhões de pessoas na União
Soviética, 65 milhões na China e 1,7 milhão
no Camboja.
AFP
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NO TEMPO CERTO
Gorbachev e Reagan acertam os ponteiros.
O americano ficou com a glória de ter derrubado o comunismo,
e o russo, com a fama de pusilânime. Ambos sabiam que o regime
soviético já havia sido implodido |
Todas essas vítimas podem ser colocadas
na conta do "império do mal", como Reagan se dirigiu certa
vez à União Soviética? Obviamente, Josef Stalin
e outros líderes soviéticos não podem ser diretamente
responsabilizados pelo regime de terror na China e talvez nem mesmo
pelos do Camboja. Mas seus próprios 25 milhões de
vítimas são crimes suficientes para justificar a definição
dada por Reagan antes de seus encontros com Mikhail Gorbachev, o
último líder soviético. Ele nunca mais repetiu
o epíteto. Os pecados do comunismo são sobejamente
conhecidos e, felizmente, pertencem ao passado. A razão pela
qual se abriu fosso tão profundo entre o Ocidente capitalista
e o Leste comunista, porém, é pouco conhecida. Americanos
e ingleses lutaram lado a lado com os soldados da União Soviética,
todos empunhando as bandeiras da liberdade, do humanismo e da democracia
contra a barbárie nazista.
Depois da vitória aliada em 1945, em
poucos meses a simpatia pelo heroísmo soviético
único dos grandes aliados a ter sua pátria invadida
territorialmente pelas tropas de Hitler assumiu as feições
de uma pequena desconfiança. Em seguida instalou-se uma animosidade
de parte a parte. Pouco tempo depois o clima era de uma guerra sem
tiros. Ronald Reagan tinha 38 anos, em 1949, quando os soviéticos
testaram sua primeira bomba atômica, tirando dos americanos
a exclusividade da arma mais mortal já inventada e
congelando de vez as possibilidades de entendimento entre capitalistas
e comunistas. Os arsenais nucleares dos dois lados cresceram e em
pouco tempo eram suficientes para explodir o planeta Terra diversas
vezes. Essa situação de empate tétrico foi
definida pelos estrategistas com a sigla MAD, que em inglês
significa "destruição mútua assegurada". Mad
é louco, em inglês. Muito adequado para aqueles tempos.
Estudos mais recentes mostram que a desconfiança
ocidental com o comunismo soviético e dos soviéticos
em relação aos ocidentais começou bem
mais cedo. Os biógrafos de Winston Churchill, o inspirador
líder britânico durante a guerra, contam que já
em 1919 ele esquadrinhou o comunismo como o grande inimigo da civilização.
Churchill era ministro da Guerra quando os aliados, entre eles os
Estados Unidos e o Japão, enviaram tropas em uma intervenção
para tentar conter o levante bolchevique na Rússia. Mais
tarde, na II Guerra Mundial, Churchill não se surpreendeu
mas também não perdoou os soviéticos por terem
se aliado a Hitler e mantido com ele profícua relação
durante quase todos os dois anos iniciais da guerra. Foram exatos
22 meses de aliança nazi-comunista. Nesse período,
queixou-se Churchill, a Inglaterra era bombardeada por aviões
nazistas movidos a gasolina soviética.
Finda a II Guerra Mundial, Churchill foi o
primeiro grande líder ocidental a distinguir por trás
das muralhas do Kremlin o espírito "totalitário e
expansionista" do regime soviético. Em 1946, ele pronunciou
nos Estados Unidos talvez seu mais importante discurso, que entrou
para a história como o discurso da "Cortina de ferro". Diante
do presidente americano Harry Truman, em uma cerimônia no
Westminster College, em Fulton, no estado de Missouri, Churchill
descreveu a situação na Europa dividida ao meio pelo
avanço soviético sobre os países vizinhos:
"De Stetin, no Mar Báltico, a Trieste, no Adriático,
uma cortina de ferro desceu sobre o continente". Um ano depois,
em um documento igualmente célebre, George Kennan, então
embaixador americano em Moscou, publicou anonimamente um artigo
na revista Foreign Affairs assinado apenas por "X". No artigo,
Kennan pregava o fim da compreensão com Moscou e sugeria
fortemente aos líderes ocidentais que passassem a adotar
"uma política de contenção" de modo a impedir
o avanço da dominação soviética no mundo.
Filho de um imigrante irlandês alcoólatra,
cujo cadáver ele carregou do portão para a cama aos
11 anos de idade, Ronald Reagan fez sua avaliação
do comunismo sem nunca ter passado perto de algum escrito de Churchill
ou Kennan. Ele usou apenas o senso comum para, mais tarde, descrever
o comunismo como uma experiência "bizarra" e o regime soviético
como um sistema fadado a "implodir" pela simples razão de
que "meia dúzia de iluminados acha que pode planejar a economia
do país e decidir o que é bom para cada indivíduo".
Sábia constatação. Enquanto os soldados lutavam,
Churchill e Kennan pensavam, Reagan, ator de segunda, usava farda
apenas para fazer filmes de propaganda bélica. Mais tarde,
talvez já atacado pelo Alzheimer, doença que o acometeu
mais severamente aos 80 anos, Reagan dava como participação
real na guerra suas aparições nos filmes. Ele ficou
oito anos na Casa Branca. A princípio pedia resumos a seus
assessores. No segundo mandato, para despertar seu interesse por
algo era preciso fazer um vídeo sobre o assunto a ser tratado.
Diante das câmeras, nos palanques, nas festas e nos encontros
com outros mandatários, Reagan revelava um charme devastador.
Os saudosistas do comunismo acusam Gorbachev de ter se desmanchado
diante do poder de convencimento pessoal de Reagan. Pode ter ocorrido
isso mesmo. Eles se tornaram amigos. Mas a derrocada do comunismo
não deve ser atribuída à relação
pessoal dos dois governantes. Nem tampouco ao projeto de defesa
espacial contra mísseis, o Guerra nas Estrelas, com que Reagan
exauriu o orçamento soviético. O regime comunista
caiu porque como percebeu Churchill e Kennan pelo intelecto
e Reagan pelo senso comum o totalitarismo e o centralismo
econômico são péssimos alicerces.
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As tiradas do grande
comunicador
"O comunismo é
apenas mais um triste e bizarro capítulo na história
humana cujas últimas páginas continuam
ainda a ser escritas"
1981
"O que está
em jogo é se acreditamos na capacidade de nos
autogovernar ou se aceitamos que uma pequena elite intelectual
poderosa seja capaz de planejar nossas vidas melhor
do que nós mesmos"
1964, em discurso na televisão tentando salvar
a candidatura natimorta do republicano Barry Goldwater
"O governo não
é parte da solução. O governo é
o problema"
1981, no discurso de posse
"A coisa mais
próxima da vida eterna que temos na Terra é
um programa de governo"
1986
"É absurda
a noção de que só devemos exigir
a democratização de regimes de extrema
direita e não dos regimes comunistas. Aceitar
isso significa render-se ao argumento de que uma vez
que um país possua armas nucleares ele ganha
o direito de manter seus cidadãos sob um reinado
de terror. Eu rejeito isso"
1982, em dicurso ao Parlamento britânico
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