Edição 1858 . 16 de junho de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Lya Luft
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Ministério
Ferido, mas na luta

José Dirceu lança batalha aberta
para voltar a ser o articulador
político do governo


Otávio Cabral

EXCLUSIVO ON-LINE
Notícias sobre o governo Lula

Na semana passada, o ministro José Dirceu, da Casa Civil, mandou dois recados claros aos seus adversários na guerra pelo poder em Brasília. O primeiro é que está ferido, mas não morto. O outro recado é que as decisões executivas mais importantes do governo continuam passando por suas mãos. Ou seja, ele pode até morrer na batalha, mas, como os grandes encouraçados, não sucumbirá sem luta. Desde que foi alvejado pelo escândalo do ex-assessor Waldomiro Diniz em fevereiro, José Dirceu tem evitado aparecer em público numa posição de quem ostensivamente guerreia para recuperar o prestígio perdido. Parecia negar-se a confirmar seu enfraquecimento aos olhos dos inimigos. Na semana passada, contudo, o ministro mudou de tática e reagiu aos bombardeios com disposição leonina. Falou com o ministro Antonio Palocci, da Fazenda, para refazer um pacto antigo, segundo o qual Palocci não entra na política e Dirceu não se mete na economia. Conversou, em seguida, com seus principais aliados no Congresso com o propósito de obter apoio para decapitar Aldo Rebelo, do PC do B, da articulação política do governo. Por fim, esteve com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para quem reclamou de seu exílio interno e reivindicou seu retorno à seara política.

Monica Zarattini/AE
O ministro José Dirceu: conversa com aliados para detonar Rebelo


Ninguém sabe se a reação do ministro José Dirceu resultará na recuperação de sua força no governo, mas o presidente Lula ficou tocado com o desabafo do amigo e não escondeu sua simpatia pela idéia de vê-lo de volta à articulação política do governo – e Aldo Rebelo como ministro da Defesa, no lugar do diplomata José Viegas. O presidente Lula autorizou José Dirceu a retomar a articulação no Senado, pelo menos no que diz respeito à aprovação do novo valor do salário mínimo. Com isso, Lula contempla duas necessidades. De um lado, testa a volta de José Dirceu às negociações com parlamentares, das quais está oficialmente afastado. De outro, tenta reduzir o risco de ver o novo salário mínimo derrotado no Senado, onde sua aprovação se afigura bem mais complicada do que foi na Câmara dos Deputados. No Senado, o ministro Aldo Rebelo tem trânsito mais restrito do que na Câmara. Por duas razões. Primeiro, porque ele próprio é deputado. Segundo, porque pertence a um partido, o PC do B, que não tem nenhum senador. É, por assim dizer, um duplo estranho entre os senadores.


Dida Sampaio/AE
O presidente: ter ou não ter Dirceu na articulação política?


Apesar do apreço inegável que tem por José Dirceu, seu velho companheiro e figura essencial na campanha presidencial, Lula não deixou claro se pretende remontar sua equipe nos moldes desejados pelo ministro. Mesmo os aliados de Dirceu não sabem dizer se o presidente ficou convencido da idéia e alguns até divergem sobre a data em que a novidade poderia ser implementada. Há quem aposte que a mudança é coisa imediata, para os próximos dias. E não apenas em decorrência da pressão de Dirceu, mas também porque a cúpula do PT está insatisfeita com Aldo Rebelo, que foi autorizado a punir os governistas que votaram contra o salário mínimo cortando-lhes as emendas – e abriu as punições pela bancada dos petistas infiéis, poupando os três infiéis de seu próprio partido. Rebelo nega que tenha adotado tratamento diferente para uns e outros, mas o estrago já está feito. Outros aliados de José Dirceu, no entanto, apostam que a mudança não sai antes das eleições municipais, cujos resultados deverão motivar alterações no ministério, ocasião em que Lula aproveitaria para mexer de uma só vez. Seja o que for, tudo não passa de aposta para um governo que, até aqui, não se pautou pelas decisões rápidas.

Na ginástica para recuperar os músculos de antes, José Dirceu conta com três apoios fundamentais. No Parlamento, tem o braço amigo de José Sarney, presidente do Senado, e do deputado João Paulo Cunha, presidente da Câmara. Os dois querem ser reeleitos para seus cargos, decisão que pode voltar a ser apreciada no Congresso se houver convocação extraordinária no recesso de julho. O terceiro apoio é de José Genoíno, presidente do PT. Até o ministro Antonio Palocci, com quem Dirceu vive uma disputa interminável, não se comporta como um rival clássico – eles são, na verdade, como dois irmãos. Brigam entre si, mas, na hora em que um terceiro quer tirar sua lasca da briga, voltam a se unir. Uma coisa que José Dirceu ainda tem de amadurecer no governo, porém, é sua própria escolha. Se quer voltar a ser poderoso, precisa primeiro aceitar ser tratado como tal, ou seja, admitir os bombardeios que, na política, só costumam ser despejados sobre quem tem poder. Às vezes, no entanto, o ministro dá a impressão de que só admite viver sob um céu de brigadeiro, sem ataques nem tramas. Em política, quem quer tanta tranqüilidade precisa, antes de tudo, virar unanimidade ou não ter poder algum.

 
 
 
 
topo voltar