A vítima tem 13 anos
Essa é a idade em que os jovens
brasileiros começam
a fumar, segundo pesquisa inédita feita sobre o assunto
Cristine Prestes
Ricardo Benichio
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Promotores de empresas de cigarro
em um bar: os jovens precisam de sete anos para se
desintoxicar
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O Ministério da Saúde patrocinou na última
década diversas campanhas de orientação:
contra as drogas, o consumo de álcool e de prevenção
ao vírus da Aids. Essas propagandas de conscientização,
em geral voltadas ao jovem, público mais sujeito
a vícios e doenças, são vitais como
instrumento de alerta à sociedade. Uma pesquisa recente
preparada pela Santa Casa de Misericórdia do Rio
de Janeiro sugere que talvez se deva adicionar um novo tema
à lista de campanhas do governo: o tabagismo na adolescência.
O levantamento, feito em um grupo de 800 fumantes em quatro
capitais, mostra que os brasileiros começam a fumar
cedo: aos 13 anos, em média. A pesquisa ganha contornos
mais graves quando examinada em conjunto com outros trabalhos
científicos. Quem começa a fumar na adolescência
terá mais dificuldade de largar o cigarro no futuro
do que aquele que o fez pela primeira vez depois de adulto.
E mais: quando larga o cigarro, o fumante que usa o tabaco
desde a juventude demora mais tempo para se recuperar dos
efeitos da nicotina do que aquele que se viciou na fase
adulta ainda que o segundo tenha fumado durante mais
tempo que o primeiro.
A maior parte dos não fumantes já ouviu
de um avô ou tio comentário a respeito da idade
que tinham ao fumar pela primeira vez. Eram em geral muito
jovens. Os fumantes nem precisam recorrer aos parentes.
Recordam-se da própria experiência, ocorrida
quase sempre nessa fase da vida, por volta dos 13 ou 14
anos. O trabalho da Santa Casa do Rio é especial
por ser o primeiro a levantar o ano da iniciação
no mundo da fumaça no Brasil. De acordo com o critério
adotado na pesquisa, fumar não significa dar uma
tragada no cigarro do amigo. Fumar é consumir cigarros
regularmente. Segundo os especialistas, depois de seis meses
fumando todo dia, o adolescente está quimicamente
dependente do cigarro. Os pesquisadores da Santa Casa esperam
agora conscientizar entidades não governamentais
e principalmente Brasília da necessidade de contra-atacar.
"Sabendo quantos anos tem o novo fumante, o governo pode
elaborar campanhas de prevenção apropriadas
a essa faixa de idade", diz a coordenadora da pesquisa da
Santa Casa do Rio, a psiquiatra Analice Gigliotti.
Para
a ciência, o adolescente que fuma meio maço
de cigarros por dia e o adulto que traga igual quantidade
não formam o mesmo grupo de viciados. A Organização
Mundial de Saúde, OMS, possui alguns estudos que
apresentam com clareza o impacto do cigarro sobre jovens.
De acordo com essas pesquisas, 99% dos adolescentes que
dão as primeiras tragadas se tornam fumantes. O número
fica ainda mais espantoso se comparado com dois outros vícios.
Entre os jovens que fumam maconha, a metade acaba se viciando.
Com álcool, a dependência é ainda menor:
12% dos que bebem na adolescência passam a ser alcoólatras.
Um dos trabalhos mais impressionantes comparando o vício
entre jovens e adultos foi preparado sob encomenda da OMS.
Ele mostra que um adolescente demora até sete anos
para se livrar dos efeitos da nicotina. "Já uma pessoa
que começa a fumar aos 30 anos consegue 'limpar'
seu cérebro da nicotina em seis meses de abstinência",
afirma o psiquiatra Jorge Alberto Costa e Silva, diretor
do Centro Internacional de Política de Saúde
da OMS. As razões dessa diferença estão
sendo investigadas. Começar a fumar é fácil.
Difícil é parar. De cada grupo de dez fumantes,
seis tentaram parar, segundo a pesquisa da Santa Casa. A
média de tentativas é de três a quatro
na vida, mas os resultados são desencorajadores.
As estatísticas mundiais afirmam que apenas 3% dos
fumantes conseguem abandonar o cigarro de vez.
Curiosidade e ritual O fumo na adolescência
é uma preocupação mundial, não
um problema brasileiro. A diferença é o tratamento
que os diversos países dão ao assunto. Alguns
deles patrocinam ações firmes de combate ao
tabagismo entre os jovens. Nos Estados Unidos, o governo
mantém uma campanha cujos termos lembram as propagandas
antidroga. Intitulada "Aprenda a dizer não" e dirigida
aos estudantes, conseguiu em apenas dois anos reduzir o
índice de experimentação de cigarro
de 64% para 55% entre jovens. É um número
muito expressivo. No Canadá, onde 29% dos adolescentes
são fumantes, o governo propôs uma mudança
radical nos tradicionais avisos que são impressos
nos maços. O governo canadense quer convencer as
fábricas de cigarro a substituir os alertas pouco
convincentes do tipo "Fumar faz mal à saúde"
por fotografias horríveis com dizeres ainda mais
horríveis. Dois modelos dos novos avisos podem ser
vistos nesta página. Infelizmente o Brasil integra
outro grupo de países: aqueles que não dão
a devida atenção ao assunto. "Se aos 13 anos
os brasileiros já fumam regularmente, é claro
que não adianta somente escrever aquele alertazinho
no maço de cigarros", afirma Analice Gigliotti, da
Santa Casa. "É preciso fazer pesquisas mais aprofundadas
sobre o tabagismo entre os jovens." O Ministério
da Saúde informa que vai encomendar uma pesquisa
ampla sobre cigarro para então decidir o que fazer.
A pesquisa ainda está sem data.
O número de jovens que experimentam o cigarro vem
crescendo a olhos vistos. De acordo com um trabalho realizado
de 1993 a 1997 pelo Centro Brasileiro de Informações
sobre Drogas Psicotrópicas, da Universidade Federal
de São Paulo, o porcentual de adolescentes de 13
a 15 anos que já havia fumado algum cigarro na vida
subiu de 24% para 32%. Um toxicologista da Universidade
Estadual Paulista, Igor Vassilieff, distribuiu um questionário
entre adolescentes para listar as razões que levam
o jovem ao vício de fumar. As respostas encontradas
nos questionários mostram que o cigarro está
associado ao processo de formação da identidade
desses jovens. "Alguns fumam por curiosidade, outros por
acreditar que o tabaco não pode fazer tanto mal assim",
diz Vassilieff. "Em qualquer um dos casos é um ritual
de entrada na adolescência." Adolescentes fumantes
dão as primeiras tragadas com amigos, passam a fumar
à noite, durante festas, e em poucos meses estão
comprando um maço na padaria ou no bar. No Brasil,
uma em cada três pessoas com mais de 16 anos fuma
mais de um cigarro por dia.
As conseqüências são dramáticas
para o jovem em particular e para a saúde pública
em geral. Estudo do Instituto Nacional do Câncer afirma
que eram fumantes:
25% das vítimas fatais de doença coronariana
e cerebrovascular;
85% dos mortos por doenças pulmonares, como a bronquite
e o enfisema;
90% das pessoas que morreram por câncer no pulmão.
Em números, isso significa que o cigarro tem relação
com cerca de 100.000 mortes por
ano no Brasil. São onze mortes por hora, três
vezes mais que os óbitos registrados no trânsito
e mais que o dobro do número de assassinatos num
ano. VEJA enviou dados da pesquisa da Santa Casa para que
fossem comentados pelas companhias Souza Cruz e Philip Morris.
As empresas não os desmentiram, mas as assessorias
de imprensa informaram por fax que optariam pelo silêncio.
A fase da campanha
agressiva
O governo do Canadá propôs uma mudança
nos dizeres escritos nas embalagens dos cigarros.
Em vez do tradicional "Fumar faz mal à saúde",
a nova instrução é orientar as
empresas a colocar nos maços fotos coloridas
de corações enfermos e de pulmões
e lábios afetados pelo câncer. São
imagens chocantes, com o objetivo de reduzir a taxa
de 29% de fumantes entre adolescentes. A indústria
informa não estar disposta a aceitar a determinação,
e o caso deve parar na Justiça. O quadro mostra
dois exemplos da nova campanha.
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Tradução:
"Alerta: mortal mesmo para quem não fuma.
A fumaça de um cigarro contém
substâncias tóxicas, como ácido
cianídrico, formaldeído e benzeno."
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Tradução:
"Alerta: cigarros causam doenças na boca.
O fumo provoca câncer, perda de dentes
e pode levar a doenças na gengiva."
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