Edição 1 636 - 16/2/2000

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Só Freud explica

Apaixonados por divã e Woody Allen, os
argentinos fazem a festa dos psicanalistas

Raul Juste Lores

 
José L. Soldini

Bar com iniciais de Freud: angústia,
muita angústia


As neuroses e o sofrimento dos seis pacientes de um grupo de terapia, comandado por um psicanalista camarada, compõem o enredo de Vulneráveis, o mais badalado seriado da TV argentina em todos os tempos. Apesar do horário em que é exibido (terça- feira, às 11 da noite), 5 milhões de argentinos acompanham as agruras de personagens como a virgem de 30 anos que sofre de incontinência urinária e divide antidepressivos com a mãe. O sucesso é tão grande que na internet há vários chats de fãs do programa, em que se discutem à exaustão os problemas dos personagens. Por trás do sucesso de Vulneráveis está a especial atração que os argentinos sentem por um divã. Buenos Aires é o paraíso mundial da psicanálise.

Na capital argentina há 19.000 psicólogos, um para cada 160 habitantes. Em São Paulo, com população quase quatro vezes maior, a proporção é de um psicólogo para 521 habitantes. Os consultórios portenhos vivem abarrotados de pacientes. O serviço público de saúde mental de Buenos Aires emprega 1.800 psicólogos. Conhecida como Villa Freud, uma região do tradicional bairro de Palermo concentra mais de 1.000 consultórios psicológicos, além de uma livraria especializada e um bar-restaurante sugestivamente chamado SiGi – as letras iniciais do nome do pai da psicanálise, Sigmund Freud. "Somos muito angustiados, muito trágicos", explica o ator Jorge Marrale, que interpreta o terapeuta Guillermo Segura na série de TV. "Quando você ouve o tango, sente nossa tragédia", afirma Alberto Goldin, um psicanalista argentino radicado no Rio de Janeiro.

 

 
Sweetland Films B V

Filmes de Woody Allen: mais tempo em cartaz na Argentina


Uma das explicações para o fenômeno está na própria formação da sociedade local, de imigrantes que sonhavam voltar para sua terra natal. "Buenos Aires foi povoada por imigrantes que não conseguiram terras prometidas pelo governo", conta o psicanalista Germán García, autor do livro A Entrada da Psicanálise na Argentina. "Por essa razão, no final do século XIX um em cada dois imigrantes voltou para trás. Aqui ficaram só aqueles que não tinham mesmo para onde ir." Hoje, muitos portenhos nem sequer podem reconstituir sua árvore genealógica: os sobrenomes dos antepassados, analfabetos na maioria, foram alterados na hora do registro de imigrantes recém-chegados. O escritor Jorge Luis Borges dizia que argentinos são europeus no exílio. "Só que os europeus não nos reconhecem como tais", afirma García. "Somos a soma dessas frustrações, a de não possuir identidade e a de não ser aceitos como europeus."

A angústia da identidade perdida se reflete em vários aspectos da sociedade portenha. Na Argentina, os filmes do neurótico Woody Allen costumam ficar mais tempo em cartaz do que nos outros países. "Os portenhos, como o próprio Allen, tendem a acreditar que têm mais problemas que o resto do mundo", afirma o correspondente do jornal The Washington Post em Buenos Aires, o americano Anthony Faiola. A comédia Máfia no Divã, com Robert De Niro e Billy Crystal, sucesso moderado nos Estados Unidos e no Brasil, ficou mais de seis meses em cartaz e várias semanas em primeiro lugar. "Não tenho dúvidas de que esse filme fará enorme sucesso aqui, porque nunca vi tantos psicólogos por metro quadrado", afirmou Robert De Niro à imprensa argentina na época do lançamento.