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Governo
Caçada ao espião do Palácio
A Abin tenta descobrir o nome do jornalista
que faz arapongagem contra José Dirceu e
Marta Suplicy

Policarpo Junior
Ana Araújo
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| O Planalto: o araponga fica num gabinete do
4º andar |
No Palácio do Planalto, há um
graduado funcionário que leva uma vida profissional dupla.
Durante o dia, no papel de assessor ministerial, ele participa de
reuniões do coração do poder, acompanha os
bastidores de tudo o que acontece no governo e auxilia seus superiores
a montar estratégias de ação. À noite,
assume sua outra função, repassando a terceiros tudo
o que captou ao longo do dia informações sigilosas
e, principalmente, intrigas do poder. Há dois meses, o governo
tenta descobrir a identidade do funcionário, que vem sendo
chamado de "espião", depois que se descobriu que ele trabalha
para a Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Quem
centraliza as informações sobre a caça ao espião
é a Casa Civil, do ministro José Dirceu. Ali, já
se sabe que o funcionário é um jornalista, trabalha
no 4º andar do Palácio do Planalto, recebe um bônus
mensal pelo trabalho secreto e foi recrutado por uma ala da Abin
integrada por arapongas do velho SNI, o centro de bisbilhotagem
da ditadura militar que antecedeu à Abin. Há seis
suspeitos ao todo. Dois deles estão sob vigilância.
A existência de um espião no
coração do governo gerou um alvoroço no Palácio
do Planalto assim que foi descoberta, em abril passado. Um agente
da Abin soube que dois colegas seus, ambos lotados no departamento
de operações da agência, embarcavam todos os
fins de semana para o mesmo destino e tinham suas passagens aéreas
bancadas pela verba secreta da Abin um pedaço do orçamento
que a agência pode usar sem dar explicações
públicas sobre seu destino. Descobriu que, oficialmente,
um dos agentes, o araponga Ceílson Ludolf Ribeiro, estava
inspecionando o escritório da Abin em São Paulo, e
o outro, o araponga João Carlos Sanches, vinha cuidando de
questões pessoais na capital paulista. Estranhando as informações
oficiais, o agente aprofundou a investigação. Descobriu
então que, nas viagens a São Paulo, os dois arapongas
mantinham contatos secretos com adversários políticos
do ministro José Dirceu e da prefeita Marta Suplicy. Descobriu,
ainda, que os dois arapongas seguiam orientações fornecidas
por um funcionário instalado no 4º andar do Palácio
do Planalto.
Helvio Romero/AE
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Marcos D'Paula/AE
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SOB
A MIRA
Marta Suplicy, prefeita de São Paulo:
dois agentes faziam contato com seus inimigos |
DAS
DUAS, UMA
José Dirceu, da Casa Civil: entre espiões
chantagistas e a teoria da conspiração |
Por fim, descobriu também que o tal
funcionário fora recrutado no início do ano. Ganhou
10.000 reais, supostamente para pagar
dívidas vencidas e passou a receber uma bagatela para esse
tipo de serviço 2.500 reais
por mês. Em troca, devia bisbilhotar informações
sobre José Dirceu e Marta Suplicy. As descobertas acerca
do espião foram levadas ao conhecimento do secretário
executivo da Casa Civil, Swedenberger Barbosa. Quando soube da notícia,
o ministro José Dirceu disse que "já imaginava". Desde
então, por orientação da cúpula da Abin,
o ministro mudou seus hábitos. Antes, costumava despachar
coletivamente, com assessores e com ministros. Agora, só
faz despachos individuais e, além disso, registra o assunto
tratado com cada assessor e ministro num computador para,
caso o assunto venha a vazar, dispor de uma pista segura para seguir.
Procurado por VEJA para comentar o caso, o ministro José
Dirceu mandou dizer que não quer se envolver na história.
O principal suspeito tem 46 anos e, segundo
os registros da Abin, estava inscrito no Serviço de Proteção
ao Crédito por causa da emissão de um cheque sem fundo
contra o Unibanco e de duas dívidas uma de 1.078,39
reais com a Credicard e outra de 2.185,87
reais com uma empresa telefônica de Brasília. O que
chamou a atenção dos agentes é que, em março,
quando a espionagem teria entrado em operação, as
dívidas sumiram. O outro suspeito sob vigilância tem
48 anos, um passado de militante de esquerda, como é comum
entre os integrantes do governo atual, e não possuía
dívidas. Os dois suspeitos prestaram serviços para
o tucano José Serra, o que deu fôlego a uma teoria
conspiratória dentro do governo. A Abin não conseguiu
esclarecer as razões da bisbilhotice. Na Casa Civil, trabalha-se
com duas hipóteses. Uma delas sugere que os arapongas estariam
querendo fisgar segredos importantes e, com isso, galgar postos
na administração pública tática
chantagista de arapongas sem escrúpulos, que aliás
já foi aplicada em outros governos. A outra hipótese
é barroca: os arapongas estariam, na verdade, a serviço
do tucanato.
Ana Araújo
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Eder Luiz Medeiros/AE
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Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
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ENTROU
Lima e Silva, futuro chefe da Abin: convite pessoal do presidente
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SAIU
Marisa Del'Isola, que deixou o comando da Abin: Lula se irritou
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Espionando José Dirceu, os espiões
poderiam ter informações relevantes sobre um auxiliar
próximo do presidente. Espionando Marta Suplicy, poderiam
ajudar os tucanos a ganhar a prefeitura paulistana. A idéia
de que os tucanos estariam por trás da espionagem parece
paranóia persecutória, já que não há
nenhum indício concreto disso, mas a sugestão de que
José Dirceu é um dos alvos da espionagem apóia-se
em dados mais sólidos. Os arapongas fiéis ao governo
descobriram que reuniões de um ex-assessor da Casa Civil,
Marcelo Sereno, vinham sendo gravadas clandestinamente. Sereno,
que trocou a Casa Civil para tomar conta da área de comunicação
social do PT, vinha encontrando-se com um grupo de empresários
da construção civil num hotel de Brasília.
Os bisbilhoteiros conseguiram, segundo o relato que chegou à
Casa Civil, registrar mais de vinte horas de gravações.
Não se conhece o conteúdo das fitas, mas comenta-se
nos corredores da espionagem que as reuniões seriam comprometedoras
para um empresário mato-grossense que alardeia amizade com
o presidente Lula.
A presença do espião, aliada
ao constante vazamento para a imprensa de divergências dentro
do governo que deveriam ser mantidas em sigilo, produziu um tenso
clima de desconfiança entre os principais assessores do presidente.
Antes de saber que um araponga anda à solta no palácio,
o presidente Lula chegou a reclamar com assessores de que conversas
reservadas entre ele e ministros chegavam à imprensa horas
depois de acontecerem. Imaginou-se a possibilidade de existir uma
escuta ambiental na sala do presidente. O Gabinete de Segurança
Institucional chegou a pedir uma varredura em todos os ambientes
utilizados por Lula, mas nada foi encontrado. "Existe um clima de
muita insegurança aqui no Palácio", revela um graduado
assessor do presidente. Depois que se soube do espião, acabaram
as dúvidas sobre as razões dos vazamentos, mas a desconfiança
entre os assessores palacianos aumentou. "Vou sair da sala para
depois não dizerem que fui eu quem vazei", disse, recentemente,
Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente, ao deixar uma
reunião em cuja pauta constava um assunto sobre o qual Lula
queria reserva.
Germano Luders
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Orlando Brito
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Antonio Ribeiro
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NENHUM...
FHC, que teve telefonema grampeado |
...DELES...
Itamar, que também sofreu escuta ilegal |
...ESCAPOU
Figueiredo: grampo no gabinete |
A descoberta sobre o périplo impune
de um espião pelo Palácio do Planalto antecipou a
demissão da diretora da Abin, Marisa de Almeida Del'Isola,
anunciada no fim do mês passado. Sua saída estava sob
cogitação desde o escândalo Waldomiro Diniz,
tendo em vista que uma das atribuições da Abin é
elaborar um relatório biográfico sobre os indicados
para cargos de confiança no governo. No caso de Waldomiro
Diniz, que trabalhava como assessor de José Dirceu, a Abin
nada informou sobre seu envolvimento com bingos e bicheiros, embora
tivesse conhecimento desse passado desde 2002. Quando soube que
a Abin omitira a informação da ficha de Waldomiro,
o presidente Lula ficou irritado. No mês passado, ao ser informado
sobre o espião da Abin que circulava pelo palácio,
o presidente perdeu a paciência e mandou acelerar as mudanças
no órgão. O sucessor de Marisa Del'Isola foi uma escolha
pessoal de Lula. O futuro diretor da Abin, delegado Mauro Marcelo
Lima e Silva, da Polícia Civil de São Paulo, é
um especialista em crimes cometidos pela internet.
Convidado pelo presidente, de quem ficou amigo
desde que solucionou o seqüestro de um afilhado de Lula há
doze anos, Lima e Silva terá a missão de reformular
a Abin e tentar evitar a sobrevivência de facções
contra e a favor do governo. A Abin tem apenas 1 600 funcionários,
dos quais só 500 trabalham como arapongas, mas sua capacidade
de gerar problemas é inversamente proporcional ao seu diminuto
contingente. Desde que o país passou a viver o processo de
abertura política e os bisbilhoteiros começaram a
perder sua primazia, as histórias se sucedem. Até
o general João Baptista Figueiredo, o último presidente
militar, descobriu uma escuta clandestina em seu gabinete. O ex-presidente
Fernando Collor, que extinguiu o velho SNI, manteve os arapongas
como almas penadas, até descobrir que estavam mais vivos
do que nunca, gravando telefonemas de sua ministra da Economia e
vigiando seu sócio Paulo César Farias. Os ex-presidentes
Itamar Franco e Fernando Henrique tiveram, ambos, conversas telefônicas
grampeadas por gente do serviço de espionagem.
Ceílson Ludolf Ribeiro, que vinha fazendo
contato com adversários de José Dirceu e Marta Suplicy,
é um agente dos velhos tempos. Foi chefe da Abin em Vitória
no governo tucano e, antes, trabalhou por vários anos no
Rio de Janeiro. É dessa época o fato mais marcante
de sua biografia que, por coincidência, também
se refere a um jornalista recrutado pela arapongagem. Nos anos 80,
Ceílson Ribeiro foi destacado para vigiar o jornalista Alexandre
von Baumgarten, que depois de trabalhar a soldo do velho SNI passou
a ameaçar revelar segredos do serviço secreto e acabou
morrendo num assassinato até hoje não solucionado.
Nessa vigilância, Ceílson ligou para o apartamento
de Baumgarten pouco antes de seu assassinato e deixou um recado
na secretária eletrônica, falando seu nome e telefone.
A gravação seria uma evidência das ligações
do SNI com o assassinato do jornalista. Ceílson foi então
orientado a arrombar o apartamento de Baumgarten e retirar a fita.
Até hoje não se sabia por que raios Baumgarten tinha
uma secretária eletrônica sem fita.

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