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versão 99
Um
novo tipo de rebeldia, capaz de reunir
no
mesmo
barco ambientalistas, operários
e
produtores de queijo
roquefort, desafia um
inimigo comum, a globalização
Rogério
Simões
O
fenômeno se repete na versão anos
90. Nos anos 60, havia estudantes rebelados em
Paris, nas universidades americanas e até
no Brasil, pregando a derrubada do que consideravam
um mundo velho. Nos anos 70, tínhamos hippies
dispostos a virar do avesso as convenções
sociais. Agora, há verdes, lésbicas
radicais, anarquistas e outras tribos díspares.
É a eterna rebeldia da juventude
mas o que se tem às vésperas do
século XXI é um fenômeno de
características muito próprias e,
curiosamente, só agora se começa
a ter o perfil do novo rebelde. As voltas que
o mundo dá. Trinta anos atrás, quando
as relações entre as nações
eram regidas pela rivalidade entre as superpotências,
foi preciso a garotada explodir ruidosamente no
megafestival de Woodstock, em 1969, para o mundo
perceber a revolução cultural em
marcha. Hoje o comunismo não é mais
uma alternativa, os países industrializados
vivem uma era de abundância sem paralelo
e não há guerras que valham a pena
ser lutadas. Mas mais uma vez se demorou para
ver o óbvio. Foi em Seattle, no norte dos
Estados Unidos, que finalmente se obteve um retrato
de como jovens de hoje estão realizando
a tarefa de romper com o mundo de seus pais. A
globalização é o novo alvo
da inquietação da juventude.
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Saco
de gatos
Todo
mundo tinha algo para dizer
nas ruas de Seattle
Ambientalistas
Incluía
desde movimentos bem conhecidos, como
o Greenpeace, e temas badalados, como
a preservação da Amazônia
e a proibição dos alimentos
transgênicos, até grupelhos
preocupados com as tartarugas marinhas.
Agricultores
franceses
José
Bové, fundador da Confederação
Camponesa, foi tratado como herói.
Suas bandeiras: o fim das barreiras americanas
a produtos como o queijo roquefort e,
claro, a manutenção dos
gordos subsídios à categoria
na terra natal.
Anarquistas
São
contrários à tecnologia
moderna, ao consumismo e à hierarquia
nas empresas. Em nome da igualdade, depredaram
lojas e enfrentaram a polícia.
Direitos
Humanos Há
causas para todos os gostos. Em defesa
da liberdade do Tibete, pelo fim do trabalho
infantil ou da pena de morte.
Médicos
sem Fronteiras A
organização humanitária
premiada com o Nobel da Paz deste ano
quer remédios mais baratos
para combater a Aids em países
pobres
Direitos
Humanos
Há
causas para todos os gostos. Em defesa
da liberdade do Tibete, pelo fim do trabalho
infantil ou da pena de morte.
Vingadoras
Lésbicas de Seattle O
grupo homossexual organizou um topless
cívico contra o uso de hormônio
de crescimento na criação
de gado. O mistério é saber
o que elas têm a ver com isso.
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Seattle
serviu de palco porque ali se realizou a conferência
da Organização Mundial do Comércio,
OMC. O objetivo era lançar a rodada de
negociações para o novo milênio,
de vital interesse para o comércio mundial.
A reunião, que terminou na madrugada de
sábado 4, num mar de divergências
e confusão entre os participantes, serviu
de chamariz para todo tipo de contestador. Um
contingente de 40.000
pessoas desembarcou lá, atendendo à
convocação de organizações
ou simplesmente por ter ficado sabendo pela internet,
para uma ruidosa manifestação contra
a globalização. O que tornou Seattle
especial foi a oportunidade de ver representadas
todas as tendências da nova rebeldia. A
multidão disparatada misturou metalúrgicos
e caminhoneiros americanos, as Irmãs da
Perpétua Indulgência (travestis que
se fantasiam de freira), lésbicas de peito
nu, anarquistas, punks, ativistas dos direitos
dos animais, fabricantes franceses de queijo roquefort,
militantes pela independência do Tibete,
políticos conservadores americanos e toda
espécie de estudante em busca de farra.
Quando alguns mais afoitos começaram a
depredar lojas e foram contidos pela polícia,
podia-se pensar no renascimento de uma militância
ao estilo dos anos 60. Não é bem
assim.
Os
novos rebeldes são de outra cepa. Beneficiários
de um período de prosperidade, têm
dinheiro e tempo suficientes para se dedicar a
uma semana de festival contestatório. A
atividade militante decorre num ambiente em que
essas preocupações recebem suporte
social e envolvem pouquíssimo risco. Não
se pode imaginar a existência de lésbicas
militantes no Congo ou ambientalistas no Sudão.
Nesses países, o que está na ordem
do dia é como pôr fim às rivalidades
tribais, conter epidemias e colocar um prato de
comida na mesa de cada habitante. Nesse sentido,
a globalização é o alvo perfeito.
O conceito é novo, supranacional e veio
para dar um rumo diferente às relações
entre os países. Como toda transformação,
causa medo. Vozes se levantam por diferentes razões
contra o fenômeno só isso
pode explicar o estranho espetáculo do
topless das lésbicas contra o uso de hormônio
na produção de carne bovina. "As
empresas transnacionais são o poder que
atinge as democracias e as instituições
no mundo, e nós temos de defender nossos
valores", disse a VEJA um dos organizadores dos
protestos em Seattle, Mike Dolan, da ONG Public
Citizen. "Nesse sistema, os ricos ficam mais ricos
e os pobres, mais pobres." A declaração
é um exemplo das contradições
da multidão festiva reunida num único
saco de gatos.
Os
sindicalistas querem impedir a transferência
da fábrica para a Indonésia por
se preocuparem com o próprio emprego. O
ambientalista, por sua vez, teme que a fábrica
vá poluir o meio ambiente indonésio.
Outro denuncia o trabalho infantil no Brasil e
se aflige com a saúde da Floresta Amazônica.
O crime ambiental e o abuso contra a criança
são mazelas típicas de países
pobres. Não são características
da Suíça ou dos Estados Unidos.
Quando se priva uma nação dos benefícios
do comércio internacional ou se impede
que nela se instale uma nova indústria,
o que se está fazendo é condená-la
a continuar pobre. Por ser pobre, ela continuará
dilapidando seu patrimônio humano e ambiental.
É um circulo vicioso, que escapa à
massa ululante nas ruas, mas é perfeitamente
entendido pelos engravatados.
O
líder dos agricultores franceses José
Bové comandou um ataque com marretas contra
um McDonald's francês em construção,
há quatro meses. Era um protesto contra
barreiras impostas nos Estados Unidos a produtos
franceses, como queijos e vinhos. Recebido como
herói em Seattle, ele está à
vontade com os gordos subsídios recebidos
em seu país. É fácil entender.
Está na moda atribuir malefícios
aos negócios globais, como McDonald's,
Microsoft, Nike e, logicamente, Coca-Cola. O dano
real, contudo, é causado pelo protecionismo
agrícola, que impede que a França
importe produtos típicos dos países
pobres. O resultado é que Bové põe
mais dinheiro no bolso e os países pobres
ficam mais pobres. No caso do camarão,
por exemplo, os americanos exigiram que a pesca
no Brasil incluísse dispositivos de preservação
das tartarugas. Com isso, as exportações
brasileiras para os Estados Unidos, que somavam
35 milhões de dólares em 1995, caíram
para 7,4 milhões no ano passado. Os protestos
em Seattle mostram que os problemas das nações
emergentes não são percebidos pela
opinião pública dos países
ricos.
Não
é difícil entender o sentimento
de perda de controle num mundo em rápida
transformação, turbinado pelo capitalismo
global. Não é a primeira vez que
uma parcela grande da população
treme diante de uma novidade com poder de revolucionar
seu modo de vida. Dois séculos atrás,
muita gente temeu que a Revolução
Industrial fosse pôr fim ao trabalho manual,
aos valores e a culturas tradicionais. Nada disso
ocorreu. Multiplicaram-se os empregos, e foi possível
gerar riqueza suficiente para criar um estado
de bem-estar social para os trabalhadores. Neste
momento, as pessoas sentem-se impotentes diante
do crescimento das corporações e
da facilidade com que os negócios trafegam
de um lado a outro sem ligar para fronteiras.
Curiosamente, a mais notável característica
da nova rebeldia é seu caráter universal.
O movimento contra a Guerra do Vietnã foi
exclusivamente americano. O maio de 68 era francês
até os ossos. Muitos dos conceitos atuais
são, de certa forma, universais. É
o caso dos ecológicos a defesa das
florestas tropicais, a proteção
das tartarugas marinhas e o direito de os europeus
rejeitarem o alimento geneticamente modificado.
Há
certa ironia numa rebelião que junta gente
preocupada com o bem-estar das tartarugas e sindicalistas
dispostos a erguer barricadas para defender seu
ganha-pão. Sem falar que entrou no mesmo
barco uma versão mais radical e desesperada
do anarquismo (veja
quadro abaixo).
É uma lembrança que vem a calhar,
pois o mundo da militância ecológica
está longe de ser pacífico. Ecoterroristas
ingleses costumam atacar fazendas de criação
de animais destinados à indústria
de peles e enviam cartas-bomba aos proprietários.
Em junho, uma multidão saiu às ruas
de Londres para defender o perdão da dívida
externa dos países mais pobres, uma das
mais populares bandeiras da atualidade, com o
apoio desde o papa João Paulo II até
Bono, o líder da banda de rock U2. O protesto,
batizado de "Carnaval contra o capitalismo", descambou
em violência, com 46 feridos e seis indiciados.
A reunião da OMC em Seattle inspirou um
quebra-quebra no centro da capital londrina. Um
carro da polícia foi destruído e
garrafas voavam para todos os lados. O século
está no finalzinho, mas a rebelião
dos anos 90 está começando.
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Um
anarquismo de banda de música
A
face mais curiosa do ativismo dos anos 90
está escondida atrás de uma
bandana pintada com uma letra A dentro de
um círculo. Em Seattle, com tantos
grupos diferentes tentando chamar para si
a atenção, era fácil
perceber os anarquistas, justamente aqueles
que tinham menos a reivindicar por lá.
Composto em sua maioria de jovens, muitos
deles bem-nascidos, o novo anarquismo americano
dificilmente seria reconhecido como tal
pelos pais da ideologia, Mikhail Bakunin
ou Pierre-Joseph Proudhon. As palavras de
ordem contra a propriedade privada, estruturas
hierárquicas e governos são
mais ou menos as mesmas. O resto perdeu-se
num melado de música barulhenta e
simbolismo vazio. Esqueça o velho
mote de que era preciso enforcar o último
rei nas tripas do último padre, pois
o neo-anarquismo está em outra. A
palavra de ordem vem do som pesado das bandas
de punk rock Rage Against the Machine e
Chumbawamba. O conceito básico, cunhado
por Malcolm McLaren e seus Sex Pistols nos
anos 70, é que não é
necessário saber tocar um instrumento,
basta ter atitude. Nesse simulacro anarquista,
há espaço para ícones
dos mais variados, que vão desde
o renomado lingüista americano Noam
Chomsky, crítico contumaz do capitalismo,
ao misto de terrorista, filósofo
e ermitão Ted Kaczynski, o Unabomber,
que pregava contra a tecnologia e matava
professores e executivos com cartas-bomba.
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