Edição 1 628 -15/12/1999

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Reunião da OMC em Seattle revela a nova rebeldia
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versão 99

Um novo tipo de rebeldia, capaz de reunir no mesmo
barco ambientalistas, operários
e produtores de queijo
roquefort, desafia
um inimigo comum, a globalização

Rogério Simões

O fenômeno se repete na versão anos 90. Nos anos 60, havia estudantes rebelados em Paris, nas universidades americanas e até no Brasil, pregando a derrubada do que consideravam um mundo velho. Nos anos 70, tínhamos hippies dispostos a virar do avesso as convenções sociais. Agora, há verdes, lésbicas radicais, anarquistas e outras tribos díspares. É a eterna rebeldia da juventude – mas o que se tem às vésperas do século XXI é um fenômeno de características muito próprias e, curiosamente, só agora se começa a ter o perfil do novo rebelde. As voltas que o mundo dá. Trinta anos atrás, quando as relações entre as nações eram regidas pela rivalidade entre as superpotências, foi preciso a garotada explodir ruidosamente no megafestival de Woodstock, em 1969, para o mundo perceber a revolução cultural em marcha. Hoje o comunismo não é mais uma alternativa, os países industrializados vivem uma era de abundância sem paralelo e não há guerras que valham a pena ser lutadas. Mas mais uma vez se demorou para ver o óbvio. Foi em Seattle, no norte dos Estados Unidos, que finalmente se obteve um retrato de como jovens de hoje estão realizando a tarefa de romper com o mundo de seus pais. A globalização é o novo alvo da inquietação da juventude.

Saco de gatos

Todo mundo tinha algo para dizer
nas ruas de Seattle

Ambientalistas – Incluía desde movimentos bem conhecidos, como o Greenpeace, e temas badalados, como a preservação da Amazônia e a proibição dos alimentos transgênicos, até grupelhos preocupados com as tartarugas marinhas.

Agricultores francesesJosé Bové, fundador da Confederação Camponesa, foi tratado como herói. Suas bandeiras: o fim das barreiras americanas a produtos como o queijo roquefort e, claro, a manutenção dos gordos subsídios à categoria na terra natal.

Anarquistas – São contrários à tecnologia moderna, ao consumismo e à hierarquia nas empresas. Em nome da igualdade, depredaram lojas e enfrentaram a polícia.

Direitos Humanos – Há causas para todos os gostos. Em defesa da liberdade do Tibete, pelo fim do trabalho infantil ou da pena de morte.

Médicos sem Fronteiras – A organização humanitária premiada com o Nobel da Paz deste ano quer remédios mais baratos para combater a Aids em países pobres

Direitos Humanos – Há causas para todos os gostos. Em defesa da liberdade do Tibete, pelo fim do trabalho infantil ou da pena de morte.

Vingadoras Lésbicas de Seattle – O grupo homossexual organizou um topless cívico contra o uso de hormônio de crescimento na criação de gado. O mistério é saber o que elas têm a ver com isso.

Seattle serviu de palco porque ali se realizou a conferência da Organização Mundial do Comércio, OMC. O objetivo era lançar a rodada de negociações para o novo milênio, de vital interesse para o comércio mundial. A reunião, que terminou na madrugada de sábado 4, num mar de divergências e confusão entre os participantes, serviu de chamariz para todo tipo de contestador. Um contingente de 40.000 pessoas desembarcou lá, atendendo à convocação de organizações ou simplesmente por ter ficado sabendo pela internet, para uma ruidosa manifestação contra a globalização. O que tornou Seattle especial foi a oportunidade de ver representadas todas as tendências da nova rebeldia. A multidão disparatada misturou metalúrgicos e caminhoneiros americanos, as Irmãs da Perpétua Indulgência (travestis que se fantasiam de freira), lésbicas de peito nu, anarquistas, punks, ativistas dos direitos dos animais, fabricantes franceses de queijo roquefort, militantes pela independência do Tibete, políticos conservadores americanos e toda espécie de estudante em busca de farra. Quando alguns mais afoitos começaram a depredar lojas e foram contidos pela polícia, podia-se pensar no renascimento de uma militância ao estilo dos anos 60. Não é bem assim.

Os novos rebeldes são de outra cepa. Beneficiários de um período de prosperidade, têm dinheiro e tempo suficientes para se dedicar a uma semana de festival contestatório. A atividade militante decorre num ambiente em que essas preocupações recebem suporte social e envolvem pouquíssimo risco. Não se pode imaginar a existência de lésbicas militantes no Congo ou ambientalistas no Sudão. Nesses países, o que está na ordem do dia é como pôr fim às rivalidades tribais, conter epidemias e colocar um prato de comida na mesa de cada habitante. Nesse sentido, a globalização é o alvo perfeito. O conceito é novo, supranacional e veio para dar um rumo diferente às relações entre os países. Como toda transformação, causa medo. Vozes se levantam por diferentes razões contra o fenômeno – só isso pode explicar o estranho espetáculo do topless das lésbicas contra o uso de hormônio na produção de carne bovina. "As empresas transnacionais são o poder que atinge as democracias e as instituições no mundo, e nós temos de defender nossos valores", disse a VEJA um dos organizadores dos protestos em Seattle, Mike Dolan, da ONG Public Citizen. "Nesse sistema, os ricos ficam mais ricos e os pobres, mais pobres." A declaração é um exemplo das contradições da multidão festiva reunida num único saco de gatos.

Os sindicalistas querem impedir a transferência da fábrica para a Indonésia por se preocuparem com o próprio emprego. O ambientalista, por sua vez, teme que a fábrica vá poluir o meio ambiente indonésio. Outro denuncia o trabalho infantil no Brasil e se aflige com a saúde da Floresta Amazônica. O crime ambiental e o abuso contra a criança são mazelas típicas de países pobres. Não são características da Suíça ou dos Estados Unidos. Quando se priva uma nação dos benefícios do comércio internacional ou se impede que nela se instale uma nova indústria, o que se está fazendo é condená-la a continuar pobre. Por ser pobre, ela continuará dilapidando seu patrimônio humano e ambiental. É um circulo vicioso, que escapa à massa ululante nas ruas, mas é perfeitamente entendido pelos engravatados.

O líder dos agricultores franceses José Bové comandou um ataque com marretas contra um McDonald's francês em construção, há quatro meses. Era um protesto contra barreiras impostas nos Estados Unidos a produtos franceses, como queijos e vinhos. Recebido como herói em Seattle, ele está à vontade com os gordos subsídios recebidos em seu país. É fácil entender. Está na moda atribuir malefícios aos negócios globais, como McDonald's, Microsoft, Nike e, logicamente, Coca-Cola. O dano real, contudo, é causado pelo protecionismo agrícola, que impede que a França importe produtos típicos dos países pobres. O resultado é que Bové põe mais dinheiro no bolso e os países pobres ficam mais pobres. No caso do camarão, por exemplo, os americanos exigiram que a pesca no Brasil incluísse dispositivos de preservação das tartarugas. Com isso, as exportações brasileiras para os Estados Unidos, que somavam 35 milhões de dólares em 1995, caíram para 7,4 milhões no ano passado. Os protestos em Seattle mostram que os problemas das nações emergentes não são percebidos pela opinião pública dos países ricos.

Não é difícil entender o sentimento de perda de controle num mundo em rápida transformação, turbinado pelo capitalismo global. Não é a primeira vez que uma parcela grande da população treme diante de uma novidade com poder de revolucionar seu modo de vida. Dois séculos atrás, muita gente temeu que a Revolução Industrial fosse pôr fim ao trabalho manual, aos valores e a culturas tradicionais. Nada disso ocorreu. Multiplicaram-se os empregos, e foi possível gerar riqueza suficiente para criar um estado de bem-estar social para os trabalhadores. Neste momento, as pessoas sentem-se impotentes diante do crescimento das corporações e da facilidade com que os negócios trafegam de um lado a outro sem ligar para fronteiras. Curiosamente, a mais notável característica da nova rebeldia é seu caráter universal. O movimento contra a Guerra do Vietnã foi exclusivamente americano. O maio de 68 era francês até os ossos. Muitos dos conceitos atuais são, de certa forma, universais. É o caso dos ecológicos – a defesa das florestas tropicais, a proteção das tartarugas marinhas e o direito de os europeus rejeitarem o alimento geneticamente modificado.

Há certa ironia numa rebelião que junta gente preocupada com o bem-estar das tartarugas e sindicalistas dispostos a erguer barricadas para defender seu ganha-pão. Sem falar que entrou no mesmo barco uma versão mais radical e desesperada do anarquismo (veja quadro abaixo). É uma lembrança que vem a calhar, pois o mundo da militância ecológica está longe de ser pacífico. Ecoterroristas ingleses costumam atacar fazendas de criação de animais destinados à indústria de peles e enviam cartas-bomba aos proprietários. Em junho, uma multidão saiu às ruas de Londres para defender o perdão da dívida externa dos países mais pobres, uma das mais populares bandeiras da atualidade, com o apoio desde o papa João Paulo II até Bono, o líder da banda de rock U2. O protesto, batizado de "Carnaval contra o capitalismo", descambou em violência, com 46 feridos e seis indiciados. A reunião da OMC em Seattle inspirou um quebra-quebra no centro da capital londrina. Um carro da polícia foi destruído e garrafas voavam para todos os lados. O século está no finalzinho, mas a rebelião dos anos 90 está começando.

 

Um anarquismo de banda de música

A face mais curiosa do ativismo dos anos 90 está escondida atrás de uma bandana pintada com uma letra A dentro de um círculo. Em Seattle, com tantos grupos diferentes tentando chamar para si a atenção, era fácil perceber os anarquistas, justamente aqueles que tinham menos a reivindicar por lá. Composto em sua maioria de jovens, muitos deles bem-nascidos, o novo anarquismo americano dificilmente seria reconhecido como tal pelos pais da ideologia, Mikhail Bakunin ou Pierre-Joseph Proudhon. As palavras de ordem contra a propriedade privada, estruturas hierárquicas e governos são mais ou menos as mesmas. O resto perdeu-se num melado de música barulhenta e simbolismo vazio. Esqueça o velho mote de que era preciso enforcar o último rei nas tripas do último padre, pois o neo-anarquismo está em outra. A palavra de ordem vem do som pesado das bandas de punk rock Rage Against the Machine e Chumbawamba. O conceito básico, cunhado por Malcolm McLaren e seus Sex Pistols nos anos 70, é que não é necessário saber tocar um instrumento, basta ter atitude. Nesse simulacro anarquista, há espaço para ícones dos mais variados, que vão desde o renomado lingüista americano Noam Chomsky, crítico contumaz do capitalismo, ao misto de terrorista, filósofo e ermitão Ted Kaczynski, o Unabomber, que pregava contra a tecnologia e matava professores e executivos com cartas-bomba.