Só Freud explica
Apaixonados por divã e Woody Allen,
os
argentinos fazem a festa dos psicanalistas
Raul Juste Lores
José L. Soldini
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Bar com iniciais de Freud: angústia,
muita angústia
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As neuroses e o sofrimento dos seis pacientes de um grupo
de terapia, comandado por um psicanalista camarada, compõem
o enredo de Vulneráveis, o mais badalado seriado
da TV argentina em todos os tempos. Apesar do horário
em que é exibido (terça- feira, às
11 da noite), 5 milhões de argentinos acompanham
as agruras de personagens como a virgem de 30 anos que sofre
de incontinência urinária e divide antidepressivos
com a mãe. O sucesso é tão grande que
na internet há vários chats de fãs
do programa, em que se discutem à exaustão
os problemas dos personagens. Por trás do sucesso
de Vulneráveis está a especial atração
que os argentinos sentem por um divã. Buenos Aires
é o paraíso mundial da psicanálise.
Na capital argentina há 19.000
psicólogos, um para cada 160 habitantes. Em São
Paulo, com população quase quatro vezes maior,
a proporção é de um psicólogo
para 521 habitantes. Os consultórios portenhos vivem
abarrotados de pacientes. O serviço público
de saúde mental de Buenos Aires emprega 1.800
psicólogos. Conhecida como Villa Freud, uma região
do tradicional bairro de Palermo concentra mais de 1.000
consultórios psicológicos, além de
uma livraria especializada e um bar-restaurante sugestivamente
chamado SiGi as letras iniciais do nome do pai da
psicanálise, Sigmund Freud. "Somos muito angustiados,
muito trágicos", explica o ator Jorge Marrale, que
interpreta o terapeuta Guillermo Segura na série
de TV. "Quando você ouve o tango, sente nossa tragédia",
afirma Alberto Goldin, um psicanalista argentino radicado
no Rio de Janeiro.
Sweetland Films B V
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Filmes de Woody Allen: mais tempo
em cartaz na Argentina
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Uma das explicações para o fenômeno está
na própria formação da sociedade local,
de imigrantes que sonhavam voltar para sua terra natal. "Buenos
Aires foi povoada por imigrantes que não conseguiram
terras prometidas pelo governo", conta o psicanalista Germán
García, autor do livro
A Entrada da Psicanálise
na Argentina. "Por essa razão, no final do século
XIX um em cada dois imigrantes voltou para trás. Aqui
ficaram só aqueles que não tinham mesmo para
onde ir." Hoje, muitos portenhos nem sequer podem reconstituir
sua árvore genealógica: os sobrenomes dos antepassados,
analfabetos na maioria, foram alterados na hora do registro
de imigrantes recém-chegados. O escritor Jorge Luis
Borges dizia que argentinos são europeus no exílio.
"Só que os europeus não nos reconhecem como
tais", afirma García. "Somos a soma dessas frustrações,
a de não possuir identidade e a de não ser aceitos
como europeus."
A angústia da identidade perdida se reflete em
vários aspectos da sociedade portenha. Na Argentina,
os filmes do neurótico Woody Allen costumam ficar
mais tempo em cartaz do que nos outros países. "Os
portenhos, como o próprio Allen, tendem a acreditar
que têm mais problemas que o resto do mundo", afirma
o correspondente do jornal The Washington Post em
Buenos Aires, o americano Anthony Faiola. A comédia
Máfia no Divã, com Robert De Niro e
Billy Crystal, sucesso moderado nos Estados Unidos e no
Brasil, ficou mais de seis meses em cartaz e várias
semanas em primeiro lugar. "Não tenho dúvidas
de que esse filme fará enorme sucesso aqui, porque
nunca vi tantos psicólogos por metro quadrado", afirmou
Robert De Niro à imprensa argentina na época
do lançamento.