Dia da caça
Brasileiro
é preso nos EUA por
escravizar empregada
Pacato funcionário
de uma sólida empresa americana de telecomunicações,
o engenheiro brasileiro Renê Bonnetti vivia muito
bem instalado com a mulher e a empregada em uma confortável
casa na cidade de Gaithersburg, a meia hora de Washington,
a capital dos Estados Unidos. Há vinte anos no país,
naturalizado americano, nos fins de semana Bonnetti cuidava
do jardim e de vez em quando recebia a visita do único
filho, já adulto, que mora em outra cidade. Dessa
vidinha calma, Bonnetti saltou para o meio de um furacão.
Condenado na quinta-feira passada por ter mantido como escrava
a empregada doméstica Hilda dos Santos, mineira de
65 anos, ele agora divide uma cela com três outros
presos comuns numa penitenciária de Marbury, em Maryland.
A sentença sai em maio e seu advogado americano,
John Maginnis, não parece otimista: "O senhor Bonnetti
deve ficar preso pelo menos cinco anos. Talvez oito".
A corte americana concluiu
que o engenheiro e a mulher, Margarida Bonnetti, não
só usufruíram os serviços de Hilda
por quase duas décadas sem pagar um tostão,
como a maltrataram sistematicamente nesse período.
Hilda tem primário incompleto e não fala inglês.
Por intermédio de intérprete, disse aos jurados
que dormia em um minúsculo quarto sem janelas e que
nunca teve um dia de folga. Para completar, era agredida
pela patroa. "Um dia, fiz uma sopa de que dona Margarida
não gostou e ela atirou o prato quente no meu rosto."
Noutra ocasião, disse, Margarida notou que o cachorro
da família estava perdendo pêlo e pôs
a culpa na maneira como Hilda escovava o animal. "Puxou
meu cabelo com tanta força que a cabeça chegou
a sangrar", relatou. Membros da igreja católica que
ela freqüentava notaram as marcas das agressões,
souberam de sua história e a estimularam a abrir
o processo. É na casa dessas pessoas que Hilda se
hospeda atualmente.
Bonnetti nega os maus-tratos.
Admite que, quando ele e a mulher levaram Hilda para os
Estados Unidos, pensavam que ela pudesse "ajudá-los"
no serviço da casa. O engenheiro afirmou, no entanto,
que a empregada revelou ser "de uma incompetência
tão espetacular" que eles foram aos poucos deixando
de lhe atribuir tarefas. "A senhora Santos tornou-se uma
espécie de hóspede permanente da família,
condição que não justificava salário",
sustenta o advogado Maginnis. Mesmo na condição
de visita, porém, "insistia" (palavras do réu)
em fazer a limpeza da casa, ignorando os apelos em contrário
de Margarida. A ex-patroa de Hilda está no Brasil
e deverá ser julgada à revelia. Segundo Maginnis,
seu cliente está calmo. "É um homem de uma
fé incrível, um católico muito devoto",
diz. Hilda, por sua vez, move outra ação contra
os Bonnetti: quer indenização de 1 milhão
de dólares por vinte anos de serviço não
remunerado em tempo integral. Para seu advogado, Michael
Gaffney, as chances de ganhar a causa são "muito
grandes".