Edição 1 628 -15/12/1999

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Pé direito, pessoal!

O ano 2000 está aí. Este é um excelente momento
para
começarmos com o pé direito, contribuindo
efetiva e
conjuntamente para melhorar esta nação

 

Ilustração Alê Setti

I
maginem um país se preparando para o ano 2000 onde o presidente não preside, o ministro não ministra, os banqueiros não bancam (só emprestam para o governo), no qual os economistas não economizam, os empreendedores não empreendem, os auditores não auditam, os contadores não contabilizam, os investidores não investem (só especulam), os guardas não guardam, os zeladores não zelam, os contribuintes não contribuem, os pensadores não pensam, os pesquisadores não pesquisam, os educadores não educam e os estudantes não estudam. A chance de algo dar certo num lugar como esse é simplesmente 0%.

Felizmente, esse não é o caso do nosso Brasil.

Agora, imaginem outro país, onde o presidente consegue conduzir apenas 60% de suas metas, o ministro da Fazenda prevê 60% das crises que irão acontecer e os banqueiros emprestam 60% de seus depósitos. Imaginem, também, que somente 60% das pesquisas realizadas são bem-feitas, que os alunos são aprovados com nota 6 e que, um ano depois, eles só se lembram de 60% do que aprenderam. Em um país como esse, duas pessoas trabalhando juntas com 60% de eficiência cada uma só conseguem terminar 36% do que iniciam e três pessoas trabalhando juntas atingem apenas 21% de sucesso conjunto. Desse modo, uma cadeia produtiva de doze elos converge rapidamente para 1% de sucesso no final. Ou seja, um país com praticamente os mesmos resultados que os do primeiro exemplo.

No entanto, não podemos esquecer que 60% de eficiência não é um valor tão baixo assim. É possível ficar milionário na bolsa acertando 60% das ações compradas, e jogador que converte 60% dos chutes a gol vira herói nacional.

Quem reclama que o "governo" não está atuando a 100% de sua capacidade deveria primeiro indagar sobre a própria produtividade. Nosso nível de eficiência ou ineficiência pessoal tem o mesmo peso e a importância que a eficiência do presidente ou de um ministro. Isso acontece porque a força total de uma corrente produtiva é igual à força de seu elo mais fraco.

O ponto a que estou querendo chegar é que, para um país complexo como o Brasil dar certo, todos terão de fazer sua pequena parte com eficiência e esmero, por menor que ela seja.

O ano 2000 está aí. Este é um excelente momento para começarmos com o pé direito, contribuindo efetiva e conjuntamente para melhorar esta nação. Vamos criar um país onde os economistas economizam, os administradores administram, os empreendedores empreendem, os estudantes estudam, e assim por diante.

Nesse contexto, nossos políticos, nossa igreja e a própria imprensa estão perdendo enorme oportunidade de fazer campanhas sociais, aquelas que só dão certo se todo mundo mudar de comportamento ao mesmo tempo. Por exemplo, campanhas em prol da honestidade e do pagamento de impostos, contra jogar lixo na rua, a favor da cidadania, campanhas essas que precisam de uma data mágica para funcionar, como o ano 2000.

Sociólogos adoram revoluções justamente porque elas mudam o comportamento de todos em curto espaço de tempo. Ações sociais implicam lento processo de educação e conscientização, na maioria das vezes fracassam porque os primeiros convertidos desistem ao longo do caminho por se sentirem perfeitos idiotas, antes mesmo que os últimos sejam conscientizados. Como se sentem, por exemplo, os brasileiros que atualmente pagam todos os impostos?

Felizmente, ainda temos uma segunda chance para mudar. Vamos torcer para que, nas comemorações dos 500 anos do Descobrimento, o foco principal seja o futuro, e não o que passou.

Vamos entrar no ano 2000 com o pé direito, cada um fazendo sua parte, exercendo seu pequeno papel na sociedade com seriedade e propriedade.

Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)