Edição 1 628 -15/12/1999

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Petróleo

Ligações perigosas

A Polícia Federal investiga contratos
da Petrobras com a Marítima

Consuelo Dieguez

A Polícia Federal está conduzindo há dois meses uma investigação sigilosa na maior empresa do país, a Petrobras. A pedido do Ministério Público, a PF está mergulhando fundo no mar de lama que pode cercar as relações singulares entre a antiga diretoria da estatal, então presidida por Joel Rennó, e a companhia Marítima, do empresário German Efromovich. A suspeita é de que a Marítima tenha sido favorecida nas concorrências abertas pela Petrobras, a partir de 1995, para a construção de plataformas de perfuração e exploração de petróleo. São negócios superiores a 2 bilhões de dólares. O inquérito policial irá apurar não apenas a extraordinária concentração de contratos nas mãos de uma empresa que não tinha condições técnicas de cumpri-los como também a condescendência da estatal com os diversos atrasos nos prazos das obras.

Esta é a primeira vez que o Ministério Público Federal abre um inquérito para investigar indícios de corrupção na Petrobras – uma empresa dona de números sempre grandiosos, na qual são comuns licitações de centenas de milhões de dólares. As suspeitas de que algo estranho poderia ter acontecido nessas concorrências surgiram logo que a nova diretoria assumiu, em março passado. Nessa época, verificou-se que duas das seis plataformas de petróleo da série Ametista, cuja construção estava a cargo da Marítima, já tinham estourado em muito seu prazo de entrega. Pior: mesmo tendo demonstrado que não cumpriria os prazos acertados, a Marítima ganhou outras duas concorrências da Petrobras para a construção de mais quatro plataformas em 1996 e 1997. O que se descobriu foi que a antiga diretoria da Petrobras fez várias prorrogações nos prazos para evitar que a Marítima ficasse inadimplente e não pudesse participar das outras licitações. O resultado é que duas plataformas que deveriam ficar prontas até o final deste mês estão com atraso de mais de um ano. Em novembro, a Marítima entregou, quatro meses após o tempo determinado, outra plataforma, a P-36 – e mesmo assim, por não ter cumprido sua parte no contrato, obrigou a Petrobras a desembolsar 45 milhões de dólares.


Dilmar Cavalher/Strana
Agostini: interrogado


Na semana passada, o delegado Edvaldo Pereira começou a interrogar os ex-diretores envolvidos nas concorrências vencidas pela Marítima, numa lista que incluirá até o ex-presidente Rennó. O primeiro depoimento foi de Luiz Carneiro, que ocupava a superintendência de Exploração e Produção quando foram feitas as licitações. Foi Carneiro quem assinou uma carta considerada suspeita pela atual diretoria da Petrobras. O documento dava um prazo de mais 540 dias para a Marítima entregar as plataformas após o vencimento dos contratos. Carneiro alega que assinou a carta com o conhecimento de seu chefe, o então diretor Antônio Carlos Agostini. Na terça-feira da semana passada, foi a vez de Agostini depor. Ele confirmou que tinha conhecimento da carta. "Concordei porque era a única forma de a Marítima conseguir financiamento para continuar a construção das plataformas", disse Agostini a VEJA na quinta-feira dia 9.

A questão central, porém, ainda não foi esclarecida. Por que razão a Petrobras permitiu que uma empresa que até 1994 tinha um patrimônio inferior a 1 milhão de dólares e nenhuma experiência na construção de plataformas abocanhasse as maiores obras da companhia, num valor superior a 2 bilhões de dólares? A explicação de Agostini é que a Marítima ofereceu o menor preço e, portanto, ganhou a concorrência, como mandava a lei. A avaliação da atual diretoria, contudo, é que nenhuma lei obrigava a Petrobras a fechar negócio com uma empresa sem condições técnicas de cumprir os acordos. Eles consideram também que em nenhum lugar do mundo se concentra a construção de obras desse vulto numa mesma empresa – ainda mais do porte da Marítima.

 


Selmy Yassuda
Mansão na Barra da Tijuca: avaliada
em
2 milhões de reais


Agostini é figura-chave nesse processo. Foi a partir de sua ascensão na diretoria da estatal que a Marítima ganhou um espaço colossal ali. Aliás, foi com discreto apoio do dono da Marítima que Agostini foi promovido a diretor, em 1995. Esse impulso na sua carreira foi conseguido com um empurrão de Efromovich e de Hélio França, um conhecido lobista carioca, que mantém boas relações com a Marítima. França foi responsável pelas finanças de várias campanhas do ex-governador fluminense e atual assessor especial da Presidência da República, Moreira Franco. E foi exatamente Moreira quem se empenhou pessoalmente na nomeação de Agostini. As relações do então diretor da Petrobras com Hélio França ficaram tão próximas que o lobista passou a despachar na estatal numa sala ao lado da ocupada por Agostini. Mais: o carro de França, um Audi, tinha vaga cativa no estacionamento da estatal. Outro fato que chama a atenção em Agostini é o seu enorme talento para gerir seus recursos pessoais. Com o salário líquido em torno de 7
.500 reais (considerando apenas o cargo mais alto que ocupou), ele conseguiu comprar há dois anos uma mansão no mais luxuoso condomínio da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, avaliada em 2 milhões de reais. Para fechar essa conta, Agostini teria de trabalhar durante 23 anos sem gastar um tostão.

Com reportagem de Ronaldo França