O dinheiro não paga
Judeus brasileiros perseguidos pelo nazismo
recebem compensação financeira da Suíça
Rodrigo Vieira da Cunha
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Edson Vara

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Número
tatuado no
braço de Reli
em Auschwitz:
a letra "A" é
a inicial de arbeit,
trabalho em alemão
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Nas últimas semanas, 181 judeus que vivem no Brasil
receberam um cheque de 993 reais cada um. Todos têm
mais de 65 anos e moravam na Europa durante a II Guerra
Mundial. A maioria atravessou a guerra humilhada em campos
de concentração. Outros viveram em guetos
ou passaram anos fugindo das tropas alemãs. Alguns
assistiram ao fuzilamento de pais e irmãos. Quase
55 anos depois de terminada a guerra, os judeus brasileiros
vão receber um cheque enviado por um comitê
de bancos suíços. A importância que
está chegando ao Brasil, 100.000
dólares no total, faz parte de um fundo humanitário
de 200 milhões de dólares criado por banqueiros
suíços na tentativa de esconjurar sua parcela
de culpa pelo holocausto. São duas as acusações
que pesam sobre os ombros daquele país. A primeira
é ficar com o dinheiro das contas das vítimas
do massacre nazista. A segunda é financiar a guerra
ao comprar o ouro que os nazistas roubavam dos judeus e
dos países invadidos. Um estudo feito pelo governo
americano em 1997 estima que o valor do ouro comprado dos
nazistas pelos suíços pode chegar a 3,5 bilhões
de dólares em valores atualizados. "Queremos, sim,
que os sobreviventes sejam indenizados", diz Henry Sobel,
presidente do Rabinato da Congregação Israelita
Paulista. "Mas não podemos esquecer que os nazistas
roubaram 6 milhões de vidas judaicas. Essas não
podem ser restituídas."
O
dinheiro que está chegando agora foi entregue a título
de ajuda humanitária. Só tem direito a ele
quem provar estar passando necessidade financeira. O beneficiado
não pode ganhar mais de 300 dólares por mês.
Cada país recebeu uma quantia proporcional ao tamanho
de sua população judia e a repartiu por critérios
próprios. Os brasileiros estão recebendo menos
que a média mundial. A Confederação
Israelita do Brasil, responsável pela distribuição
do dinheiro no país, preferiu diminuir o valor do
benefício para favorecer um número maior de
pessoas. O dinheiro não encerra a reparação
dos danos. Há ainda outra indenização
acertada, dois anos atrás, entre o Congresso Mundial
Judaico, o órgão que representa os judeus
na negociação, e os bancos suíços.
Essa segunda remessa só começa a chegar no
segundo semestre. Será distribuído 1,25 bilhão
de dólares. Perto de 400.000
pessoas devem ser indenizadas em todo o mundo. Os judeus
que receberam o cheque de 993 reais na semana passada reagiram
com compreensível desconforto. Reli Blau é
viúva, nasceu na Romênia, mora em Porto Alegre
e é costureira aposentada. Tinha 12 anos quando foi
separada dos pais, que nunca mais viu, e ainda traz tatuado
no braço o número de identificação
que recebeu no campo de concentração de Auschwitz.
"Esse cheque é uma miséria. Dinheiro nenhum
paga o que passamos", diz.