O bote do inverno
A pele de cobra volta mudada na cor e na
forma,
mas os preços continuam envenenados
Rachel Campello
Elena Vettorazzo

Pele
de cobra, todo mundo sabe como é: rajadinha de branco,
preto e cinza, do tipo que cobriu cintos, bolsas, carteiras
e sapatos finos até a década de 70, quando
saiu de moda por força da mobilidade dos gostos e
do barulho das brigadas de proteção aos animais
em extinção. Pois neste inverno a velha, boa
e cara pele de cobra volta com toda a força
e volta bastante diferente. Mudaram, primeiro, as cores.
Graças a processos modernos de tratamento e tingimento,
agora tem cobra vermelha, azul, amarela, verde, ao gosto
do freguês. Mudou também a forma. Além
dos tradicionais sapatos e bolsas, elas deram o bote em
direção às roupas. A inspiração,
digamos, partiu, como de costume, das passarelas francesas,
em que Chanel, Gucci e Jean-Paul Gaultier, entre outros,
exibiram vestidos, saias e até brincos de cobra nas
coleções de inverno apresentadas em meados
do ano passado. Agora, com o inverno brasileiro chegando
às vitrines cheio de brilho, luxo e sofisticação,
a cobra repaginada, verdadeira ou não, faz a festa.
"Os adornos estão em alta. As pessoas querem o exagero,
querem se enfeitar", diz a estilista Serpui Marie, de São
Paulo.
Fotos: Marcelo Saraiva
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Mules marrom e vermelha e botas
caramelo: 36 cores
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Adaptação
a novas formas: quatro peles fazem uma saia
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Houve tempo no Brasil em que a caça de cobra era
abundante e a pele, produto típico do país,
daqueles que o turista acha irresistíveis. "Na década
de 60, qualquer um comprava pele de cobra na Praça
Mauá, no Rio de Janeiro", lembra o consultor de moda
Fernando de Barros. Atualmente é proibido caçar
cobra para vender, e a produção dos poucos
criadores vai sobretudo para laboratórios que usam
o veneno e lojas de bichinhos de estimação.
O controle ficou mais rigoroso ainda a partir de 1994, quando
o Ibama passou a exigir também dos importadores uma
licença especial para cada pele comprada fora. Mesmo
com a exigência, o comércio, puxado pela moda,
cresceu mais de 50% no ano passado: saltou de 6.500
para 10.000 peles importadas
do Sudeste Asiático, sobretudo da Malásia
e Indonésia. O material chega ao Brasil em estado
bruto e aqui é curtido mais macio para roupas,
mais firme para calçados e bolsas e tingido
em 36 cores. Quanto mais desenhos tiver a pele, mais valiosa
ela é. A imensa píton (a do filme Anaconda
é uma delas, exagerada) e a naja de pescoço
dilatado, a preferida dos encantadores de serpentes, são
as estrelas das coleções. Depois de devidamente
curtidas e tingidas, os estilistas entram em ação:
duas peles viram um par de sapatos ou uma bolsa pequena,
quatro são suficientes para uma saia ou um par de
botas.
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Jaquetinha básica, a campeã
do luxo: 5 000 reais na loja
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Design moderno: a bolsa da vovó
revisitada
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Uma peça só Por ser pequena
e relativamente escassa, a pele de cobra é hoje,
como sempre foi, muito cara: enquanto 1 metro quadrado de
couro de boi custa à confecção cerca
de 30 reais, a mesma medida aplicada à cobra sairia
por 500 reais. Adicionem-se a isso corte, design e um nome
de peso na etiqueta, e os preços vão às
alturas. Uma saia básica das coleções
deste inverno passa de 1.000
reais; uma jaqueta chega a 5.000;
sapatos e bolsas estão por volta de 700 reais. Quem,
mesmo assim, se dispuser a sacar o talão de cheques
em nome da moda precisa ter em mente que o charme, nesse
caso, está nos detalhes e que a pele não deve
jamais extrapolar os limites de uma uma só
peça do vestuário. "Coisas marcantes,
como a cobra, são comprometedoras", explica Nelson
Alvarenga, dono da grife Ellus. "É preciso ter muito
bom senso para não ficar ridícula." Tomado
esse cuidado, é só aproveitar enquanto durar.
"Como tudo, essa onda também vai passar", avisa a
estilista Riccy Trussardi Sousa Aranha, da paulista Mixed.
"Mas, por ser um artigo fino, vale guardar e reciclar no
futuro."