Edição 1858 . 16 de junho de 2004

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Estados Unidos
O triunfo do senso comum

O Dia D foi o primeiro ato da Guerra Fria.
Reagan venceu-a valendo-se de dois
princípios simples: o comunismo é mau e os
governos mais atrapalham do que ajudam

 
AFP
Reuters

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O mundo assistiu na semana passada a dois eventos que trazem à lembrança o começo e o fim da Guerra Fria, um dos períodos mais cínicos, sombrios, complexos, sangrentos e pouco entendidos da história contemporânea. As comemorações dos sessenta anos do Dia D, o desembarque aliado na França na II Guerra Mundial, lembraram a derrocada do nazismo. Pouco ou nada se falou de sua outra função histórica, a de ter sido, na visão de muitos historiadores, o começo da surda hostilidade entre o Ocidente e a União Soviética, que duraria quase meio século. Quando os aliados desembarcaram na Europa no dia 6 de junho de 1944, não havia mais um único soldado alemão em território soviético. Os alemães lutavam para defender sua pátria do formidável contra-ataque soviético. A monumental operação de guerra do Dia D visava chegar a Berlim, claro, mas seu objetivo paralelo e não menos vital era cortar o avanço soviético sobre a Europa, que parecia inevitável depois que as divisões vermelhas esmagassem a resistência nazista. Por essa razão, o desembarque na Normandia deve ser também lembrado como o primeiro ato da Guerra Fria.

O enterro com honras de Estado dado ao ex-presidente Ronald Reagan, morto nos Estados Unidos aos 93 anos, evocou a maior conquista atribuída a ele, o nocaute econômico, tecnológico e moral da União Soviética, que resultou na derrota do comunismo e no conseqüente fim da Guerra Fria. Entre o Dia D e a dissolução do mundo soviético, em dezembro de 1991, passaram-se 47 anos. Durante esse tempo, o avanço de regimes ditatoriais de orientação comunista em seu afã de implementar à força suas mudanças revolucionárias fez dezenas de milhões de vítimas. "Como as árvores, as revoluções devem ser julgadas por seus frutos", escreveu o sociólogo italiano Ignazio Silone, coordenador de um extenso estudo levado a cabo por intelectuais europeus sobre os custos em vidas humanas da implantação do comunismo no mundo. O levantamento de Silone mostra que os frutos da revolução comunista foram monstruosos. Líderes comunistas mataram 25 milhões de pessoas na União Soviética, 65 milhões na China e 1,7 milhão no Camboja.

AFP
NO TEMPO CERTO
Gorbachev e Reagan acertam os ponteiros. O americano ficou com a glória de ter derrubado o comunismo, e o russo, com a fama de pusilânime. Ambos sabiam que o regime soviético já havia sido implodido

Todas essas vítimas podem ser colocadas na conta do "império do mal", como Reagan se dirigiu certa vez à União Soviética? Obviamente, Josef Stalin e outros líderes soviéticos não podem ser diretamente responsabilizados pelo regime de terror na China e talvez nem mesmo pelos do Camboja. Mas seus próprios 25 milhões de vítimas são crimes suficientes para justificar a definição dada por Reagan antes de seus encontros com Mikhail Gorbachev, o último líder soviético. Ele nunca mais repetiu o epíteto. Os pecados do comunismo são sobejamente conhecidos e, felizmente, pertencem ao passado. A razão pela qual se abriu fosso tão profundo entre o Ocidente capitalista e o Leste comunista, porém, é pouco conhecida. Americanos e ingleses lutaram lado a lado com os soldados da União Soviética, todos empunhando as bandeiras da liberdade, do humanismo e da democracia contra a barbárie nazista.

Depois da vitória aliada em 1945, em poucos meses a simpatia pelo heroísmo soviético – único dos grandes aliados a ter sua pátria invadida territorialmente pelas tropas de Hitler – assumiu as feições de uma pequena desconfiança. Em seguida instalou-se uma animosidade de parte a parte. Pouco tempo depois o clima era de uma guerra sem tiros. Ronald Reagan tinha 38 anos, em 1949, quando os soviéticos testaram sua primeira bomba atômica, tirando dos americanos a exclusividade da arma mais mortal já inventada – e congelando de vez as possibilidades de entendimento entre capitalistas e comunistas. Os arsenais nucleares dos dois lados cresceram e em pouco tempo eram suficientes para explodir o planeta Terra diversas vezes. Essa situação de empate tétrico foi definida pelos estrategistas com a sigla MAD, que em inglês significa "destruição mútua assegurada". Mad é louco, em inglês. Muito adequado para aqueles tempos.

Estudos mais recentes mostram que a desconfiança ocidental com o comunismo soviético – e dos soviéticos em relação aos ocidentais – começou bem mais cedo. Os biógrafos de Winston Churchill, o inspirador líder britânico durante a guerra, contam que já em 1919 ele esquadrinhou o comunismo como o grande inimigo da civilização. Churchill era ministro da Guerra quando os aliados, entre eles os Estados Unidos e o Japão, enviaram tropas em uma intervenção para tentar conter o levante bolchevique na Rússia. Mais tarde, na II Guerra Mundial, Churchill não se surpreendeu mas também não perdoou os soviéticos por terem se aliado a Hitler e mantido com ele profícua relação durante quase todos os dois anos iniciais da guerra. Foram exatos 22 meses de aliança nazi-comunista. Nesse período, queixou-se Churchill, a Inglaterra era bombardeada por aviões nazistas movidos a gasolina soviética.

Finda a II Guerra Mundial, Churchill foi o primeiro grande líder ocidental a distinguir por trás das muralhas do Kremlin o espírito "totalitário e expansionista" do regime soviético. Em 1946, ele pronunciou nos Estados Unidos talvez seu mais importante discurso, que entrou para a história como o discurso da "Cortina de ferro". Diante do presidente americano Harry Truman, em uma cerimônia no Westminster College, em Fulton, no estado de Missouri, Churchill descreveu a situação na Europa dividida ao meio pelo avanço soviético sobre os países vizinhos: "De Stetin, no Mar Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente". Um ano depois, em um documento igualmente célebre, George Kennan, então embaixador americano em Moscou, publicou anonimamente um artigo na revista Foreign Affairs assinado apenas por "X". No artigo, Kennan pregava o fim da compreensão com Moscou e sugeria fortemente aos líderes ocidentais que passassem a adotar "uma política de contenção" de modo a impedir o avanço da dominação soviética no mundo.

Filho de um imigrante irlandês alcoólatra, cujo cadáver ele carregou do portão para a cama aos 11 anos de idade, Ronald Reagan fez sua avaliação do comunismo sem nunca ter passado perto de algum escrito de Churchill ou Kennan. Ele usou apenas o senso comum para, mais tarde, descrever o comunismo como uma experiência "bizarra" e o regime soviético como um sistema fadado a "implodir" pela simples razão de que "meia dúzia de iluminados acha que pode planejar a economia do país e decidir o que é bom para cada indivíduo". Sábia constatação. Enquanto os soldados lutavam, Churchill e Kennan pensavam, Reagan, ator de segunda, usava farda apenas para fazer filmes de propaganda bélica. Mais tarde, talvez já atacado pelo Alzheimer, doença que o acometeu mais severamente aos 80 anos, Reagan dava como participação real na guerra suas aparições nos filmes. Ele ficou oito anos na Casa Branca. A princípio pedia resumos a seus assessores. No segundo mandato, para despertar seu interesse por algo era preciso fazer um vídeo sobre o assunto a ser tratado. Diante das câmeras, nos palanques, nas festas e nos encontros com outros mandatários, Reagan revelava um charme devastador. Os saudosistas do comunismo acusam Gorbachev de ter se desmanchado diante do poder de convencimento pessoal de Reagan. Pode ter ocorrido isso mesmo. Eles se tornaram amigos. Mas a derrocada do comunismo não deve ser atribuída à relação pessoal dos dois governantes. Nem tampouco ao projeto de defesa espacial contra mísseis, o Guerra nas Estrelas, com que Reagan exauriu o orçamento soviético. O regime comunista caiu porque – como percebeu Churchill e Kennan pelo intelecto e Reagan pelo senso comum – o totalitarismo e o centralismo econômico são péssimos alicerces.

 

As tiradas do grande comunicador

"O comunismo é apenas mais um triste e bizarro capítulo na história humana cujas últimas páginas continuam ainda a ser escritas"
1981

"O que está em jogo é se acreditamos na capacidade de nos autogovernar ou se aceitamos que uma pequena elite intelectual poderosa seja capaz de planejar nossas vidas melhor do que nós mesmos"
1964, em discurso na televisão tentando salvar a candidatura natimorta do republicano Barry Goldwater

"O governo não é parte da solução. O governo é o problema"
1981, no discurso de posse

"A coisa mais próxima da vida eterna que temos na Terra é um programa de governo"
1986

"É absurda a noção de que só devemos exigir a democratização de regimes de extrema direita e não dos regimes comunistas. Aceitar isso significa render-se ao argumento de que uma vez que um país possua armas nucleares ele ganha o direito de manter seus cidadãos sob um reinado de terror. Eu rejeito isso"
1982, em dicurso ao Parlamento britânico

 
 
 
 
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