Edição 1858 . 16 de junho de 2004

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Governo
Caçada ao espião do Palácio

A Abin tenta descobrir o nome do jornalista
que faz arapongagem contra José Dirceu e
Marta Suplicy


Policarpo Junior


Ana Araújo
O Planalto: o araponga fica num gabinete do 4º andar

No Palácio do Planalto, há um graduado funcionário que leva uma vida profissional dupla. Durante o dia, no papel de assessor ministerial, ele participa de reuniões do coração do poder, acompanha os bastidores de tudo o que acontece no governo e auxilia seus superiores a montar estratégias de ação. À noite, assume sua outra função, repassando a terceiros tudo o que captou ao longo do dia – informações sigilosas e, principalmente, intrigas do poder. Há dois meses, o governo tenta descobrir a identidade do funcionário, que vem sendo chamado de "espião", depois que se descobriu que ele trabalha para a Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Quem centraliza as informações sobre a caça ao espião é a Casa Civil, do ministro José Dirceu. Ali, já se sabe que o funcionário é um jornalista, trabalha no 4º andar do Palácio do Planalto, recebe um bônus mensal pelo trabalho secreto e foi recrutado por uma ala da Abin integrada por arapongas do velho SNI, o centro de bisbilhotagem da ditadura militar que antecedeu à Abin. Há seis suspeitos ao todo. Dois deles estão sob vigilância.

A existência de um espião no coração do governo gerou um alvoroço no Palácio do Planalto assim que foi descoberta, em abril passado. Um agente da Abin soube que dois colegas seus, ambos lotados no departamento de operações da agência, embarcavam todos os fins de semana para o mesmo destino e tinham suas passagens aéreas bancadas pela verba secreta da Abin – um pedaço do orçamento que a agência pode usar sem dar explicações públicas sobre seu destino. Descobriu que, oficialmente, um dos agentes, o araponga Ceílson Ludolf Ribeiro, estava inspecionando o escritório da Abin em São Paulo, e o outro, o araponga João Carlos Sanches, vinha cuidando de questões pessoais na capital paulista. Estranhando as informações oficiais, o agente aprofundou a investigação. Descobriu então que, nas viagens a São Paulo, os dois arapongas mantinham contatos secretos com adversários políticos do ministro José Dirceu e da prefeita Marta Suplicy. Descobriu, ainda, que os dois arapongas seguiam orientações fornecidas por um funcionário instalado no 4º andar do Palácio do Planalto.


Helvio Romero/AE
Marcos D'Paula/AE
SOB A MIRA
Marta Suplicy, prefeita de São Paulo: dois agentes faziam contato com seus inimigos
DAS DUAS, UMA
José Dirceu, da Casa Civil: entre espiões chantagistas e a teoria da conspiração

Por fim, descobriu também que o tal funcionário fora recrutado no início do ano. Ganhou 10.000 reais, supostamente para pagar dívidas vencidas e passou a receber uma bagatela para esse tipo de serviço – 2.500 reais por mês. Em troca, devia bisbilhotar informações sobre José Dirceu e Marta Suplicy. As descobertas acerca do espião foram levadas ao conhecimento do secretário executivo da Casa Civil, Swedenberger Barbosa. Quando soube da notícia, o ministro José Dirceu disse que "já imaginava". Desde então, por orientação da cúpula da Abin, o ministro mudou seus hábitos. Antes, costumava despachar coletivamente, com assessores e com ministros. Agora, só faz despachos individuais e, além disso, registra o assunto tratado com cada assessor e ministro num computador – para, caso o assunto venha a vazar, dispor de uma pista segura para seguir. Procurado por VEJA para comentar o caso, o ministro José Dirceu mandou dizer que não quer se envolver na história.

O principal suspeito tem 46 anos e, segundo os registros da Abin, estava inscrito no Serviço de Proteção ao Crédito por causa da emissão de um cheque sem fundo contra o Unibanco e de duas dívidas – uma de 1.078,39 reais com a Credicard e outra de 2.185,87 reais com uma empresa telefônica de Brasília. O que chamou a atenção dos agentes é que, em março, quando a espionagem teria entrado em operação, as dívidas sumiram. O outro suspeito sob vigilância tem 48 anos, um passado de militante de esquerda, como é comum entre os integrantes do governo atual, e não possuía dívidas. Os dois suspeitos prestaram serviços para o tucano José Serra, o que deu fôlego a uma teoria conspiratória dentro do governo. A Abin não conseguiu esclarecer as razões da bisbilhotice. Na Casa Civil, trabalha-se com duas hipóteses. Uma delas sugere que os arapongas estariam querendo fisgar segredos importantes e, com isso, galgar postos na administração pública – tática chantagista de arapongas sem escrúpulos, que aliás já foi aplicada em outros governos. A outra hipótese é barroca: os arapongas estariam, na verdade, a serviço do tucanato.


Ana Araújo
Eder Luiz Medeiros/AE
Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
ENTROU
Lima e Silva, futuro chefe da Abin: convite pessoal do presidente
SAIU
Marisa Del'Isola, que deixou o comando da Abin: Lula se irritou

Espionando José Dirceu, os espiões poderiam ter informações relevantes sobre um auxiliar próximo do presidente. Espionando Marta Suplicy, poderiam ajudar os tucanos a ganhar a prefeitura paulistana. A idéia de que os tucanos estariam por trás da espionagem parece paranóia persecutória, já que não há nenhum indício concreto disso, mas a sugestão de que José Dirceu é um dos alvos da espionagem apóia-se em dados mais sólidos. Os arapongas fiéis ao governo descobriram que reuniões de um ex-assessor da Casa Civil, Marcelo Sereno, vinham sendo gravadas clandestinamente. Sereno, que trocou a Casa Civil para tomar conta da área de comunicação social do PT, vinha encontrando-se com um grupo de empresários da construção civil num hotel de Brasília. Os bisbilhoteiros conseguiram, segundo o relato que chegou à Casa Civil, registrar mais de vinte horas de gravações. Não se conhece o conteúdo das fitas, mas comenta-se nos corredores da espionagem que as reuniões seriam comprometedoras para um empresário mato-grossense que alardeia amizade com o presidente Lula.

A presença do espião, aliada ao constante vazamento para a imprensa de divergências dentro do governo que deveriam ser mantidas em sigilo, produziu um tenso clima de desconfiança entre os principais assessores do presidente. Antes de saber que um araponga anda à solta no palácio, o presidente Lula chegou a reclamar com assessores de que conversas reservadas entre ele e ministros chegavam à imprensa horas depois de acontecerem. Imaginou-se a possibilidade de existir uma escuta ambiental na sala do presidente. O Gabinete de Segurança Institucional chegou a pedir uma varredura em todos os ambientes utilizados por Lula, mas nada foi encontrado. "Existe um clima de muita insegurança aqui no Palácio", revela um graduado assessor do presidente. Depois que se soube do espião, acabaram as dúvidas sobre as razões dos vazamentos, mas a desconfiança entre os assessores palacianos aumentou. "Vou sair da sala para depois não dizerem que fui eu quem vazei", disse, recentemente, Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente, ao deixar uma reunião em cuja pauta constava um assunto sobre o qual Lula queria reserva.


Germano Luders
Orlando Brito
Antonio Ribeiro
NENHUM...
FHC, que teve telefonema grampeado
...DELES...
Itamar, que também sofreu escuta ilegal
...ESCAPOU
Figueiredo: grampo no gabinete

A descoberta sobre o périplo impune de um espião pelo Palácio do Planalto antecipou a demissão da diretora da Abin, Marisa de Almeida Del'Isola, anunciada no fim do mês passado. Sua saída estava sob cogitação desde o escândalo Waldomiro Diniz, tendo em vista que uma das atribuições da Abin é elaborar um relatório biográfico sobre os indicados para cargos de confiança no governo. No caso de Waldomiro Diniz, que trabalhava como assessor de José Dirceu, a Abin nada informou sobre seu envolvimento com bingos e bicheiros, embora tivesse conhecimento desse passado desde 2002. Quando soube que a Abin omitira a informação da ficha de Waldomiro, o presidente Lula ficou irritado. No mês passado, ao ser informado sobre o espião da Abin que circulava pelo palácio, o presidente perdeu a paciência e mandou acelerar as mudanças no órgão. O sucessor de Marisa Del'Isola foi uma escolha pessoal de Lula. O futuro diretor da Abin, delegado Mauro Marcelo Lima e Silva, da Polícia Civil de São Paulo, é um especialista em crimes cometidos pela internet.

Convidado pelo presidente, de quem ficou amigo desde que solucionou o seqüestro de um afilhado de Lula há doze anos, Lima e Silva terá a missão de reformular a Abin e tentar evitar a sobrevivência de facções contra e a favor do governo. A Abin tem apenas 1 600 funcionários, dos quais só 500 trabalham como arapongas, mas sua capacidade de gerar problemas é inversamente proporcional ao seu diminuto contingente. Desde que o país passou a viver o processo de abertura política e os bisbilhoteiros começaram a perder sua primazia, as histórias se sucedem. Até o general João Baptista Figueiredo, o último presidente militar, descobriu uma escuta clandestina em seu gabinete. O ex-presidente Fernando Collor, que extinguiu o velho SNI, manteve os arapongas como almas penadas, até descobrir que estavam mais vivos do que nunca, gravando telefonemas de sua ministra da Economia e vigiando seu sócio Paulo César Farias. Os ex-presidentes Itamar Franco e Fernando Henrique tiveram, ambos, conversas telefônicas grampeadas por gente do serviço de espionagem.

Ceílson Ludolf Ribeiro, que vinha fazendo contato com adversários de José Dirceu e Marta Suplicy, é um agente dos velhos tempos. Foi chefe da Abin em Vitória no governo tucano e, antes, trabalhou por vários anos no Rio de Janeiro. É dessa época o fato mais marcante de sua biografia – que, por coincidência, também se refere a um jornalista recrutado pela arapongagem. Nos anos 80, Ceílson Ribeiro foi destacado para vigiar o jornalista Alexandre von Baumgarten, que depois de trabalhar a soldo do velho SNI passou a ameaçar revelar segredos do serviço secreto e acabou morrendo num assassinato até hoje não solucionado. Nessa vigilância, Ceílson ligou para o apartamento de Baumgarten pouco antes de seu assassinato e deixou um recado na secretária eletrônica, falando seu nome e telefone. A gravação seria uma evidência das ligações do SNI com o assassinato do jornalista. Ceílson foi então orientado a arrombar o apartamento de Baumgarten e retirar a fita. Até hoje não se sabia por que raios Baumgarten tinha uma secretária eletrônica sem fita.



 
 
 
 
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