Pé
direito, pessoal!
O
ano 2000 está aí. Este
é um excelente momento
para começarmos
com o
pé direito,
contribuindo
efetiva e conjuntamente
para melhorar
esta nação
Ilustração
Alê Setti

Imaginem
um país se preparando para o ano 2000 onde
o presidente não preside, o ministro não
ministra, os banqueiros não bancam (só
emprestam para o governo), no qual os economistas
não economizam, os empreendedores não
empreendem, os auditores não auditam, os
contadores não contabilizam, os investidores
não investem (só especulam), os
guardas não guardam, os zeladores não
zelam, os contribuintes não contribuem,
os pensadores não pensam, os pesquisadores
não pesquisam, os educadores não
educam e os estudantes não estudam. A chance
de algo dar certo num lugar como esse é
simplesmente 0%.
Felizmente,
esse não é o caso do nosso Brasil.
Agora,
imaginem outro país, onde o presidente
consegue conduzir apenas 60% de suas metas, o
ministro da Fazenda prevê 60% das crises
que irão acontecer e os banqueiros emprestam
60% de seus depósitos. Imaginem, também,
que somente 60% das pesquisas realizadas são
bem-feitas, que os alunos são aprovados
com nota 6 e que, um ano depois, eles só
se lembram de 60% do que aprenderam. Em um país
como esse, duas pessoas trabalhando juntas com
60% de eficiência cada uma só conseguem
terminar 36% do que iniciam e três pessoas
trabalhando juntas atingem apenas 21% de sucesso
conjunto. Desse modo, uma cadeia produtiva de
doze elos converge rapidamente para 1% de sucesso
no final. Ou seja, um país com praticamente
os mesmos resultados que os do primeiro exemplo.
No
entanto, não podemos esquecer que 60% de
eficiência não é um valor
tão baixo assim. É possível
ficar milionário na bolsa acertando 60%
das ações compradas, e jogador que
converte 60% dos chutes a gol vira herói
nacional.
Quem
reclama que o "governo" não está
atuando a 100% de sua capacidade deveria primeiro
indagar sobre a própria produtividade.
Nosso nível de eficiência ou ineficiência
pessoal tem o mesmo peso e a importância
que a eficiência do presidente ou de um
ministro. Isso acontece porque a força
total de uma corrente produtiva é igual
à força de seu elo mais fraco.
O
ponto a que estou querendo chegar é que,
para um país complexo como o Brasil dar
certo, todos terão de fazer sua pequena
parte com eficiência e esmero, por menor
que ela seja.
O
ano 2000 está aí. Este é
um excelente momento para começarmos com
o pé direito, contribuindo efetiva e conjuntamente
para melhorar esta nação. Vamos
criar um país onde os economistas economizam,
os administradores administram, os empreendedores
empreendem, os estudantes estudam, e assim por
diante.
Nesse
contexto, nossos políticos, nossa igreja
e a própria imprensa estão perdendo
enorme oportunidade de fazer campanhas sociais,
aquelas que só dão certo se todo mundo
mudar de comportamento ao mesmo tempo. Por exemplo,
campanhas em prol da honestidade e do pagamento
de impostos, contra jogar lixo na rua, a favor da
cidadania, campanhas essas que precisam de uma data
mágica para funcionar, como o ano 2000.
Sociólogos
adoram revoluções justamente porque
elas mudam o comportamento de todos em curto espaço
de tempo. Ações sociais implicam
lento processo de educação e conscientização,
na maioria das vezes fracassam porque os primeiros
convertidos desistem ao longo do caminho por se
sentirem perfeitos idiotas, antes mesmo que os
últimos sejam conscientizados. Como se
sentem, por exemplo, os brasileiros que atualmente
pagam todos os impostos?
Felizmente,
ainda temos uma segunda chance para mudar. Vamos
torcer para que, nas comemorações
dos 500 anos do Descobrimento, o foco principal
seja o futuro, e não o que passou.
Vamos
entrar no ano 2000 com o pé direito, cada
um fazendo sua parte, exercendo seu pequeno papel
na sociedade com seriedade e propriedade.
Stephen
Kanitz
é administrador (www.kanitz.com.br)