Edição 1 636 - 16/2/2000

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Dia da caça

Brasileiro é preso nos EUA por escravizar empregada

Pacato funcionário de uma sólida empresa americana de telecomunicações, o engenheiro brasileiro Renê Bonnetti vivia muito bem instalado com a mulher e a empregada em uma confortável casa na cidade de Gaithersburg, a meia hora de Washington, a capital dos Estados Unidos. Há vinte anos no país, naturalizado americano, nos fins de semana Bonnetti cuidava do jardim e de vez em quando recebia a visita do único filho, já adulto, que mora em outra cidade. Dessa vidinha calma, Bonnetti saltou para o meio de um furacão. Condenado na quinta-feira passada por ter mantido como escrava a empregada doméstica Hilda dos Santos, mineira de 65 anos, ele agora divide uma cela com três outros presos comuns numa penitenciária de Marbury, em Maryland. A sentença sai em maio e seu advogado americano, John Maginnis, não parece otimista: "O senhor Bonnetti deve ficar preso pelo menos cinco anos. Talvez oito".

A corte americana concluiu que o engenheiro e a mulher, Margarida Bonnetti, não só usufruíram os serviços de Hilda por quase duas décadas sem pagar um tostão, como a maltrataram sistematicamente nesse período. Hilda tem primário incompleto e não fala inglês. Por intermédio de intérprete, disse aos jurados que dormia em um minúsculo quarto sem janelas e que nunca teve um dia de folga. Para completar, era agredida pela patroa. "Um dia, fiz uma sopa de que dona Margarida não gostou e ela atirou o prato quente no meu rosto." Noutra ocasião, disse, Margarida notou que o cachorro da família estava perdendo pêlo e pôs a culpa na maneira como Hilda escovava o animal. "Puxou meu cabelo com tanta força que a cabeça chegou a sangrar", relatou. Membros da igreja católica que ela freqüentava notaram as marcas das agressões, souberam de sua história e a estimularam a abrir o processo. É na casa dessas pessoas que Hilda se hospeda atualmente.

Bonnetti nega os maus-tratos. Admite que, quando ele e a mulher levaram Hilda para os Estados Unidos, pensavam que ela pudesse "ajudá-los" no serviço da casa. O engenheiro afirmou, no entanto, que a empregada revelou ser "de uma incompetência tão espetacular" que eles foram aos poucos deixando de lhe atribuir tarefas. "A senhora Santos tornou-se uma espécie de hóspede permanente da família, condição que não justificava salário", sustenta o advogado Maginnis. Mesmo na condição de visita, porém, "insistia" (palavras do réu) em fazer a limpeza da casa, ignorando os apelos em contrário de Margarida. A ex-patroa de Hilda está no Brasil e deverá ser julgada à revelia. Segundo Maginnis, seu cliente está calmo. "É um homem de uma fé incrível, um católico muito devoto", diz. Hilda, por sua vez, move outra ação contra os Bonnetti: quer indenização de 1 milhão de dólares por vinte anos de serviço não remunerado em tempo integral. Para seu advogado, Michael Gaffney, as chances de ganhar a causa são "muito grandes".