|
|
|
Militares
O caso dos generais
Eles
fizeram e aconteceram.
Para o bem e o mal.
Agora só querem sossego
Leonel Rocha
Para seus defensores,
era Movimento Revolucionário
31 de Março. Para os críticos,
Quartelada de 1º de Abril. Os primeiros
acham que salvaram o Brasil de uma maré
montante esquerdista, perfeitamente
visível no governo João
Goulart, por meio da qual o país
seria irremediavelmente comboiado em
direção a um sistema de
governo socialista ou, pior ainda, a
uma guerra civil. Já os adversários
dos militares acham que o mais notável
do governo dos fardados é que
o Brasil foi privado da democracia e
a repressão se instalou no país,
chegando às câmaras de
tortura, apoiadas por parte da corporação
como forma de combater as organizações
terroristas. Quinze anos depois do fim
da ditadura militar, o que se conclui
sobre aquele período é
que ele foi uma zona de contradições.
Os militares de fato conseguiram modernizar.
Construíram estradas, hidrelétricas,
estimularam fortemente a indústria
nacional. Mas todo o avanço ficou
aquém dos sonhos daqueles que
dirigiam o país a partir da força
de suas estrelas. Os generais remanescentes
daquela fase da História nacional
ilustram de certa forma aquilo que ficou
do regime.
Orlando Britto
 |
 |
|
Figueiredo,
em sua
última aparição
pública
(à dir.)
e
num momento de glória
quando presidente
|
Durante os últimos
dois meses, VEJA conversou com catorze
dos mais importantes generais do regime
de 64. São homens que estão
chegando ou já chegaram à
linha dos 80 anos, desligaram-se da
vida pública há tempos
e, na maioria, vivem de forma reclusa.
Há várias notas comuns
entre eles, além da farda que
vestiram no passado. São pessoas
tristes, como tantos velhos. Têm
poucos amigos. Seu padrão de
vida é bom, mas nenhum deles
é rico. São senhores de
classe média, o que desmente
a impressão comum durante a ditadura
de que a Revolução produziu
enormes negociatas e alguns chefões
militares milionários (e corruptos).
Os generais aposentados pensam no regime
que ergueram e sustentaram durante 21
anos e são críticos a
respeito do que fizeram. Nenhum grupo
ou pessoa nem mesmo o imperador
Pedro II teve tanto poder para
realizar um projeto no Brasil. Os militares
tiveram tudo. Sufocaram a oposição
e tinham um flexível instrumento
jurídico, o Ato Institucional
nº 5, que os livrava de obedecer
à Constituição.
Censuravam livros, imprensa, TV, teatro
e cinema. Podiam contratar os técnicos
que bem entendessem, redigiam seus orçamentos
sem nenhum palpite do Congresso e nomeavam
governadores como se contratassem capatazes
de fazenda.
Tinham dinheiro, pois
os empréstimos internacionais
eram fáceis e baratos em sua
época. Sobretudo, tinham a idéia
bem definida de transformar o Brasil
numa potência capitalista do primeiro
escalão, com influência
política internacional. Não
conseguiram. Eles imaginavam que seus
dotes de quartel, como trabalho duro,
objetividade, respeito hierárquico,
pensamento lógico, hábito
de planejamento, disciplina, espírito
de corpo, os qualificariam como gerentes
superiores. Erraram. Quando a ditadura
se encerrou, em 1985, o Brasil era um
país diferente, mais rico, mais
moderno, mas estava longe de ser potência
política ou econômica.
Não por culpa dos civis, mas
dos gerentes militares, o país
mergulhou a seguir numa de suas piores
crises econômicas. Que durou dez
anos e, por ironia, só começou
a ser resolvida pelo presidente Fernando
Henrique Cardoso, forçado ao
exílio pela Revolução.
Os generais tiveram muito
tempo para pensar. Hoje, quando se conversa
com eles, o que se nota é frustração,
entre outros sentimentos. A missão
que se auto-atribuíram não
foi cumprida. Talvez tenham percebido
também que não são
superiores em nada aos homens comuns.
Nem em habilidades profissionais, em
questões morais ou em amor pela
pátria. É praticamente
certo que a auto-imagem dos que governaram
durante o regime de 64 foi de alguma
forma abalada. E que o isolamento em
que esses homens vivem seja em parte
justificado pelo fato de que a Revolução
não é bem-vista pela maioria
esmagadora dos brasileiros. Ao deixar
o poder, o último presidente
militar, João Baptista de Oliveira
Figueiredo, disse uma frase grosseira,
bem ao seu estilo de cavalariano. "Quero
que me esqueçam", afirmou Figueiredo
quando um jornalista lhe perguntou que
mensagem gostaria de passar aos brasileiros
na hora em que se afastava da Presidência.
Por ironia, as pessoas estão
mesmo esquecendo as coisas boas que
o regime militar fez. Mas as coisas
más continuam vivas. Fala-se
no milagre econômico dos anos
70 como uma preparação
da crise econômica que viria,
um prelúdio do desastre. Lembra-se
dos mortos, torturados e desaparecidos.
Há a lembrança, correta,
de que muitos militares abusaram da
farda para conseguir emprego, furar
fila e estacionar o carro em lugar proibido.
Entende-se, por tudo isso,
que essa gente se tenha recolhido. E
que muitos dos que foram poderosos há
vinte ou trinta anos cheguem agora aos
80 anos com pontos de drama em sua vida.
O primeiro presidente do ciclo de 64
foi o marechal Humberto de Alencar Castello
Branco, um oficial intelectualizado
que governou por pouco menos de três
anos. Naquele tempo, até os militares
achavam que sua intervenção
seria passageira. Castello Branco morreu
quatro meses depois de afastar-se do
governo, em um acidente aéreo.
O último presidente, o general
Figueiredo, uma pessoa carrancuda, mais
chegada a cavalos de raça do
que a livros, governou seis anos, numa
época em que já não
havia razão, ou sentido, para
um governo militar. A Guerra Fria estava
terminando e o Brasil tinha perdido
todo o empuxo econômico.
João Figueiredo
fará 82 anos em janeiro e é
um homem muito doente. Começa
a esquecer pessoas e fatos. Raramente
sai de seu apartamento no luxuoso condomínio
Praia Guinle, em São Conrado,
no Rio de Janeiro, onde vive com a mulher,
Dulce, na companhia de alguns seguranças
e enfermeiras. Só recebe visitas
dos filhos Paulo e João ou do
irmão Diogo, também general
da reserva. O general sempre levanta
por volta das 8 da manhã. Já
não pode ler ou escrever. De
manhã, ele mata o tempo assistindo
à TV, esperando a hora do almoço.
Um segurança lhe faz a barba
apenas duas ou três vezes por
semana. Almoça sempre um prato
leve preparado pela mulher e, no começo
da tarde, volta a dormir. Até
os passeios de carro que fazia à
tarde na orla do Rio entre os bairros
de São Conrado e a Barra escassearam.
Em nada se parece com
o homem atlético que montava
cavalo, fazia ginástica e posava
de sunga para fotografias à beira
da piscina. Sua hérnia de disco,
que adquiriu na prática da equitação,
limita seus movimentos. Ele só
caminha amparado por um segurança
ou um enfermeiro. Perdeu 70% da visão.
Sofre de incontinência urinária.
Seus rins não funcionam bem e
toda noite, enquanto dorme, se submete
a hemodiálise peridural, o que
o obriga a permanecer com um cateter
preso ao ventre durante o dia. Há
duas semanas, foi internado pela segunda
vez neste ano na Casa de Saúde
São José, no Rio, para
uma bateria de exames. No quarto 815
do hospital, poucos foram visitá-lo.
Apenas o irmão Diogo, os filhos,
a mulher e dois ou três amigos.
O general está só. Está
esquecido, como havia pedido aos brasileiros.
Em vários sentidos,
o sofrimento do ex-presidente comove.
Figueiredo foi um bom oficial, nunca
teve jeito para ditador, de certa maneira
é um homem modesto, teve a ambição
de ser querido pelas pessoas e, afinal,
entregou o governo a um civil (Tancredo
Neves) que lhe fazia oposição.
Pôs fim à ditadura que
ajudou a criar e saiu de cena. Faltavam-lhe
vocação e legitimidade
para exercer a Presidência. Além
disso, para alguém com sua responsabilidade,
foi um péssimo fazedor de frases.
Certa vez disse que preferia o cheiro
de cavalos ao do povo. De outra, falou
que "quem não quiser a abertura,
eu prendo e arrebento". Essas frases,
evidentemente, não poderiam ser
tomadas em seu sentido literal. Mas
foram ditas num momento em que os brasileiros
sofriam com o fracasso econômico
e simplesmente não suportavam
mais os governos militares.
Era inevitável
que tivesse saído do governo
como saiu, sem um pingo de prestígio
político, sem nenhum reconhecimento.
São impressionantes as coisas
que acontecem atualmente com o homem
que atingiu o topo da casta militar
e governou o país por tanto tempo.
Há dois anos, desesperado com
o problema da hérnia, apelou
para o curandeirismo. Submeteu-se a
uma cirurgia espiritual, feita por um
médium que diz incorporar o espírito
do "Doutor Fritz", o mesmo que movia
o falecido Zé Arigó. Não
adiantou. O general também está
com problemas financeiros. Há
pelo menos quatro anos tenta vender
uma propriedade que possui em Petrópolis,
o Sítio do Dragão, mas
não acha comprador. Já
vendeu objetos de valor ganhos na época
em que era presidente da República
e aceitou doações de amigos
para pagar o tratamento médico.
Figueiredo recebe aposentadoria do Exército
de 6.000
reais por mês, além da
de ex-presidente, de 8.500.
Ele se trata por um plano de saúde
privado e quer distância dos hospitais
públicos, que não considera
confiáveis.
A última aparição
pública de Figueiredo ocorreu
há quatro meses. A convite de
quinze amigos, o ex-presidente almoçou
na churrascaria Oásis, no Rio,
perto de onde mora. Estavam lá
alguns de seus antigos colaboradores,
como os ex-ministros Nestor Jost, da
Agricultura, Alfredo Karam, da Marinha,
e Ernane Galvêas, da Fazenda,
e o ex-presidente da Caixa Econômica
Federal Gil Macieira. Ele não
deixará nenhum testemunho sobre
sua vida. Há pouco tempo, os
amigos Antonio de Oliveira Santos, presidente
da Confederação Nacional
do Comércio, e Ernane Galvêas
tentaram convencê-lo a gravar
um depoimento sobre o tempo em que ficou
no governo. Ele concordou, chegou a
gravar algumas fitas, mas desistiu e
destruiu todo o material que tinha gravado.
"Agora não há mais tempo.
Ele começou a se esquecer de
coisas", disse Galvêas.
Como fato histórico,
o movimento militar de 64 é uma
conta ainda não encerrada. A
seu respeito, muitas coisas precisam
ser pesquisadas e esclarecidas pelos
historiadores. E, por sua proximidade
no tempo a maioria de seus protagonistas
ainda vive , é difícil
julgar isso e aquilo com isenção.
Mas algumas coisas podem ser afirmadas
com certeza. Os militares brasileiros
sempre se julgaram possuidores do direito
de tolerar ou vetar atos políticos
praticados pelos paisanos. Vetaram e
exilaram o imperador em 1889. Deram
um fim à República Velha
em 1930, trocando o presidente eleito,
Júlio Prestes, pelo candidato
derrotado, Getúlio Vargas. Depuseram
o ditador Getúlio, em 1945, e
contribuíram ativamente para
o fim de seu segundo governo, este eleito
democraticamente, em 1954. Atazanaram
a vida dos presidentes civis que se
seguiram. Mas foi só no ambiente
de radicalização política
da época de João Goulart
que os militares mudaram a prática.
Em 1964, decidiram não
apenas substituir um paisano por outro.
Eles próprios assumiram o comando.
Em contraste com o que veio depois,
o marechal Castello Branco foi um brando
reformador. Do ponto de vista econômico,
suas reformas foram boas. Em seu governo
foi criado o Banco Central, o mercado
aberto para os títulos públicos
e o Banco Nacional da Habitação,
o BNH. A inflação foi
controlada. Segundo historiadores, Castello
pretendia promover eleições
diretas após a intervenção.
Só que era uma época de
divisão aguda entre capitalismo
e comunismo e a guerra entre as duas
correntes se dava tanto nas selvas do
Vietnã quanto nas ruas de Paris.
Os militares ficaram, com uma diferença.
Além de financiar empresas, fortalecer
estatais, tomar empréstimos externos
para estimular o desenvolvimento econômico,
iriam também surrar a oposição.
De várias maneiras. Nos casos
mais simples, cassando os direitos políticos
dos opositores ou decretando sua aposentadoria
nos cargos públicos. Nos casos
mais graves, sua ala mais radical prendeu,
torturou, matou.
É pela marca da
linha dura que se conhecerá o
período de sete anos durante
o qual governaram dois outros militares,
o marechal Artur da Costa e Silva (que
morreu de trombose em 1969) e o general
Emílio Garrastazu Médici,
falecido em 1985. O sucessor de Médici
foi Ernesto Geisel, pertencente a uma
outra família esta disposta
a acabar com a tortura e iniciar a distensão
política. Como queria Geisel,
a abertura política seria lenta.
Foi lentíssima. Durou dez anos.
Na forma e na prática, a ditadura
de 64 foi diferente de outras que se
espalharam pelo mundo. Nenhum de seus
chefes quis permanecer indefinidamente
no Planalto. Davam ao seu revezamento
uma aparência de legitimidade
eram empossados pelo voto de
um colégio eleitoral. O Congresso
foi fechado, mas por períodos
breves. Os políticos de oposição
podiam ao menos fazer discursos, embora
se arriscassem a perder o mandato. Os
militares que torturaram não
foram punidos e a probabilidade é
de que nunca se saiba quem eram e quantos
eram. Mas também não subiram
na carreira. A tortura e o assassinato
não foram digeridos entre os
colegas de arma e é compreensível
que muitos se envergonhem até
hoje dessa mancha.
A revolução
perdeu o rumo econômico na segunda
metade da década de 70. Por essa
época, investimentos pesados
já estavam feitos na infra-estrutura
do país (nos setores de energia
e de telecomunicações,
por exemplo) e a indústria leve,
de consumo, estava suficientemente preparada
para uma abertura econômica. A
prudência recomendava essa abertura,
assim como a contenção
dos gastos públicos, para evitar
a inflação, e do endividamento
externo. Mas para que frear a máquina,
se ela estava correndo, dava empregos,
exibia progressos e tudo isso
escondia a falta de eleições
e todos os outros defeitos revolucionários?
Economicamente, o regime de 64 encerrou-se
em 1981, com a crise da dívida.
Politicamente, foi liquidado em 1982,
com a primeira eleição
direta para governadores. Os militares
nunca fizeram questão de adular
eleitores. Figueiredo foi o único
que tentou, e não conseguiu.
Desprezavam os políticos tradicionais.
Por isso não podiam mesmo voltar
à política nos braços
do povo, como aconteceu com Getúlio.
Restou-lhes tempo e o sofá de
casa, para reflexão.
|
|