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Petróleo
Ligações
perigosas
A
Polícia Federal investiga contratos
da
Petrobras com a Marítima
Consuelo
Dieguez
A
Polícia Federal está conduzindo há
dois meses uma investigação sigilosa
na maior empresa do país, a Petrobras. A
pedido do Ministério Público, a PF
está mergulhando fundo no mar de lama que
pode cercar as relações singulares
entre a antiga diretoria da estatal, então
presidida por Joel Rennó, e a companhia Marítima,
do empresário German Efromovich. A suspeita
é de que a Marítima tenha sido favorecida
nas concorrências abertas pela Petrobras,
a partir de 1995, para a construção
de plataformas de perfuração e exploração
de petróleo. São negócios superiores
a 2 bilhões de dólares. O inquérito
policial irá apurar não apenas a extraordinária
concentração de contratos nas mãos
de uma empresa que não tinha condições
técnicas de cumpri-los como também
a condescendência da estatal com os diversos
atrasos nos prazos das obras.
Esta
é a primeira vez que o Ministério
Público Federal abre um inquérito
para investigar indícios de corrupção
na Petrobras uma empresa dona de números
sempre grandiosos, na qual são comuns licitações
de centenas de milhões de dólares.
As suspeitas de que algo estranho poderia ter acontecido
nessas concorrências surgiram logo que a nova
diretoria assumiu, em março passado. Nessa
época, verificou-se que duas das seis plataformas
de petróleo da série Ametista, cuja
construção estava a cargo da Marítima,
já tinham estourado em muito seu prazo de
entrega. Pior: mesmo tendo demonstrado que não
cumpriria os prazos acertados, a Marítima
ganhou outras duas concorrências da Petrobras
para a construção de mais quatro plataformas
em 1996 e 1997. O que se descobriu foi que a antiga
diretoria da Petrobras fez várias prorrogações
nos prazos para evitar que a Marítima ficasse
inadimplente e não pudesse participar das
outras licitações. O resultado é
que duas plataformas que deveriam ficar prontas
até o final deste mês estão
com atraso de mais de um ano. Em novembro, a Marítima
entregou, quatro meses após o tempo determinado,
outra plataforma, a P-36 e mesmo assim, por não
ter cumprido sua parte no contrato, obrigou a Petrobras
a desembolsar 45 milhões de dólares.
Dilmar Cavalher/Strana
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| Agostini:
interrogado |
Na semana passada, o delegado Edvaldo Pereira começou
a interrogar os ex-diretores envolvidos nas concorrências
vencidas pela Marítima, numa lista que incluirá
até o ex-presidente Rennó. O primeiro
depoimento foi de Luiz Carneiro, que ocupava a superintendência
de Exploração e Produção
quando foram feitas as licitações.
Foi Carneiro quem assinou uma carta considerada
suspeita pela atual diretoria da Petrobras. O documento
dava um prazo de mais 540 dias para a Marítima
entregar as plataformas após o vencimento
dos contratos. Carneiro alega que assinou a carta
com o conhecimento de seu chefe, o então
diretor Antônio Carlos Agostini. Na terça-feira
da semana passada, foi a vez de Agostini depor.
Ele confirmou que tinha conhecimento da carta. "Concordei
porque era a única forma de a Marítima
conseguir financiamento para continuar a construção
das plataformas", disse Agostini a VEJA na quinta-feira
dia 9.
A
questão central, porém, ainda não
foi esclarecida. Por que razão a Petrobras
permitiu que uma empresa que até 1994 tinha
um patrimônio inferior a 1 milhão de
dólares e nenhuma experiência na construção
de plataformas abocanhasse as maiores obras da companhia,
num valor superior a 2 bilhões de dólares?
A explicação de Agostini é
que a Marítima ofereceu o menor preço
e, portanto, ganhou a concorrência, como mandava
a lei. A avaliação da atual diretoria,
contudo, é que nenhuma lei obrigava a Petrobras
a fechar negócio com uma empresa sem condições
técnicas de cumprir os acordos. Eles consideram
também que em nenhum lugar do mundo se concentra
a construção de obras desse vulto
numa mesma empresa ainda mais do porte da
Marítima.
Selmy Yassuda
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Mansão
na Barra da Tijuca: avaliada
em 2
milhões de
reais
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Agostini é figura-chave nesse processo. Foi
a partir de sua ascensão na diretoria da
estatal que a Marítima ganhou um espaço
colossal ali. Aliás, foi com discreto apoio
do dono da Marítima que Agostini foi promovido
a diretor, em 1995. Esse impulso na sua carreira
foi conseguido com um empurrão de Efromovich
e de Hélio França, um conhecido lobista
carioca, que mantém boas relações
com a Marítima. França foi responsável
pelas finanças de várias campanhas
do ex-governador fluminense e atual assessor especial
da Presidência da República, Moreira
Franco. E foi exatamente Moreira quem se empenhou
pessoalmente na nomeação de Agostini.
As relações do então diretor
da Petrobras com Hélio França ficaram
tão próximas que o lobista passou
a despachar na estatal numa sala ao lado da ocupada
por Agostini. Mais: o carro de França, um
Audi, tinha vaga cativa no estacionamento da estatal.
Outro fato que chama a atenção em
Agostini é o seu enorme talento para gerir
seus recursos pessoais. Com o salário líquido
em torno de 7.500
reais (considerando apenas o cargo mais alto que
ocupou), ele conseguiu comprar há dois anos
uma mansão no mais luxuoso condomínio
da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, avaliada
em 2 milhões de reais. Para fechar essa conta,
Agostini teria de trabalhar durante 23 anos sem
gastar um tostão.
Com
reportagem de Ronaldo França
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