Edição 1 636 - 16/2/2000

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Yes, nós temos Banespa

A participação de estrangeiros no leilão do banco paulista pode elevar o preço em 1 bilhão de reais, mas ainda há quem prefira que eles sejam mantidos fora do negócio

Eliana Simonetti

 

O debate em torno do risco de desnacionalização do sistema financeiro no Brasil voltou a esquentar. Foi forte a reação, na semana passada, quando se encerrou o prazo para a qualificação dos bancos interessados em participar do leilão de privatização do Banespa. Procuradores entraram na Justiça tentando impedir a venda do banco, deputados e senadores se alvoroçaram e, na quarta-feira, o presidente Fernando Henrique Cardoso mandou o secretário-geral da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira, avisar aos interessados: "Não podemos entregar o patrimônio público a preço de banana para ninguém, nem mesmo para os banqueiros nacionais. O governo quer o melhor preço e não vai impedir o acesso de investidores estrangeiros".

Dos nove bancos que se inscreveram para o leilão, cinco são estrangeiros: o Citibank e o BankBoston, americanos, o HSBC, inglês, e os espanhóis Santander e Bilbao Vizcaya. São bancões que têm operações no mundo inteiro e querem crescer no Brasil. Também há quatro nacionais na parada: Bradesco e Itaú, que brigam para manter-se na liderança entre os bancos privados brasileiros, Unibanco, que precisa expandir-se para não ser engolido, e Safra, que é forte com empresas e há tempos procura uma oportunidade de crescer no varejo. Na próxima etapa caberá ao Banco Central certificar-se de que os inscritos têm porte para a concorrência. Os aprovados nessa sabatina poderão, durante 45 dias, vasculhar as entranhas do Banespa e confirmar sua disposição de entrar na disputa para comprá-lo. No leilão, marcado para 16 de maio, cada um dos concorrentes apresentará sua proposta num envelope fechado. O preço mínimo estabelecido pelo Banco Central deverá ficar um pouco acima de 2 bilhões de reais. O banco que oferecer o melhor preço e todos que tiverem chegado a pelo menos 90% desse valor participarão então de um leilão aberto. Calcula-se que nessa briga de lances o governo possa receber até 4 bilhões de reais pelo Banespa. Sem os estrangeiros, a disputa seria bem menos agressiva. Segundo quem lida com leilões de privatização, os cofres públicos perderiam cerca de 1 bilhão de reais.


Esse é um argumento concreto a favor da participação dos estrangeiros no leilão. Há outros. Bancos estrangeiros dominam o mercado em vários países da América Latina sem que haja prejuízos para os correntistas ou para a administração da economia. Dos 21 bancos do Uruguai, dezoito são estrangeiros. Na Argentina, quase metade do sistema financeiro está sob controle alienígena. Os argentinos não se queixam. "A internacionalização é vista como garantia de solidez do mercado financeiro e de tranqüilidade para os clientes", diz o economista Fabio Rodriguez, da Fundação Capital, empresa de consultoria da Argentina. Depois da crise mexicana de dezembro de 1994, só as agências dos bancos Boston e Citi não foram alvo de corridas de saques. Bancos provinciais e instituições privadas argentinas quebraram nessa época.

Os que defendem a idéia de que o governo deve resguardar o mercado financeiro nacional contra o ataque estrangeiro argumentam que países desenvolvidos não escancaram suas portas como os mais pobres andam fazendo. Nos Estados Unidos existem mais de 8.000 bancos — há instituições com uma única agência em cidadezinhas do interior. Nesse universo, o volume de bancos estrangeiros é muito pequeno. Eles são apenas 246. Mas Joseph Safra, um dos irmãos donos do Banco Safra, que se estabeleceu em Nova York com a bandeira brasileira, garante que não enfrenta dificuldades. Ao contrário, vem crescendo sem incomodar o governo americano ou os concorrentes. "Banco é banco, não importa a nacionalidade. Por toda a parte já se percebeu que a abertura para o mercado mundial é o único caminho para o crescimento. Não podemos querer que o Brasil seja uma Cuba ou uma Albânia", diz o banqueiro.

Na semana passada surgiu outro argumento interessante. O de que a desnacionalização seria um risco para um governo como o brasileiro, que tem de vender títulos no mercado para rolar sua dívida. E se os estrangeiros simplesmente resolverem não comprar mais os papéis? O governo poderia quebrar? A perspectiva não se sustenta. O governo brasileiro paga juros tão altos para que os bancos engulam seus títulos que eles jogam quase todo o dinheiro de que dispõem nesses papéis para não perder um bom negócio. É tamanha a força de atração dos títulos públicos que os bancos praticamente se privam de exercer a tarefa básica de sua existência: emprestar dinheiro a empresas e pessoas. A oferta de crédito no Brasil representa menos de 30% do PIB. O crédito disponível nos Estados Unidos é, proporcionalmente, mais do que o dobro: corresponde a 71% do PIB.

Também não pára de pé a idéia segundo a qual nos momentos de crise os bancos brasileiros se sacrificam em benefício do interesse nacional. Examine-se a última grande crise pela qual o Brasil passou. Entre os bancos que apostaram contra o real comprando dólares, no início do ano passado, e lucraram quando o câmbio foi liberado havia tanto estrangeiros quanto brasileiros. Uma das razões do lucro recorde registrado pelo banco Itaú, brasileiríssimo, em 1999, foi sua forte reserva em dólares. "Não existe banco patriota. Negócio de banqueiro é ganhar dinheiro e proteger os interesses dos clientes, tenham eles a nacionalidade que tiverem", diz o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega.

Os bancos de qualquer bandeira querem comprar o Banespa porque é uma ótima oportunidade de ganhar dinheiro. O banco é o último dos grandes estatais a ser privatizado. Em matéria de eficiência das agências e de capacidade de geração de negócios sempre esteve entre os melhores do país. Quebrou há cinco anos e mesmo assim manteve sua clientela e está ganhando dinheiro sem que ninguém faça força para isso. Para o governo, livrar-se do banco será um alívio. Segundo cálculos de quem opera no mercado financeiro, computados os desvios, as perdas por má administração, os abusos de governos, a inflação e as crises econômicas pelas quais o país passou, o Banespa acumulou, nos últimos trinta anos, perdas correspondentes a 250 bilhões de dólares. É um terço do PIB brasileiro. Sobreviveu porque foi socorrido, como outros bancos estatais, pelo governo federal, pelos Estados e por empresas públicas. Só na última operação de saneamento de bancos públicos, promovida na gestão Fernando Henrique, que ainda não foi encerrada, estão sendo gastos cerca de 100 bilhões de reais. Uma boa parte da dívida que o país carrega nasceu no Banespa e em seus congêneres. Será muito bom para o Brasil ter esse banco longe dos políticos, administrado pelo setor privado. Seja ele nacional ou estrangeiro.

Com reportagem de Raul Juste Lores